A beleza

Quando uma mulher diz que você é um “homem interessante”, suas chances de conquista se ampliaram. É o que escreveu certa vez o filósofo Ortega Y Gasset. Mas, eu completei, quando ela diz que você é um “fofo”, sua chances de pagar algo para ela são infinitas – e só! A recíproca para a mulher não é verdadeira, claro.

Caso você chame uma mulher de fofa, suas chances de levar um tapa na cara não são poucas. Mulher fofa, se não for velha, pode ser tomada como gorda. E como até as magras se acham gordas, e como essa história de se aceitar como gorda é balela de feminista que nunca leu nada de feminismo, chamar de fofa vai realmente soar ofensivo. Não faça isso! A não ser que a mulher seja uma chata que precisa de uma espinafrada, uma chamada de atenção daquelas que nos caem como missão dos deuses.

Chamar a mulher de bonita, pode? Pode. Pode falar “linda”. É bom. Algumas poucas mulheres, reclamarão: “mas eu quero ser chamada de inteligente, não de linda”. Essas nunca podem ser chamadas de inteligentes, elas acabaram de fazer uma declaração burra. A mulher que não sabe distinguir um elogio sincero ou um galanteio gentil não é uma mulher com quem você deva se relacionar. Fuja disso!

Mas há mulheres que nem pedem para que você as chame de inteligente, elas apenas vociferam se você elogia a mulher, em especial “a outra”. Nesse caso, tente nem precisar fugir, corte volta.

Um homem bonito, muito bonito, é viado. Todos sabemos disso. Você sabe disso, mas talvez por ser metido a pseudo-intelectual, vá me perguntar agora “o que é um homem bonito”. Não lhe respondo, tenho mais o que fazer.

O homem muito bonito é viado. Mas, como às vezes, fora do mundo gay, não se pode chamar ninguém de viado, pois sempre há o enrustido que vai gritar “homofobia”, podemos usar a palavra “gay”. Todavia, nem sempre. Pois também esta palavra pode gerar protestos. O melhor é não falar nada. Viu um homem bonito, se quiser saber algo das suas preferências eróticas, por conta de algum trabalho que envolve psicologia social, marketing e coisas do tipo, pergunte sua profissão desejada. Se ele é modelo ou quis ser, ele é gay. Quase regra! O homem modelo precisa ser andrógeno. O homem gay pode passar por andrógeno. Quanto aos outros homens, os machos, aí se eles são machos héteros ou não, vai do “radar gay”, que na verdade só mulheres (algumas) e outros gays possuem. Mas se você sempre acerta, então você se descobriu: você é gay. Se não é, será! Não digo efetivamente, mas talvez alguns sonhos mostrem para você algumas predileções que você não confessa nem para você mesmo.

A mulher tem que ser bonita. O homem deve ser interessante. Se você acha uma mulher só interessante, ela é lésbica. As mulheres são bonitas e feias. As bonitas são as que você acha interessante mas resolveu chamar de bonita, e as feias são as que você, por algum motivo, ainda não se dedicou a elas.

Não há mulheres feias, então? Em termos da natureza, não. Em termos do que elas mesmas são capazes de fazer com elas mesmas, sim, e muito. Em termos do que o mundo faz, então, meu Deus, nem se fale!

Outro dia vi as moças que trabalham na limpeza do prédio aqui, terceirizadas. Elas já não estavam mais com o macacão da companhia, que as tornam não feias, mas invisíveis. Estavam todas esperando o ônibus chegar. Lindas. Gordas ou magras, com tetas em pé ou caídas, com bundas magras ou quadradas – mas todas bonitas. O trabalho arrebenta a mulher, mas elas resistem. O cosmético, santo remédio corretamente comemorado e elogiado pelo poeta Baudelaire, opera milagres, milagrinhos e milagretes. Não falo isso para depreciá-las, mas, ao contrário, para dizer que elas enfrentam o capitalismo com qualquer arma da luta de classes. Se é com batom, que seja.

Agora, em tempos de pandemia, ou melhor, sindemia, as mulheres redescobriram a Síndrome de Pica Pau. Do que se trata? Ora, todos nós já vimos, ao menos uma vez, o fantástico desenho animado, hoje considerado politicamente incorreto pelos babacas da esquerda e da direita, em que o Pica Pau se apaixona pela dançarina oriental. Quando ela tira o véu, trata-se de um rosto monstruoso. A máscara trouxe ao Ocidente uma reformulação da indústria do cosmético: tudo para as sobrancelhas, cabelos e olhos, uma vez que a boca de cima adquiriu as mesmas chances da boca de baixo. Ou das bocas de baixo. A boca com batom, local do beijo que sela o amor verdadeiro, ganha agora novamente uma repaginação. Mais que aos lábios dos quadris, como já vinha acontecendo no mundo das “mulheres de vida fácil”, a boca do batom será para momentos especiais, quando a Covid representar só o perigo que hoje representa a AIDs. Isso manterá o beijo no eu-pedestal.

A beleza clássica tem a ver com a harmonia. A beleza humana, ainda que tenhamos jogado fora essa ideia, ainda assim reconsidera a harmonia. A harmonia foi redescrita. Antes tinha a ver com proporções, hoje tem a ver com o exagero tornado moda. Algo é feio, mas às vezes por insistência, traz uma reconsideração do que se pode chamar de harmonia, e começa a ser tomado como sexy, provocante e, um passo a mais, e torna até belo. Primeiro foi a beleza do homem que ganhou essa avaliação. Hoje também a mulher é julgada bela por essa via.

Os homens modernos podia dispensar a harmonia. As mulheres contemporâneas adquiriram tal prerrogativa. A palavra cosmético vem de Cosmos, o todo organizado, contra o qual há a desorganização, o Caos. Usar do cosmético é organizar o rosto. Antes era harmonizar o rosto, no caso das mulheres. Agora, o sentido é mais o de organizar. Há mulheres que não vão esconder um nariz adunco por conta de que ele seria feio. Ele pode estar na moda e, então, que o cosmético o deixe lá, ou até o acentue. A beleza da mulher casou com o erotismo, com a sexualidade. Não necessariamente porque nosso mundo é hedonista. Ele não é. Ele é apenas um mundo de excitação-e-desligamento. Isso parece hedonismo. Só parece. Um rosto bonito é, então, um rosto provocante. Pois a moda é provocante. A moda é efêmera e a beleza da mulher ganhou mais anos de vida, mas várias fases de efemeridade.

Ao fim e ao cabo, é necessário lembrar que a beleza é também algo sempre estranho. Do ponto de vista puramente das linhas, nada mais feio que a vagina. No entanto, somos capazes de olhar horas para ela, achando-a linda. Aliás, diga-se de passagem, se ela fede, pode até nos atiçar. Pau e xoxota dos amados possuem o poder de fedor e amor.

As mulheres dizem do pau do homem algo parecido que os homens dizem das xotas. A beleza que lembra o prazer ou que promete o prazer que vai além da visão, provoca também a visão. Isso porque nosso corpo é uma esfera se sinestesias feitas no movimento do líquido amniótico. Ali é que aprendemos tudo sobre o belo.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo

One Response to A beleza

  1. Fábio Coelho Kwitko

    No primeiro parágrafo, resposta errada. Se ela te chamar de “fofo”, a resposta é: “Tu que pensa. Vem aqui que vou te mostrar uma coisa bem dura.”. E se ela não gostar de ser chamada de “fofa”, a resposta é: “Vá tomar Coscarque!”.
    No terceiro parágrafo, resposta errada. Diga: “Por enquanto, meus olhos só conseguiram ver tua beleza, se quiser ser chamada de ‘inteligente’, antes terá que provar que é, não tenho bola de cristal.”.
    O quinto parágrafo vou fingir que nem li. A inveja é uma merda, mas eu compreendo quem a tem. Fora a pergunta idiota que eu jamais faria: “O que é um homem bonito?”. Ora, basta olhar prá mim, a beleza real encarnada! E tem outra, tá cheio de corno feioso que pensa assim igual ao amigo, eles preferem a ilusão… mas as mulheres deles não, essas gostam de um bonitão guascudo!
    Tchê, aqui não tem isso de “mulher interessante”, aqui é terra de “moça bonita”! Tem as feia e as gordacha também. Quanto às feia, só lamento; as gordacha ainda têm a chance de tomá Coscarque!
    O exagero pode gerar o belo sim, mas quando posto até certo limite, senão acaba gerando é a tosquice e a boçalidade. Não há nada pior que o mau-gosto, isso sim merece pena de morte!
    O resto tá bom.
    Acho que o amigo tá precisando passá uns tempo no Rio Grande…
    Aquele abraço!