Somos Histéricos, Talvez Não Depressivos. Teses A Partir De Christian Dunker

A ideia de que a depressão é uma doença do século XX, e que ela está ligada ao avanço do neoliberalismo pós-1970, pode ser bastante sedutora. Afinal, a mídia fala todo dia em neoliberalismo e o assunto depressão também está na moda. Não desprezo a moda como indicador para o conhecimento do que vivemos. Por isso, acho que é bom ver que hoje em dia há modas, e não uma moda.

Christian Dunker é um psicanalista e youtuber que aposta que depressão e neoliberalismo possuem um vínculo. Penso que ele fala a respeito de patologia, isto é, da depressão como doença. Lá na sua clínica, ele deve estar preocupado em entender o que a sociologia lhe fornece como apoio para saber sobre o que lhe cai no divã. Nada mais justo. Mas filósofos como eu preferem tomar as patologias apenas como heurísticas para falar do mundo em geral, do homem moderno que, em princípio, não é um doente ou não se considere um doente. E isso eu digo mesmo sabendo que todos nós estamos ingerindo remédios para algum problema relativo a um distúrbio psíquico, e que há poucos que não caíram em algum consultório médico e receberam indicações de que sofrem de “síndrome de pânico” ou “bipolaridade” ou “depressão” etc. Bem, se tomo patologias como heurísticas, prefiro ver no comportamento do homem contemporâneo não necessariamente o deprimido – tomando aqui esse termo em sentido não técnico.

É claro que temos uma série de comportamentos que indicam reclusão e inibição. Não notar a deserotização dos jovens de classe média hoje em dia seria bobagem. Mas, quando olhamos a sociedade a partir de um sobrevoo, penso ser mais fácil enxergar pessoas que estão em uma louca “festa de suicidários” (Sloterdijk) do que indivíduos recolhidos em seus travesseiros sofrendo em posição fetal. Caso eu pudesse escolher Ulisses na Odisseia como o protótipo do homem moderno, como Horkheimer e Adorno fizeram no livro Dialética do Iluminismo, eu preferiria vê-lo antes de tudo como histérico, e não como melancólico ou, tomando novamente liberdade quanto ao termo, deprimido.

No meu livro O que é Dialética do Iluminismo (Manole), expliquei a tese de Horkheimer e Adorno sobre Ulisses. O herói teve que reprimir instintos para poder passar por cada potência mítica. Com isso, adquiriu uma inteligência calculista, típica do burguês moderno, e ao mesmo tempo perdeu sua natureza original. A perda é sempre motivo para o luto. Mas o luto não realizado, inclusive por conta das necessidades imperiosas da própria viagem de volta à Itaca, tornou Ulisses um melancólico, alguém incapaz de superar o que perdeu. Nós modernos estaríamos nessa: a de ter de arcar com uma subjetividade pautada pela melancolia, na transição da vida natural para a vida cultural, ou do pré-moderno para o moderno. A melancolia é inibidora e, portanto, mais afeita ao que conhecemos como depressão.

No meu livro Para ler Sloterdijk (Via Verita), expliquei a tese de Peter Sloterdijk, que desenha um Ulisses antes um histérico que melancólico. Trabalhei então com o texto de Kafka sobre as sereias (veja aqui), em que o autor conjectura que Ulisses não viu sereia alguma e apenas fingiu que a encontrou, apenas teatralizou a si mesmo (e isso é histerismo) no mastro, para que os marinheiros e ele próprio não desaparecessem. Afinal, sem as sereias, existiria Ulisses e sua viagem, existiria o homem ocidental, que depende exatamente dessa origem devedora a Homero? Assim, na passagem para a modernidade, o que Ulisses teve de fazer não foi se enfiar numa perda, mas num ganho teatralizado. Ulisses inaugurou a modernidade segundo a tarefa de abandonar a dicotomia tradicional entre ser e ter para se fixar no mandamento do aparecer (Guy Debord). Ser moderno é aparecer. Ser moderno é construir-se a si mesmo, em teatro que nada é senão a atitude histérica, e assim poder forjar uma ontologia própria, criar um lugar para si próprio. A modernidade pode ser narcísica, mas assim o é por conta da mentira que o homem conta a si mesmo.

Assim, entre um livro e outro, o que fiz foi traçar a subjetividade moderna como melancólica e em seguida vê-la mais como histérica. Essa última forma me pareceu mais adequada às exigências neoliberais de proatividade exigidas atualmente.

Essa visão que construo a partir de Sloterdijk parece algo que me dá uma narrativa com a qual posso abordar o neoliberalismo de modo mais arredondado do que eu fazia com a narrativa do Ulisses melancólico. Sendo este, o neoliberalismo, um regime que impulsiona todos à atitude de empresariar a si mesmo, e sendo que isso se faz no mundo atual do capitalismo financeiro ou capitalismo de ações por meio do marketing, então é mais fácil acreditar que somos criadores de nós mesmos enquanto os que forjam ficções a respeito de si mesmos. Temos de aparecer para sermos cotados como empresas. E aparecemos se podemos exibir qualidades histéricas, isto é, qualidades de quem cria grandes teatralizações sobre si mesmo. Afinal, só em uma grande ficção narcísica e castamente orgiástica é possível fazer um curso de empreendedorismo e virar empreendedor no sentido que o neoliberalismo exige.

As celebridades fazem isso com desenvoltura: Anitta tatuou o “cool”, disseram. Tatuou e mostrou a coisa sendo feita. Ideólogos da direita, dizem, iriam tatuar algo também no “cool”, mais ou menos como “Make America Great Again”. O homem comum, que não é Anitta, também faz o mesmo no seu Facebook, para se apresentar na fila de emprego que ele imagina que é uma fila de eleição para se tornar empresário-investidor. É nesse afã de mostrar que podem apostar nele, como quem aposta em ações de companhias que podem não estar produzindo nada e ao mesmo tempo dando lucro para acionistas, que vive o homem contemporâneo. Nesse caso, a patologia que nos serve de heurística é a histeria, não a depressão.

Podemos inferir mais a partir dessa narrativa. Chego mesmo a dizer que Bolsonaro é o típico histérico, o teatralizador de si mesmo, e exatamente por respirar as ordens do espírito de nossa época, conseguiu sintonia popular para se eleger. Mas essa história é outra história, que já comecei a contar em outros lugares, desde 2018.

© Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo. 23/02/2021

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