Bolsonaro e o fascismo subjetivado

14
3907

Duas grandes correntes doutrinárias comandam o mundo político atual. Ambas estão no espectro político da direita. De um lado, temos o que podemos chamar genericamente de neoliberalismo. De outro lado, temos o populismo de direita.

O primeiro segue a globalização e a força do mercado mundial, tendo adiante as grandes corporações transnacionais no comando e o capitalismo financista como base econômica. O segundo vê com estranheza esse movimento globalizador, prega uma certa volta ao nacionalismo e tende a criar protecionismos alfandegários e incentivos fiscais para grupos industriais internos.

Em termos políticos, o primeiro segue uma pauta que, ao menos retoricamente, fala em democracia liberal, direitos individuais e de minorias, respeito a Direitos Humanos, contanto que tudo isso não fuja da ideia de que somos todos átomos, capazes de auto-exploração revestida de retórica de auto-realização. O segundo rechaça os direitos individuais em favor de uma ideia de nação que se livra da diversidade cultural, étnica e de preferências sexuais. Nesse caso, um certo conservadorismo de tradições se acentua, com o privilégio das ideias de pátria, família tradicional e religião à frente.

Esse panorama geral serve para a Europa e para os Estados Unidos, com as especificidades de cada região. No Brasil, esse esquema ganha um recorte muito especial, e se desloca para a criação de uma espécie de Frankenstein, consubstancializado na figura de Bolsonaro e parte de seus adeptos.

Bolsonaro é o novo da política brasileira. Talvez o novo no planeta. Ele é um pastiche, claro. Todavia, revela uma amálgama que pode muito bem representar uma espécie de acomodação entre essas duas grandes disposições do mundo atual. Mas esse amálgama não é soma de tendências, mas uma curiosa e inédita disposição.

Bolsonaro se acomodou ao seu economista Paulo Guedes, que reproduz a lógica neoliberal em um grau máximo. Paulo Guedes quer a privatização de tudo. Tem uma verdadeira tara de destruição diante de qualquer lembrança de estado social democrata. Suas propostas para os trabalhadores não encontram respaldo nenhum no mundo. Ela traria rubores nas faces de Margareth Thatcher e Ronald Reagan. Sua sociedade futura é antes distópica que utópica. Bolsonaro não tem como não apoiá-lo, uma vez que é ele que o chancela diante dos setores ricos e da classe média brasileira, ambas envolvidas até o pescoço no âmbito do capitalismo financeiro, e não mais no capitalismo produtivo. O próprio Paulo Guedes é alguém vindo do mercado financeiro, onde fez fortuna.

Todavia, Bolsonaro tem uma pauta ligada aos costumes que pode bem lembrar alguém que poderia ser chamado de fascista, para alguns, ou de populista de direita, para outros. Mas, fiquemos atentos: ele não faz política fascista, claro, pois não pode se insurgir contra Guedes, e então se comporta diante dos poderes da República como alguém que os deteriora, e diante da vida democrática age como alguém que não quer de modo algum reconhecer direitos de minorias. Bolsonaro é aquele homem típico de uma era – que seria a nossa – em que Byung-Chul Han tem analisado como a de perda dos rituais. (O desaparecimento dos rituais, 2019).

Os rituais, segundo Han, garantem a permanência das coisas no mundo. Faz-nos sentir que o mundo tem algo de perene. Nos dá a ideia de ocupação de lugar.

Sem rituais, nem mesmo morrer conseguimos. Para morrer, temos de ter o velório, que implica em flores, conforto para a viúva, choro, féretro e em seguida luto. Mas se colocamos o corpo num saco e o incineramos rapidamente, o ritual desaparece ou, no máximo, se reduz muito. Então, a morte não ocorre. Desaparecemos, pifamos, mas não morremos. Uma sociedade como a nossa impede a morte. No neoliberalismo ninguém tem o direito de morrer.

Nessa situação, sem rituais, o mundo das coisas desaparece, e a única coisa que parece sólida é o eu. O homem volta para si e amplia sua narcisismo. A vida com o outro se esvai, pois sem os rituais a objetividade míngua, e a vida com os objetos deixa de lado o uso e passa a se fazer apenas vigente pelo consumo. Nesse mundo, até os rituais do fascismo desaparecem, ou melhor, sobrevivem interiorizados. Há uma subjetivação do fascismo. Bolsonaro é o fascista subjetivo.

Byung Chul Han está atento para o neoliberalismo individualizante e narcísico que se faz presente pela incapacidade de termos, no mundo atual, relações efetivas, e só conexões – onde a internet dá o padrão. Esse mundo de narcisismo, e do que Lipovetsky analisou como sendo o do império do consumo em favor do privilégio do íntimo, torna todos vazios, e só então preenchidos pelo próprio consumo. Pode-se consumir então práticas fascistas como práticas narcísicas. Cria-se o reacionarismo em associação ao narcisismo. Até mesmo as minorias participam disso: o grupo identitário torna-se um eu que elimina o universal, que é o outro que o legitimava, e então também adota práticas fascistas. A democracia liberal perde em conteúdo social. Nesse caso, pode-se pensar em um desgoverno levado adiante por Bolsonaro, o homem sem ritual, sem apreço por liturgias do cargo, sem cultura e que vive no âmbito do faroeste americano de cinema. Ele cultiva o self made man como pastiche. Seu homem solitário é o fascista individual, subjetivo, enquanto que obediente a algo como um tipo de anarco-capitalismo financeirizado.

Nesse sentido, Bolsonaro não governa, só desgoverna. Tem o dia todo para criar embate ideológico. Vive de lutas confusas que ele mesmo cria, uma vez que precisa dar serviço a um eu esvaziado, só preenchido por diretrizes fascistas de difícil exteriorização. Não há uma agenda de inauguração de Bolsonaro, só um roteiro de confusões dele com ele mesmo.

4.7 69 votes
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
14 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Vladimir Santiago
Vladimir Santiago
1 mês atrás

#Forabozo
#Foraguedes
#Foratodos

Thompson Muniz
Thompson Muniz
1 mês atrás

Professor, quais relações têm entre o desaparecimento dos rituais e a sociedade que Deleuze descreve como a sociedade de controle?

SAMAR FERRAZ DA SILVA
SAMAR FERRAZ DA SILVA
1 mês atrás

Muito interessante esse seu artigo Professor. Essa ideia de self-made man descreve perfeitamente a figura dessa criatura que, infelizmente, se elegeu e que certamente está trabalhando muito duro pra desconstruir a República do nosso país. Sempre aprendo muito com você. Obrigada.

Almerís M. Paolini
Almerís M. Paolini
1 mês atrás

Gostaria de um texto sobre o que foi falado do Lula HOJE, no seu canal.
Pra mim, muitíssimo esclarecedor. Merece um bom texto.
Obrigada

José Gouveia
José Gouveia
1 mês atrás

O bozo pode até ser um fascista subjetivado mas ele está sim alimentando o fascismo.

Rosalvo Almeida Filho
Rosalvo Almeida Filho
1 mês atrás

PELO ANDAR DA CARRUAGEM A ESQUERDA VAI APENAS ASSISTIR OU, NO MÁXIMO, SER FIGURANTE DE 2° PLANO.

Renan
Renan
1 mês atrás

No livro O risco de cada um, Jurandir Freire Costa escreve no estilo de ensaio sobre as diversas formas de subjetivação e a expansão do eu narcísico. Ótimo texto professor, parabéns. Abraços

Last edited 1 mês atrás by Renan
Sarkari Naukri
1 mês atrás

Yeah you are correct, thank for the information

SEO CHECKER
1 mês atrás

Temos sempre, como professores, de fazer pensar. Nossos discursos apaixonados,

Emanuel
Emanuel
1 mês atrás

O neoliberalismo é produtor de gente narcísica correto, porém o narcisismo é produtor de fascismo individualizado? Ou é a figura do Bolsonaro que desperta e dele parte para um.grupo fascista?
Sabe-se que não há uma política voltada pra isso, senão o estado não seria deteriorado. E a força não parece uma forma de arrebanhar pessoas, porque o que há é uma guerra de retórica para o fim de regras e leis da sociedade, que esses fascistas individualizados requerem para satisfazerem suas fantasias.

Orquidéia
Orquidéia
1 mês atrás
Reply to  Emanuel

O neofacismo enrustido de muita gente elegeu o presidente.