Os ecos de 2013 na Gaviões da Fiel

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Talvez Marcelo Coelho esteja, do mesmo modo que eu, querendo ver mais do que a realidade oferece. Pode ser que estejamos com o desejo de que forças de 2013 reapareçam, e projetando tais desejos em nossas análises. Se estamos errados, estamos errados juntos. O que ele escreve na Folha hoje (03/06/2020) é muito parecido com o que eu disse ontem em vídeo. Cito o Marcelo:

A oposição a Bolsonaro não se confunde com a nostalgia pelo PT, com o corpo-mole tucano, com os redutos de Ciro, nem mesmo com os arrependidos de Amoêdo, Moro e Janaina. De modo geral, tudo isso é classe média. //A nova força social antibolsonarista é outra. São os jovens negros e mestiços da periferia, as militantes pobres de movimentos feministas e LGBT, os estudantes que não têm como pagar a faculdade e não
arranjam emprego.

E ele continua, em uma vibe que eu aprovo inteiramente:

Foram diretamente atacados com o assassinato de Marielle Franco e são ameaçados pela PM, pelas milícias, pelo racismo e pelo preconceito dos bolsonaristas. //Foram os que, nos movimentos de 2013, protestavam contra o aumento das passagens de ônibus, sem qualquer deferência por um governador tucano ou um prefeito petista.

Não há como não lembrar aqui o livro da professora Camila Jourdan, da UERJ, militante libertária, radical de esquerda, no seu livro 2013: memórias e resistência (Editora Hedra). Talvez ela tenha sido a única intelectual do país a expressar, pelo que passou na pele, na luta diária e na prisão, o sentimento de um movimento que irmanou gente da universidade com setores populares de todos os tipos. Um movimento nascido e criado sem o crivo de caciques partidários. Há cheiro de 2013 no ar novamente.

Em 2013, os “partidos da ordem” (para usar uma expressão que Florestan Fernandes adorava), da esquerda e da direita, da situação e da oposição, não titubearam em se unir em todos os níveis para as atividades repressivas aos “terríveis Black Blocs”. Eu estava lá nas manifestações. Como tantos ali, não me conformava com a ideia de se fazer Copa no Brasil. Havia mais necessidades do que a Copa. Todos sabíamos – e agora com o coronavírus, tudo fica provado! “Não se faz Copa construindo hospital”, disse Ronaldinho na época. Com significado intencional oposto, era o que dizíamos: “que não se faça Copa, já que precisamos de hospitais”.

Na época, lembro bem, o ideólogo da direita criado pela Casa do Saber e pelo submundo da desonestidade intelectual, Pondé, vociferou na Folha de S. Paulo: deixem o povo ter felicidade com o futebol. Ele, que odeia esporte e tem na barriga esponjosa, delinquente e anti-estética um símbolo da corrupção do corpo e afrouxamento do cérebro, repentinamente estava querendo ver futebol! Tudo valia no sentido de satisfazer a ideologia de classe média e bajular as requisições do capital financeiro.

As mesmas forças, agora, irão se unir contra as torcidas de futebol que estão indo às ruas, mesmo em tempo de pandemia, contra a fascistaria. Essa fascistaria está dominando comportamentos individuais. Ela se guia quase que paradoxalmente no sentido da alimentação do neoliberalismo de Paulo Guedes e do pastiche de anarcocapitalismo miliciano e evangélico de Bolsonaro. Governadores de oposição irão compor com Bolsonaro e subliminarmente com partidos da esquerda que nunca podem admitir não estar à frente de movimentos, para tentar parar as torcidas.

O argumento de cunho semi-intelectual já começou a vingar: torcida de futebol é selvageria, não combina com a política. Isso é uma grande bobagem. Uma mentira. Os que saem às ruas levam a bandeira da Gaviões reverenciando Sócrates, o jogador símbolo da chamada “Democracia Corinthiana”.

Esse ideal é o de uma democracia mais democrática que a mera democracia liberal. Na democracia liberal só pode falar a loirinha Prioli da CNN, que é braço do Bispo Macedo. Na democracia nossa, mais social, há o sentimento que vem dos desejos das torcidas que estão ocupando as ruas. Queremos uma cidade em que a conversação se dê com todos, no mesmo patamar. Os poderes constituídos, da direita e da esquerda bunda mole, irão se insurgir contra. Teremos de ser mais firmes que fomos em 2013 para aguentar.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo.

 

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SEO CHECKER
1 mês atrás

Bem lembrado, sim sim, tem a ver.

Feijao
1 mês atrás
Reply to  SEO CHECKER

Não sera nem vc e nem o Paulo que vão pegar prisão. Classe média suja covarde

Sergio Roberto Batista
1 mês atrás

Excelente, mestre!

CARMEN L A DA SILVA
CARMEN L A DA SILVA
1 mês atrás

Não sei se procede.Em seu comentário penso que o Bozo recuou de caso pensado. Deixando a esquerda, o pt, militantes partidários e governadores diluirem com críticas depreciativas e preconceituosas, manifestações que aconteceram domingo pelos torcedores.

Carmen Aragão
Carmen Aragão
1 mês atrás
Reply to  Ghiraldelli

Boa Tarde! Obrigada por me responder. Já coloquei no carrinho para comprar só que para não pagar o frete gostaria de comprar outros livros como ” De Deodoro a Bolsonaro”, mas este livro só tem em Kindie e até porque não tenho conseguido abri-lo.

Paulo Vendaval
Paulo Vendaval
1 mês atrás

Boa noite! Muito bom professor. Estive nas ruas em 2013 e vi de perto como os partidos tanto de direita, quanto de esquerda, tentaram de todas as formas dominar aquele movimento. E digo mais: aqui em Salvador, conseguiram até articular armadilha e encurralar os independentes no “dique do toróró” pra polícia baixar o cassete. Como eu estava em um grupo anti-partido, não seguimos com eles e fomos os grupos que conseguiu chegar aos estádio da fonte nova com cartaz e muita resistência. O cassete comeu, mas a resistência foi linda.   Ótima analise e visão. Pode ser utópico, mas torço… Read more »

Last edited 1 mês atrás by Paulo Vendaval
moacir camargo filho
moacir camargo filho
1 mês atrás

Tenho uma pergunta pro senhor.
Peço retorno no meu e-mail.
moacirzito@gmail.com

Feijao
1 mês atrás

Filosofo vc esta arrastando pro início da subida onde ja caiu muita pedra, e quem persistir nesse caminho não ira voltar a ver as sombras, e sim vão ser esmagados pelos restos das pedras que ficaram la de 2013.

ricardp souza
ricardp souza
1 mês atrás

fiz parte do bloco de lutas de porto alegre em 2013, me ofende pessoalmente associar 2013 à direita. Sou militante do Psol, sempre fui marxista e o mobvimento das passagens em poa surgiu da união da juventude socialista e anarquista. Estávamos a rua pelo direito á cidade, à educação, a moradia. Vamos para a rua de novo, a falsa esquerda tentará puxar o freio
Poderoia fazer um vídeo sobre a polêmica da deputada Fernanda e o Luiz Eduardo Soares
https://medium.com/@brasilindependente/soci%C3%B3logo-lu%C3%ADs-eduardo-soares-alerta-para-cilada-armada-por-bolsonaro-cab8e7d2bb11
https://fernandapsol.com.br/por-que-devemos-ir-as-ruas-no-domingo/?fbclid=IwAR0a3EyVuHYU1_wlUxQ9YbXpr8SBHuk8PzRs-FxfmZhf5BWTfqHzUcbnhMo

Sarkari Naukri
1 mês atrás

Excelente, mestre!

Sarkari Naukri
1 mês atrás

NIce once

Orquidéia
Orquidéia
1 mês atrás

Apoiado, professor! ❤❤❤❤

Douglas
Douglas
1 mês atrás

Professor, as manifestações pelo #EleNão também despontam como um momento recente de aglutinação de relevantes forças sociais, tendo como potência o pioneirismo das mulheres lutando com multidões nas ruas de diversas cidades brasileiras pelo direito de protestar contra a opressão imposta pelo machismo daqui e pelo futuro mórbido, que se materializa agora, projetado na campanha presidencial pelo bolsonarismo. Até que ponto e por quais meios as vias de poder que as uniu em 2018 poderiam atuar agora contra o racismo e o fascismo?
 
 

Last edited 1 mês atrás by Douglas