A doença de Fernando Haddad

Haddad tem sim uma doença, eu acho, mas ultimamente dava sinais de franca recuperação. Agora, uma recaída inesperada. O quadro patológico de Haddad ainda não recebeu um nome. Talvez muitos tenham a mesma enfermidade, mas só nele tudo se manifesta em grau assustador.

Esquizofrenia não é. Haddad não tem múltiplas personalidades. Perda de memória, um tipo de começo de Alzheimer? Não! Uma confusão mental advinda de um quadro pós-pandemia? Ah, isso é vago! Não sei como lidar com essa coisa toda. Mas talvez só nós, filósofos, possamos de fato dizer do que se trata. Os médicos não vão achar nada. A situação é exatamente esta: Haddad sabe perfeitamente quem é, mas ao escrever ele se funde com o Lula e, em determinados momentos, morre em vida, no texto, para que Lula reine. Quando terminamos o seu texto, fica claro que ele se fundiu ao Lula, ele é o Lula, mas não como incorporação e sim com uma abstenção de si mesmo, uma vez que Lula está lá, levando-o para o ostracismo.

Haddad vinha se tornando Haddad. Lula reapareceu como candidato e Haddad perdeu o chão.

O artigo de que falo tem o título “Soberania e integração” (Folha 12/09/2020). Haddad comenta um texto da jornalista Ângela Alonso. Ela havia comparado discursos de Bolsonaro e Lula. Haddad segue nessa trilha. E continua falando de Lula e, claro, de Bolsonaro. Mas Lula é o tema central do texto. Diz então que as “elites” optaram por tudo que era tosco, ou seja, o Bolsonaro, e deixaram de lado o projeto melhor.  Esse projeto melhor, para vingar, deveria ter contado com a escolha por parte das elites, na última eleição, “de um estadista”. Ou seja, Lula deveria ter sido o escolhido. Todavia, como sem dúvida tem que lembrar,  o candidato contra Bolsonaro não foi Lula, e sim ele próprio, Haddad!

É como se Haddad, em meio ao artigo, tivesse se esquecido de que ele era o candidato e, louvando Lula, termina o texto totalmente subsumido à figura do chefe, herói e ídolo – Lula. Ou como se ele estivesse confessando: sim, eu sei que o candidato fui eu, mas eu iria apenas obedecer Lula. Eu não iria querer fazer coisas sem consultar, como Dilma. Agora seria diferente!

A subserviência de Haddad, agora que Lula voltou à cena em discurso oficial de candidato – mesmo ainda não podendo sê-lo -, surge como que num quadro patológico! Que doença é essa que Haddad expõe em sua própria pele?

Todavia, e se tudo isso não for um grande jogo de inteligência de Haddad? E se o artigo não foi escrito para nós, e sim única e exclusivamente para o Lula? Provido de uma sagacidade mordaz, Haddad estaria apenas se vingando de Lula e dizendo: tudo que Lula falou e que só pode ser realizado por um estadista, foi deixado de lado pelas “elites”, uma vez que não votaram no estadista, e este estadista não é este meu herói que comento aqui, mas o homem de carne e osso que realmente estava no pleito – eu mesmo, Fernando Haddad.

Se o caso é este, então, Haddad não estaria doente. Ele estaria bem sadio. Seu recado seria o de, sutil e ironicamente avisar Lula de algo que ele próprio, Haddad, preza demais, e que Lula não possui: a capacidade de ser grato. Seria uma estocada em Lula: olha, companheiro, você ressurgiu agora e quer me colocar para escanteio, mas eu sou o estadista da campanha, não você – não se lembra mais de mim né? Fui eu quem aguentou o tranco da campanha, e eu adquiri independência.

Não descarto de todo essa hipótese de leitura do texto de Haddad. Se assim é, Haddad deveria ultrapassar o limite da ironia sutil e firmar posição, dizendo algo claro: ainda sou o candidato, como eu era a uma semana atrás, antes de você fazer esse discurso de Sete de Setembro, completamente egocêntrico. Haddad faria ainda melhor se, para arrematar, dissesse: comigo não violão, eu não sou o Ciro! Não vou fazer biquinho, vou me diferenciar aqui mesmo, dentro do partido.

Será que estou idealizando demais esse Haddad que estaria descolando de Lula? Qual leitura correta? Esta última, de um Haddad semi-vingativo (com direito), ou a primeira, de um Haddad cometido de uma doença em que ele se entende como um corpo que Lula habita quando quer?

O “torna o que tu és” de Nietzsche não tem cabimento para Haddad? Será que vai se tornar velho sem nunca ter podido ser outra coisa que um pau mandado? Até que ponto um homem deve levar a gratidão à auto-anulação?

© 12/09/2020 Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo

10 thoughts on “A doença de Fernando Haddad

  1. Fazendo minha análise leiga e talvez até tosca, o que me ocorre agora é que Haddad, apesar de inteligente, é fraco, falta-lhe ódio. Por enquanto. Gostaria muito de vê-lo dar uma reviravolta e talvez até rompendo com o mestre. Talvez essa fosse a única “salvação” para Haddad

  2. Professor acho que Haddad até gostaria de estar independente e se o que ele realmente é, porém acredito que o Lula e castrador juro que acho Lula super cortante e anulador,quando se refere ao Haddad principalmente!!!!

    1. Se Haddad ficar dependendo do Lula castrá-lo ou não… vish. De qualquer forma, precisará de coragem e força própria para sair disso.

  3. Bolsonaro se aniquilou com o’Posto Ipiranga”!… que representava o Sistema de Financialização, considerando que o Bobo afirmou, várias vezes, que não é para o Presidente ”saber governar”, mas conduzir o que os ‘expert’ do governo decidem.
    Haddad não é Bolsonaro porque SABE DAS COISAS QUE UM ESTADISTA DEVE SABER. Haddad parece manifestar uma – diria – ‘espíritualidade’ da política democrática do NÓS: que não é a do grupo ‘hegemônico’; nem a de um líder solitário – periculosamente – hegemônico; mas a da caminhada de ‘grupo’, … do Movimento Popular por uma nova Sociedade em constante e dialético processo de se constituir para todos.

  4. Haddad foi candidato. Mas, o líder popular é Lula. Para vencer o “aparelhamento” do Estado brasileiro por militares gorduchos e o crime organizado representado por Bozo e sua prole malfeitora, só com a força de um grande líder popular. Haddad seria esmagado mais facilmente do que foi em 2018. Para tirar o genocida do Planalto, só com Lula. Até o “deep state” dos EUA, que o colocou na cadeia vai ter que negociar com ele para tirar Bozo do Planalto.

    1. Sinceramente, me parece mais fácil Lula firmar o Bolsonaro do que tirá-lo. Prova disso é que muitos só votaram no Bozo, em 2018, porque ele estava contra o PT/Lula. Haddad se dizia ser Lula, então, de certa forma, era isso mesmo: Lula contra Bolsonaro. Se essa disputa acontecer de novo, os votos “não a favor do Bozo, mas contra o Lula” acontecerão novamente. Não podemos ficar dependentes de um grande líder, que nos mandará às ruas ou não, nos ordenará uma coisa ou outra. Cada um precisa ter sua própria consciência, e Haddad precisa da dele. Como o professor disse, Haddad, para ser independente, não precisa fazer biquinho como fez o Ciro, só precisa demonstrar que é ele o candidato e que tem suas próprias propostas, assim como uma força própria.

  5. Interessante sua análise. Convenço-me, cada vez mais, da necessidade de haver uma verdadeira formação política e esta deve ser contínua. Incluindo nesta formação os líderes da cúpula política.
    Grande abraço.
    Vilmar Luiz Morschel.

  6. Professor,
    Não adianta ser de esquerda, direita ou qualquer outro posicionamento filosófico, quando se adora, se adora. Não tem jeito!!!
    Levará muito tempo para que todos aqueles que foram enganados por Lula reflitam sobre tudo o que aconteceu. Esta demora considero algo totalmente aceitável pois ainda continuamos sendo uma nação sem informação, sem conhecimento, sem base para decisões para nossa governança política.
    Por mais que se promova qualquer discurso voltado a pontos positivos ligados ao PT, sua rejeição é gigantesca e não penso que será cedo uma mudança desse fato.
    Para finalizar, pode-se tentar qualquer alternativa de esquerda, mas hoje (setembro de 2020), por mais problemas e notícias que sejam levantadas sobre o atual governo, não vejo ninguém (seja de qualquer lado) capaz de superar o atual presidente e voltando ao contexto do artigo, a sustentação de Lula será mantida até quando a falsa imagem de aceitação do mesmo existir (não adianta, quem gosta, gosta!).

    Um grande abraço

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