A direita não tolera o corpo dançante

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A dança é um tabu para os conservadores. A direita política não dança. Não pode, pois dançar é atravessar o espaço fazendo-o homenagear o mimo e a liberdade. Os conservadores se recusam a qualquer ideia que diga que somos gerados pelo mimo e encantados pela liberdade. Eles sufocam a liberdade. Não à toa no portão de entrada de Auschwitz ecoava “O trabalho liberta”. O trabalho é a não-dança e simplesmente a não-liberdade.

Pense em cada pessoa de direita que conhece, principalmente os que se qualificam como intelectuais, e os imagine dançando. Não conseguirá. São a negação de Sócrates, o filósofo dançante – Aspásia que o diga! Os dançarinos populares contemporâneos, como Elvis, John Travolta, Michael Jackson, Ney Matogrosso e, dentro de um contexto específico, a sensual Anitta – só para lembrar alguns que chocaram e chocam os conservadores – sempre enalteceram a ideia de Peter Sloterdijk de que não somos seres que podem ser explicados pela Internacional Miserabilista. Na verdade, só somos explicáveis por uma antropologia que nos veja como mimados, liberados, supridos e belos. A seleção natural não escolhe os mais aptos, mas os estranhos que se tornarão os belos e, por minha conta, eu diria, os dançarinos. Não à toa, em todo o reino animal, a dança chama o acasalamento. Nós, nesse caso, pertencemos ao reino animal. A dança é uma antropotécnica, no sentido exato de Peter Sloterdijk, ou seja, uma prática treinável que nos faz romper com a dualidade cultura versus natureza. Quando dançamos homenageamos a natureza e a fazemos cultura, para logo em seguida perdemos de vista se estamos num ou noutro campo dessas duas caixinhas.

Os conservadores não dançam pois nasceram de úteros sem líquido, apertados, e desde pequenos foram contrariados em seus desejos por culpa da fé de seus pais na Internacional Miserabilista (1). Foram empurrados para acreditar que o mundo não é do mimo, mas da falta, da escassez, da “guerra de todos contra todos”, da maldade. A ideia de deixarem o corpo receber os fluxos cósmicos que nos fazem dançar, e que nos jogam para a ideia da vida mimada, nunca os atingiu. Por isso mesmo, sempre tiveram dificuldade em abraçar, pegar, cheirar. Só podem fazer isso escondidos e, não raro, em práticas que revelam um homossexualismo altamente homofóbico. O corpo empedrado, empedernido, travado e desajeitado – eis aí algo que Reich soube notar nos neuróticos reacionários. Há uma couraça que os impede de dançar, dizia o nosso reichiano brasileiro predileto, o meu amigo Gayarsa. Imagino o Gayarsa hoje, diante de tantos intelectuais conservadores não dançantes, como ele os ridicularizaria.

A barriga grande não deixa dançar. Não pelo volume da barriga, mas pelo crime estético que o conservador comete ao se lançar no ar. Ele sabe disso, por isso não dança. Mas não só, não dança porque a dança mostra ao espaço que este, apesar de ser dono da materialidade, não a domina. A dança é tão afrontosamente libertária que é, sempre, a primeira coisa que um regime ditatorial regra. Todos os gestos da dança, se permitidos, se militarizam. A direita política adora transformar a dança em marcha.

Quando você tiver a surpresa de ver um conservador dançando, lembre-se: é fake. Afinal, o que o conservador faz que não é fake?

(1) Explico a noção de Internacional Miserabilista como uma posição popular, mas insustentável, que quer ver o homem criado pela antropologia da escassez, dificuldade e necessidade. Ver: Para ler Sloterdijk (Via Verita, 2017)

23/10/2017

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João
João
1 mês atrás

Esse texto tem tudo a ver com CIRO travestido de esquerda mas é de direita,mas um conservador que não dança,só não sei o que ele conserva

Beto
Beto
1 mês atrás
Reply to  João

Boa, professor! Toma, João! ?