O Brasil da loira e o Brasil do metrô na pandemia

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Quando Marx se defrontou com a doutrina política do liberalismo, ele não se posicionou imediatamente contra ela. Tratando-a como ideologia, ou seja, um tipo de falsa consciência, ele a denunciou por conta de seu caráter formal, alheia às condições de vida dos trabalhadores.

Sua análise tornou-se célebre. Durante todo o século XX, os liberais tiveram de lidar com a crítica de Marx. Seus princípios mais básicos haviam sido postos na berlinda pelo filósofo alemão. De fato, Marx desnudou a liberdade, a igualdade e a proteção da propriedade privada, os três itens gloriosos dos liberais.

A liberdade foi tratada por Marx não como a liberdade dos indivíduos no sentido de poderem lidar com desejos e expressões, mas como a liberdade vinda do livre comércio, da exploração dos trabalhadores pela indústria e dos juros sem freios dos bancos. A liberdade foi mostrada como liberdade do capital, no sentido de seu desígnio de acumulação infinita. A igualdade foi apontada por Marx não como uma autêntica igualdade de condições, e sim a mera igualdade perante a lei. Uma tal igualdade, não raro, mesmo hoje, nem chega a ser verificada, uma vez que os ricos podem pagar uma melhor defesa arrumando advogados mais aptos e mais influentes. A proteção da propriedade privada foi tomada como ilegítima, uma vez que seria justamente ela a responsável pela insuficiência e/ou desvirtuamento dos outros dois princípios anteriores.

Todas as pessoas de esquerda conheciam essa crítica de Marx. Era o senso comum da esquerda. Ao menos para a minha geração. Hoje, com o avanço do pensamento neoliberal, inclusive entre pessoas de esquerda, não é difícil encontrar jovens confusos a respeito disso tudo. São jovens que defendem discursos liberais que, diante de outras narrativas mais à direita (o populismo de direita, o fascismo subjetivo), são tomados como de esquerda. Essas pessoas povoam as redes sociais de forma amadora e profissional com frases completamente ingênuas. Acreditam que a última fórmula do melhor modo de vida é a democracia liberal. E então, diante de situações como as do isolamento social na pandemia, agem de modo inescrupuloso.

Gabriela Prioli é hoje um tipo de filha escolarizada de Olavo de Carvalho com o Bispo Macedo. Eu disse filha escolarizada, notem bem! Ela reverbera o liberalismo de senso comum. Sorrateiramente, conquista os desavisados com um rostinho de loira. Ao ver as manifestações de rua, chamou os organizadores de “genocidas”. As manifestações estariam quebrando a quarentena. No país em que ela vive, todos podem ter liberdade, igualdade e direito à propriedade. Não existem pobres. E não existindo pobres, ninguém está no metrô lotado e nos ônibus lotado ao menos duas vezes ao dia. Todos estavam e estão em quarentena. Então, todos seriam genocidas. Ela se pronunciou no twitter e, em seguida, recebeu críticas de pessoas negras que lhe contaram algo que deveria ser óbvio: “querida, não há quarentena para os pobres, para os trabalhadores, para os negros – nós não tivemos a ajuda do governo suficiente, e nunca pudemos deixar de trabalhar”. O que Gabriela e outros do pensamento típico de classe média não quiseram e não querem perceber? Simples: que não faz sentido pedir para essas pessoas, o grosso dos movimentos de protesto dessas jornadas de junho de 2020, pararem no domingo, não irem às ruas, uma vez que elas já estão nas ruas, desde sempre, durante a semana toda!

É claro que outros entraram por essa via de cegueira de classe média. Um youtuber tipo capa preta, ou seja, quinta coluna, tratou de imitar a loirinha. Fez vídeos na linha de acusar de irresponsáveis os organizados do ato de protesto! E até mesmo o Ciro Gomes escorregou e, numa “live” com Marina e FHC, disse que o povo pobre “precisava de uma pedagogia” para se cuidar. Esqueceu ele que, menos de um mês antes, em outra “live”, seu pronunciamento fora o de que o isolamento só poderia ser possível se o governo repassasse dinheiro substancial aos mais pobres. Ele havia lembrado, inclusive, do dinheiro existente para tal, cerca de um trilhão e quatrocentos bilhões de reais nos cofres do Tesouro Nacional. Mas, à medida que o pensamento liberal se faz presente, também uma figura como Ciro tende a esquecer sua fala mais concreta para ficar com a mais formal e amena. Uma loirinha falando por aí é tudo que uma CNN do Bispo Macedo precisa para ampliar seu domínio. Uma loirinha – o termo aqui é o usado pelos seu patrões na TV – é melhor que um Luciano Huck, ao menos em aparência, imaginam os donos da CNN, ligados ao Bispo.

É claro que o pensamento liberal pertence à classe média. Esta, por sua vez, fornece a mão de obra para a mídia e para a política em larga escala. Desse modo, o pensamento liberal, que garante a hegemonia dos dizeres que facilitam a permanência do capitalismo, estão sempre na boca da maior parte das pessoas. Hoje em dia, como já disse, até na boca da esquerda. A liberdade, a igualdade e o direito à propriedade aparecem sem críticas! E tudo que é movido pelos setores populares, sem vínculos com patrões e caciques políticos, causa espanto. Pois tais setores tendem a não aceitar muito bem o pensamento liberal.

É preciso notar que até o PT deixou de ir às ruas. Apoiou timidamente o movimento do domingo dia 07/06. Mostrou que também tem dificuldades de entender que as necessidades dos trabalhadores pobres estavam e estão fora das possibilidades que a classe média vem exercendo ao ficar em casa na pandemia.

Marx foi esquecido. Até mesmo no básico. E quando é lembrado, apresenta-se de forma acadêmica em entroncamentos filosóficos que repetem um terrível escolasticismo, algo que a minha geração havia cansado de ver denunciado inúmeras vezes. Quem entra nas “lives” e blogs da editora Boitempo, por exemplo, logo deixa de lado a vontade de ler Marx. A editora tem bons livros, mas a forma como ela própria lida com esses livros, lembra o pior marxismo de todos os tempos, as formas semi-religiosas que vingaram nas Internacionais Socialistas. Livros bons como os de David Harvey são apresentados em encontros na Editora que fazem qualquer pessoa inteligente fugir. Desse modo, muitos jovens voltam para os braços da loirinha da CNN. Ela, na “live” falsa, que na verdade é um programa de TV altamente produzido, põe-se como aquela que derrota a direita! Sim, derrotou Caio Coppola. Ora, mas quem não faria isso? Foi uma disputa desde o início preparada pelos artífices do engano.

Assim, em meio a uma pandemia terrível, o Brasil vive com pés em dois mundos separados. Um pé do Brasil vai de Prioli dando aula para Anitta, regado pelo supositório de cloroquina que Bolsonaro fornece a domicílio para Karnal e Pondé. Outra parte vai de metrô e ônibus, pegando covid e sendo acusado de genocídio por ter protestado pacificamente no domingo.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo.

PS: Talvez a pouca competência dos identitários vá me acusar de “machismo”, por eu me referir à moça como loira, e talvez até digam para mim “mansplaining”. Há pessoas que acham que um homem não pode mais explicar nada a uma mulher. Se algo assim se radicalizar teremos professores só para meninos e professoras só para meninas. Mas, de fato, o que fiz não foi ensinar Prioli. Foi dizer que ela, caracteristicamente loira, é o tipo de porta voz que a mídia de direita escolhia e escolhe para fazer vingar o pensamento de classe média para a classe média.

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Lucas Magalhães
Lucas Magalhães
1 mês atrás

Professor, vejo que existe um preconceito institucionalizado contra o marxismo. Esse preconceito está na discurso da Prioli para Anita… Teorizando que o comunismo deu errado, mas sem dizer que o capitalismo tb não deu certo… É como se houvesse uma ridicularização do comunismo, simplesmente pelos problemas nos regimes que existiram associados as teorias. É como se não pudéssemos criticar o capitalismo por que as pessoas não conseguem conceber nada diferente. Eu sinto muito preconceito na empresa em que trabalho quando tendo defender que o sistema capitalista está errado. Enfim, temos que reagir… Acho que a Prioli pode ser uma boa… Read more »

Stanley
Stanley
1 mês atrás

Olá,senhor Ghiraldelli. Com 17 anos, acredito ser jovem,tento conceber a realidade que pertenço,isto é, tudo menos fácil. Exige um esforço mental muito grande.
Em relação ao Max ser esquecido, até em algumas ideias básicas, isto seria por falta de influenciadores qualificados para tratarem e difundirem o pensamento do mesmos? esta amnésia é premeditada e ganha força? ou este esquecimento é normal?

Paulo
Paulo
19 dias atrás
Reply to  Stanley

Você já assistiu o canal do professor Helio Moraes oficial. Ele denúncia esse neoliberalismo a mais de um ano.

Guilherme
Guilherme
1 mês atrás

Exatamente, Professor. Confesso que me decepcionei com a incapacidade de o Ciro lançar uma análise materialista sobre a situação. Depois do episódio com a retroescavadeira, que foi um exemplo de ação direta necessária pelas condições materiais daquela situação, pensei que ele fosse acordar. Não aconteceu. Ele fala tanto do Brizola. Brizola não estaria nas ruas? Ou estaria nessa piada de “janelas pela democracia”? Fica o desabafo. Até broxei de pedir esse livro novo do Ciro hahaha

BRUNO
BRUNO
1 mês atrás

Fiz Educação Física, as vezes escapava e assitia um ou outra palestra de sociais e filosofia, percebi q os marxistas falavam para eles mesmos de modo q era mais fácil entender Kant.

Pensa Comigo
Pensa Comigo
1 mês atrás

O acompanho pelo YouTube há algum tempo. Me informei sobre sua reputação, sua história antes do YouTube e também, como o resto de sua audiência, aos poucos ganho uma percepção de sua forma de pensar. Mas vamos falar da “loira”, como o senhor se refere. Eu nunca comprei o discurso da Gabriela P. ou da Tábata A., ambas semelhantes em aspectos relevantes para essa discussão: se vestem de neutralidade mas as ações falam mais alto para dizer a que vieram. Loiras ou morenas, mulheres ou homens, não importa. O fato é que elas se comunicam, bem e têm alcance. É… Read more »

Orquidéia
Orquidéia
1 mês atrás
Reply to  Pensa Comigo

Sr.Pensa Comigo, veja todos os vídeos do professor. Ele é crítico das Esquerdas- ele é a nossa consciência autocrítica. Verá que ele não faz concessões. Ele vive pressionando os personagens principais “da nossa área” para que melhorem os discursos e a conversa com o povo. Isso é bem mais do que “aconselhar” a nossa parte arrumar uma loira ou uma morena para dar aulas de social democracia na Globo ou na Bandeirantes. O estresse dele é só uma questão de desespero com a imensa despolitização das pessoas – herança dos governos petistas- eficientes no serviço a nós mas difíceis no… Read more »

Paulo
Paulo
1 mês atrás

Excelente texto, parabéns. Chegou no nervo. Alguns intelectuais escrevem bem e falam mal, algum falam bem e escrevem mal, mas o xará tem um bom equilíbrio.

Taline
Taline
1 mês atrás

Caro professor, os debates da Boi Tempo são bem acadêmicos, tornando acessível a uma parcela restrita da população, mas não deixa de ser uma boa fonte de conhecimento e divulgação dos autores marxistas contemporâneos. Agora, poucos fazem essa crônica filosófica diária do seu canal, capaz de pautar as ações de muitos.

Clécio de Moraes Corrêa
Clécio de Moraes Corrêa
14 dias atrás

Ótimo texto professor, também sou professor de Filosofia, e curto bastante suas reflexões no seu canal. Aliás, Já comprei o seu livro A Filosofia explica Bolsonaro, estou apenas aguardando chegar até minha casa. Ansioso para ler.