Dia dos namorados para quem gosta de namorar!

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O Dia dos Namorados no Brasil é 12 de junho. É uma véspera do dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro. Mas não pense você que o nosso Dia dos Namorados tem alguma coisa a ver com ele ou mesmo com o amor.

Não há no Brasil um motivo histórico especial para a criação do Dia dos Namorados. Na pátria do mundo dos negócios, os Estados Unidos, o dia dos namorados se chama “Valentine’s day”, e tem a ver com San Valentine. No Brasil, o Dia dos Namorados foi criado segundo um objetivo exclusivamente comercial. Nossa data foi introduzida pelo publicitário João Dória (pai) em 1949. Ele era da então Agência Standard de Propaganda. O que fez foi inventar o Dia dos Namorados por causa de uma encomenda das lojas Clipper à Standard, no sentido de criar uma boa campanha publicitária. Por tal feito, a Standard ganhou um prêmio. Mas tudo poderia ter ficado por aí. Todavia, a data “pegou”! Pois a Confederação do Comércio de São Paulo colocou o dia 12 do mês de junho, uma época de baixa nas vendas, em seu calendário. O slogan era: “nem só de beijos vive o amor”. A ideia é que o amor fosse, digamos, demonstrado: que se comprasse algo para o parceiro amoroso.

É irônico, não? O Dia dos Namorados tipicamente capitalista é … brasileiro! E é paulistano.

Nos Estados Unidos a data tem a ver com a história de Valentine. Possui uma relação pouco amistosa com o comércio. Nessa data não é de bom tom dar presentes, exceto chocolates e rosas. Além disso, nesse dia o comércio fecha e não há viva alma nas ruas, e isso em um bom número de cidades. Guarda-se efetivamente o Valentine’s Day.

Mas, afinal, quem foi Valentine?

Ele viveu no Império Romano, sob a época de Claudius. Foi uma época em que os romanos não estavam muito motivados a se inscrever no Exército. Os homens pareciam não querer deixar suas esposas em casa, e muito menos deixá-las viúvas por conta de irem para as guerras. Para o Império, isso não era boa coisa. Então, Claudius resolveu tomar uma medida radical – meio maluca por sinal. Proibiu todos de se casarem. Verdade! Sabe o que aconteceu? Não sabe? Ora, é fácil adivinhar.

Os jovens acharam aquilo muito cruel. Mas Valentine achou aquilo não só cruel, mas terrível para ele próprio, que era sacerdote. Seu trabalho diário era casar as pessoas. Valentine adorava o seu trabalho e, então, passou a casar as pessoas secretamente. A grande subversão da época se tornou a atividade de casar em lugares muito escondidos. Sem convidados, é claro. Uma cerimônia que tinha de ser feita em muito silêncio. Um casamento de sussurros. Romântico? É, talvez, mas verdadeiramente perigoso.

Valentine casou um bocado de gente às escondidas, mas bastou um dia sem sorte e … pimba! Valentine foi descoberto. Os noivos que ele abençoava no momento conseguiram escapar, mas sua prisão foi fácil. Os soldados o levaram. Ele foi julgado e sua pena foi a máxima: morte. Mas aí aconteceu o que o tinha de acontecer, para nós que acreditamos no amor: as pessoas começaram a querer visitar Valentine, a entregar flores pela janela do calabouço. Mandavam bilhetes também. A notícia de sua prisão se espalhou, e muitos iam ter com ele nas janelas da prisão.

Foi então que a filha de um dos guardas da prisão quis ver Valentine pessoalmente, lá na cela. Seu pai conseguiu um modo disso acontecer. Eles passaram horas conversando na cela. E isso se repetiu muitas vezes. Valentine suportou a prisão graças a isso. No dia da sua execução, Valentine deixou com um amigo um bilhete para a moça: “Amor, de seu Valentine”. Ele foi executado em 14 de fevereiro de 264 da Era Cristã. Mas o seu gesto de entregar um bilhete dizendo “amor” se tornou um símbolo. Trocar bilhetes, palavras e objetos seguidos de declarações de amor se tornou uma prática rápida em Roma. Foi o modo que a população mostrou a Claudius que ele não podia impedir as pessoas de se amarem, e ao mesmo tempo foi o reconhecimento de todos ao que Valentine representou.

Comemore o Dias dos Namorados no dia 12 mesmo, como é posto no Brasil. Mas faça isso sob o espírito americano, celebrando o amor que se faz sob quaisquer circunstâncias. Não é preciso muito heroísmo. Mande seu bilhete “Amor, de seu Valentine” e então deixe rolar – não se esqueça que, como dizia Rita Lee, amor sem sexo é amizade. Caso não saiba fazer sexo direito, aprenda antes de sexta à tarde! Boa sorte.

© 10/06/2020 Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo. Uma versão deste texto foi elaborada em 2010.

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Gonçalo
Gonçalo
1 mês atrás

Muito bom o seu texto e principalmente o Final. Sou inscrito no seu canal e apenas hoje, ( mas desde já peço desculpas)tive a curiosidade e tempo pra visitar seu blog mas agora serei um leitor assíduo, pois comungo muito com as suas opiniões.

Last edited 1 mês atrás by Gonçalo
Marcos
Marcos
1 mês atrás

Exelente texto,eu,não sabia da história do Valentine,como o senhor já falou,a classe media brasileira adora copiar os americanos,ou macaquear, como diz os argentinos,sobre nosso comportamento!

EDNALDO COUTO
EDNALDO COUTO
1 mês atrás

O senhor merece um abraço na alma por esse artigo!
Gratidão!

Giselle
Giselle
1 mês atrás

como tudo no Brasil virou comércio…

Emerson Siqueira Moro
Emerson Siqueira Moro
1 mês atrás

Poxa, Professor não sabia dessa história.
 
Excelente artigo.