Como matar um bolsonarista

Vou contar um caso que ainda não aconteceu de todo, mas está para ocorrer. É o caso do catarinense, barriga verde da gema, na sua aventura de Carnaval. Sim, este Carnaval de agora, que não ocorreu. Bem, não ocorreu para nós, para o Han Melo Nunes o Carnaval veio a todo vapor.

Han é da cidade de Blumenau. Ele é loiro, como todos por lá. Um piazão, como o povo do sul chama aquilo que em São Paulo nomeamos de “caipira”, e que no passado, graças ao gênio de Monteiro Lobato, dizíamos ser o Jeca.

O maior orgulho de Han era o de ter visitado uma capital. E não era Floripa, era “no exterior”: Curitiba. Lá ele foi ver parentes. E conheceu um primo que ele só sabia da existência, mas nunca tinha visto em pele mesmo, em cheiro. O primo era um nordestino que todos chamavam de Paraíba. Han ficou emocionado e curioso com as histórias do primo. O primo lhe contou que tinha visitado várias cidades do norte e do nordeste, e que em cada uma tinha uma namorada, e em algumas até esposas. Curtia até uma indiazinha em Manaus, que ele mesmo fazia questão de qualificar: “fodia melhor que preta no cio”. Tudo isso corava o Han, mas ao mesmo tempo lhe despertava raiva, só que nas entranhas do mal-estar, por conta de ver tanta falta de caráter do primo, também lhe vinha um sentimento ambíguo de admiração, até de inveja.

Han casou virgem com uma alemã que não pegava no tranco de modo algum. Não tinha orgasmo nem com cavalo novo, que ele havia comprado só para ela. Ou seja, não gozava nem quando a reza de Han era para Jesus, sem a abreviação que passa por algum santo antes de chegar ao filho do Criador. Han sonhava então em dar uma corneadinha na prenda que havia se tornado patroa. Pensou muito, hesitou, mas por sonho de escutar o que lhe diziam que era o encanto na Terra, que é o gemido de mulher, acabou pedindo um conselho ao primo. Como ele poderia fazer para dar uma escapadela? O nordestino lhe corrigiu, dizendo, isso que você falou é muito feio. Aprendi em São Paulo que isso se chama “experiência extraconjugal”. E no Rio de Janeiro isso tem o nome de “férias conjugais”. Em Minas é “traidinha”. Em Porto Alegre se diz “foi pescar com outro índio velho” – e nesse caso é verdade mesmo, o que não significa que não haverá sexo! No Nordeste ainda falamos “pular cerca”. Han ficou boquiaberto com a sabedoria semântica e literária do primo, que de fato já lhe parecia, então, um intelectual – desses que escrevem até em jornal. E aí, diante de tal sabedoria humanística, perdeu a vergonha de uma vez, e insistiu com o primo como ele deveria agir.

O primo olhou para os lados, naquela forma corriqueira de achar que estava de fato se importando em estar ou não sozinho. Olhou para cima, para ter certeza que nenhum anjo rodeava. Pesquisou embaixo da mesa, de modo a convocar o só o diabo como testemunha. E acertando bem a máscara de proteção da covid, jogou ao primo, na lata, a pergunta: em quem você votou em 2018 para presidente?

Han também acertou a máscara, que lhe apertava o rosto e que ele queria abandonar. Achou aquela pergunta fora de propósito. Olhou nos olhos do nordestino e este estava lá, naquela posição de espera. Ora, Han havia frequentado dois anos de escola, e lá aprendeu que não se deixa um professor esperando. Soltou a resposta, aquela que o Paraíba já sabia: “Bolsonaro”.

Feito isso, consolidada a sabedoria. Paraíba lhe deu a senha. “Não vai haver Carnaval este ano, portanto, sua mulher nunca vai desconfiar de uma saidinha sua para algum bailão por aí.” Em seguida, o primo concedeu a explicação valiosa para a prática do acasalamento extracurricular.

— “Diga que vai para um retiro espiritual que eu lhe recomendei, e vá para um bailão de periferia. Até em Itajaí tem isso. Procure e vai achar. Chegando lá, tome umas e outras e veja as pretas com bundas mais avantajadas. Rodeie também universitárias que podem estar ali procurando macho fora da classe média. Fique atento para novinhas de cabelo vermelho e seios durinhos. Estas são endiabradas e gozam por vários buracos. Leve dinheiro. Olha, você tem uma aparência rústica, a mulherada tá cansada de tanto viadinho, vão acabar gostando de você”.

Han se sentiu, pela primeira vez, um homem.

Um conselho desses para uma pessoa normal, não daria certo. Se o Carnaval tá para não ocorrer, é porque há o perigo da aglomeração, que a TV anunciou. Mas o primo certificou-se que o piazão era bolsonarista, propenso a não dar bulhufas para o tal vírus, pandemia ou qualquer coisa assim. Se estava de máscara, era apenas por solicitação ali da casa do primo. Na conta do tal negacionismo, o conselho surtiu efeito. E lá foi Han para o seu retiro espiritual. Três dias de esbórnia em bailão clandestino de Carnaval, em Chapecó. Pouca preta, ou nenhuma, mas universitárias loucas cheias de cocaína. Tudo carioca de férias.

Ali ele esfregou pouco em xota, mas bastante em coronavírus. Conseguiu enfim dar umas bicotas. E gozou com o pau na mão, por conta de uma punheta que uma guria universitária (sim, era do bairro do Bom Fim, de Porto Alegre) lhe concedeu, após uma chupeta que ela fez apenas para mandar para o namorado de Ponta Grossa, um baguá que fazia medicina e não dava no couro.

Han voltou para casa e após alguns dias foi recolhido já sangrando pelo SAMU. Jogaram Han num hospital de campanha, em algo que todos diziam que era UTI, mas que não tinha nenhuma diferença da maca na qual ele veio. E Han encontrou com o diabo durante três dias e três noites. Sozinho. Rezou, chamou todo tipo de santo, mas os santos jamais protegem bolsonarista agonizando. Apesar das igrejas convocarem “homens de bem”, os santos fazem ouvidos moucos para esse pessoal, se eles são evangélicos. E são né?! E Han foi piorando. Quando a falta de ar chegou ao máximo suportável, Han culpou o primo. Mas não culpou a si mesmo ou na sua crença energúmena no Bolsonaro.

Nos poucos momentos em que Han podia falar, gritava “quero o remédio que assustou a Ema do Planalto e salvou o presidente”. Mas os médicos deram de ombros. Até que um médico com uma pança enorme, também eleitor do Coiso, trouxe a droga milagrosa, aquela causadora de arritmia, hepatite e morte. Han tomou. Han ganhou alta seis dias depois. Curado? Claro que não, afinal, continuava fervorosamente bolsonarista. A cloroquina, segundo ele mesmo (claro), o havia curado. E ainda por cima ele havia se livrado da alemã que não gozava. Ele pegou covid, morreu, mesmo tomando cloroquina. Se livrou também da sogra, que tomou doses até maiores, mas morreu mesmo. Mas Han sabia que isso não podia ser pela obra do remédio santo de Bolsonaro, afinal elas, as duas, tinham aquilo que o presidente havia dito: “comorbidade”. Han não sabia o que era, mas se o Bolsonaro havia dito, estava dito. Covid só mata quem tem a comorbidade.

Em Porto Alegre o estudante de medicina se colocou a chorar. Sua namorada vagabunda e boqueteira também havia morrido. Ele chegou até a pensar: será que não deram a cloroquina? Sim, o namorado da boqueteira fazia medicina numa faculdade particular e era eleitor do Partido Novo. Era um cloroquiner, além de corno. Bem, talvez isso seja mesma coisa!

E sobre o Paraíba? Quer saber como ele se saiu na história? Bem, ele continua por aí, mas agora só com uma esposa. A crise da covid não lhe permite tantas andanças pelo Brasil. Além disso, a covid o fez repensar relacionamentos!

Mas então Han, afinal, escapou da esposa ruim de cama, da sogra e ainda por cima driblou a doença? Nem tanto, dizem que Han está internado de novo, pegou a Nova Cepa, na qual ele não acreditava. Desta vez, pelas informações que tenho de uma tia dele, o encontro com o Tinhozo estava marcado mesmo. Ontem mesmo Han estava agonizando com hepatite. Han vai morrer feliz, afinal, ganhou uma masturbação de uma moça que lhe contou que ela gozava. Todavia, não gemeu. Nem toda história tem um final feliz. Umas moças gemem, outras não.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo ©

2 Responses to Como matar um bolsonarista

  1. José Carlos Arantes Júnior

    Ótimo conto professor, pode reunir outros e publicar como” coletânea dos templos de pandemia”

  2. Fábio Coelho Kwitko

    “Piazão” não é como chamamos o caipira ou jeca, mas sim como os gaúchos do interior chamam o menino novo, ou “guri novo”, não importando se ele é da roça ou da cidade grande. Por extensão, os adultos também usam para se referirem uns aos outros. “Piá” significa “menino”, “garoto”, “guri”, “moleque”. O USO do termo “piá” ou “piazão” é que é típico das pessoas do interior do Estado, mas o termo não se refere especificamente ao guri do interior. Se você usa “piá” em Porto Alegre, te tiram prá caipira; na capital se usa é “guri”: “Eu e os guri vamo fazê um churrasco.”. Mas, se você usa “guri” no interior, te tiram prá viado, no interior é “piá”: “Eu e os piá vamo fazê um churrasco”. “Moleque” se usa no interior e na capital. Agora, se você usar “menino” ou “garoto”, em qualquer parte do Rio Grande, hmmmm… vai te embora pro Paraná, viadão!