Nossa imagem moderna e seus animais

Ser moderno é saber que vivemos o tempo do macaco, da toupeira e do cachorro. São os três animais que abrem os tempos modernos, imortalizados pelas falas de seus pais: Darwin, Marx e Freud.

Sabemos que o macaco não é bem o macaco, no caso de Darwin. Ficamos com a imagem do macaco por conta dele ser nosso primo mais próximo na evolução, e também pelo fato de que nosso ancestral não moderno teria uma aparência similar a do símio e menos parecido conosco. Mas, o fato é que “o homem vem do macaco”, no sentido correto da  expressão, diz que não temos mais como pensar o homem de modo exclusivamente metafísico. Não há uma consciência humana, de um lado, e a não consciência dos animais, de outro. Não são dois mundos, mas um único mundo sob um fio de desenvolvimento. Os ditos seres brutos e nós são criações do barro e das costelas comuns.

No caso da toupeira, ela foi a escolhida por Marx para simbolizar o que ele acreditou ter descoberto como a base da história moderna: a revolução. Marx viu a história moderna como um silencioso caminhar do desenvolvimento das forças produtivas que, em determinado momento, entram em contradição com as relações de produção e, então, forçam uma transformação política que realinha esses dois elementos em jogo. Esse movimento da preparação revolucionária se dá nos subterrâneos, e irrompe à luz do dia sem que possamos estar preparados. É exatamente como faz a toupeira, que cava às cegas e que bota sua cabeça para fora sabe-se lá onde e quando. Desconsiderar a modernidade como alheia ao conceito de revolução é perder pontos no trabalho de compreensão dos nossos tempos e de nós mesmos. A toupeira agiu na Independência dos Estados Unidos, na Revolução Gloriosa da Inglaterra, na Revolução Francesa etc. Não poderíamos falar dela em 1917 e, enfim, em 1989?

O cachorro vem na sequência. Freud olhou para o seu cão e o felicitou por não poder cair sob o “mal estar na civilização”. Ausente do mundo da cultura, ele não possui linguagem e, portanto, não comete atos falhos que podem ser tributados à grande descoberta de Freud (ou sua melhor redescoberta): o inconsciente. Os cães não teriam o inconsciente, pois este é  fruto daquilo pelo qual não passaram, as exigência de sublimações vindas da cultura, que faz as forças se voltarem para o interior e transformarem  em energia não agressiva aquilo que seria, enfim, uma energia caótica e reativa garantidora da autoproteção. Os cachorros seriam sempre felizes enquanto que nós, seus donos e, agora, seus pais, não poderíamos mais ser explicados senão com alguma consideração ao complexo de Édipo, o narcisismo e outras coisas. Mesmo que seja para negar tudo isso, temos de considerar esses conceitos ou não entendemos a nós mesmos. Sim, eu sei que hoje em dia já vemos cachorros deprimidos e em clínicas, mas (ainda) não no divã.

Somos parentes dos seres brutos, somos revolucionários querendo ou não e, por fim, não temos todas as decisões que tomamos nas mãos de nosso eu reconhecido por nós. Essa é a imagem que o pensamento moderno tardio fez do homem para ele mesmo. Mesmos as pessoas desescolarizadas ou de baixa escolarização, que imaginam – ou que nós imaginamos – que fazem outra imagem do que somos, já absorveram essa gravura, ainda que de um modo pouco rigoroso. O saber do “macaco”, da “toupeira” e do “cão” está entre nós. Falamos disso. Imaginamos isso sobre nós mesmos. Temos espelhos definidos por Darwin, Marx e Freud como o homem do início da modernidade teve espelhos formados por Agostinho e Descartes. Estes, por sua vez, nos deram o conceito de vontade e elegeram a intenção como elemento chave na explicação de nós mesmos. Isso foi feito contra o esquema antigo (greco-romano) que nos via antes de tudo como seres da práxis, os que jogavam nos “dois tabuleiros”, o da causalidade humana prática e o da causalidade divina, a forma do tragicismo grego. A semântica atual incorporou a vontade e a intenção, inclusive juridicamente, e agora incorpora também o inconsciente, as determinações das convulsões sociais e a evolução.

Qualquer curso de “ciências humanas” tem de se servir desse tripé semântico: Marx com sua toupeira, Freud com seu cão e, enfim, Darwin com seu macaco. Caminhamos hoje, na ciência de ponta e na filosofia, criticando ou reformulando esses três pilares. São os nossos paradigmas. São o vocabulário pelo qual nos entendemos e com o qual temos de trabalhar. Não tê-los na ponta da língua e ser um universitário é ser um analfabeto funcional. É ser tonto autodidata em um meio em que outros não são tontos porque passaram pela escola.

15/11/2020 Paulo Ghiraldelli Jr, 63, filósofo, publicado originalmente em 27/05/2018

 

3 thoughts on “Nossa imagem moderna e seus animais

  1. Talvez aí esteja a explicação do porquê dos florescimentos de tipos “olavetes” justamente num período em que as esquerdas pareciam estar conformando o pensamento da sociedade. Estavamos confortáveis em nossa presunção de que todos seriam escolarizados, e portanto imunes, e não dávamos bola para Olavo de Carvalho, e nem percebemos que ele estava formando uma legião de olavetes. Agora, neste interlúdio de direita, temos eles aí, como ministros e como eleitores.

  2. Brilhante e abrangente artigo. E, a propósito, quero lembrar um escritor americano, já falecido, Alvin Toffler, que disse em seu livro “A Terceira Onda” que os nossos sistemas políticos atuais, baseados principalmente em eleições, são pré-Marx, pré-Darwin e Pré-Freud.
    Teríamos que mudar os nosso sistemas políticos de representação, pois eles não espelham mais a realidade dos nossos tempos atuais.

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