Liberais apenas reiteram o senso comum

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Pessoas como Gabriela Prioli, Átila Iamarino, Karnal e Antonio Villa podem falar que no Brasil existe desigualdade social. Liberais não estão proibidos de falar que existem pobres. Esse não é o problema do discurso liberal. O seu defeito é que um tal discurso nunca consegue nos dar uma boa narrativa sobre como que a pobreza é produzida.

O discurso dos pensadores liberais é o de que há pobres, e ponto. As pessoas são pobres porque nasceram filhos de pobres em áreas de pobreza. Em suma, esta é narrativa dos liberais menos conservadores. A narrativa dos liberais mais conservadores diz que as pessoas são pobres porque são menos capazes ou simplesmente muito preguiçosas. O mecanismo de produção da pobreza nunca é mencionado. Na verdade, em geral os liberais não sabem como podemos ter pobres.

A narrativa de Marx continua sendo ainda a melhor a esse respeito. É a que mostra a produção de mais-valia. Nas fábricas, o trabalhador fica dez horas na linha de produção e ganha uma quantia X. No dia seguinte, ele também fica dez horas, mas o patrão põe em sua mão uma maquinaria, ele produz mais e a abundância na produção diminui preços em geral e isso resulta em enormes vendas. O patrão passa a ganhar mais, mas não repassa isso ao seu trabalhador. Ele foi contratado por dez horas, e é pago honestamente por essas dez horas, o mesmo X, ainda que sua produtividade tenha sido maior. Este mais valor produzido é só do patrão. Essa mais-valia gera a distância crescente entre ricos e pobres. Ela é parte essencial da produção da pobreza.

Mas os trabalhadores devem reservar um tanto do salário para pagar impostos. Então, o estado fica com dinheiro dos trabalhadores. Todavia, o estado promete ao trabalhador que esse dinheiro voltará a ele multiplicado em obras sociais de todo tipo, e que é isso que garantirá o funcionamento da cidade. Todavia, quando estamos diante de uma pandemia, como é o caso, o trabalhador descobre que o SUS não recebe o aporte financeiro necessário. Eis que aí há também a expropriação de mais-valia. Trata-se da expropriação da mais valia social. Essa expropriação é fruto de políticas estatais que não privilegiam o aparato público que possa vir a atender os trabalhadores. O estado, dominado pelos patrões e os mais ricos através da democracia, acaba por carrear recursos para setores que só interessam a esses patrões e ricos.

Além disso, há outra parcela de mais-valia social retirada dos trabalhadores. É que os processos de trabalho geram conhecimento, e essa ciência fica nas práticas do trabalho, em vários níveis, e logo é apropriada como meio de produção pelos ricos que, enfim, triplicam seus lucros com isso. Quando olhamos os mecanismos de registros de patentes e de controle da produção do conhecimento, isso nos mostra que aí a mais valia retirada pelos setores mais ricos da população é a chave da expropriação no mundo atual.

Esses dois últimos mecanismos geram distanciamento social maior que aquele inicial, o de expropriação tradicional de mais-valia. Mais pobres são criados por essa situação contemporânea.

Essa narrativa é sempre ou desconsiderada ou simples negada pelos liberais. Eles vivem dizendo: ora, mais valia não existe, já refutaram Marx a respeito disso. No entanto, quando lemos a refutação, ela é pífia. Em geral ela não parte dos conceitos de Marx, ela simplesmente dogmatiza e naturaliza o mercado. Serve para jovens ignorantes, em geral defensores de algo chamado anarco-capitalismo, gritarem na Internet. Todo jovem ignorante grita na Internet. Os nomes citados acima podem até se alimentar disso. Mas, não raro, nem a isso chegam, eles realmente sequer conseguem se lembrar da pergunta sobre como se produzem pobres. Eles estão ideologizados. Repetem o pensamento liberal. Continuam na TV e na mídia em geral porque reiteram o senso comum.

Quem reitera o senso comum é sempre premiado.

Ao reiterar o senso comum, esses liberais falam aquilo que a população já sabe, e cada um que os escuta fica feliz e diz: “nossa! falaram aquilo que eu penso, sinal de que sou inteligente!”. E assim os medíocres vão endossando o liberalismo de gente com Gabriela Prioli, Átila Iamarino, Karnal e Antonio Villa. Essas pessoas podem ser bem intencionadas até (embora o Villa tenha sido pego pelo Haddad mentindo!), mas de boa intenção a pavimentação do caminho do inferno está saturado.

Paulo Ghiraldelli, 62, filósofo.

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Daniel Fábio Kawano
Daniel Fábio Kawano
1 mês atrás

Professor, tem um pensamento que vem me incomodando nos últimos tempos. É fato que a multiplicação do dinheiro no capitalismo financeiro é ilusória pois se todos tentarem sacar o dinheiro irão descobrir que ele não existe. Mas a pandemia revelou que o mesmo vale, por exemplo, para os leitos de UTI, pois cidades com milhares de habitantes tem apenas meia dúzia de leitos. E se ocorrer uma catástrofe, como fica? E como anda aquela sua internet super top que, agora que tem mais gente usando, não garante fazer sequer uma live sem cortar? Como lhe disse ontem, as pessoas falam… Read more »

Davi
Davi
1 mês atrás

Paulo, porque o pensamento liberal ganha ressonância? Sou de professor do ensino fundamental e EJÁ, trabalhado de 7h da manhã até às 10h e os fins de semana preparo aulas, contraditoriamente estou lendo livros agora nesse período de isolamento, no meu cotidiano me deparo com diretores pouco interessados com os caminhos da escola, PPP é só mais um documento na gaveta, as crianças acordam cedo, nem sempre tomam café da manhã, pegam um ônibus sucateiro é rodam por km em estradas mal conservadas, muitos são neopentecostais, porque à igreja católica não tem mais padres missionários, àqueles que ficam na cidade… Read more »

Zelce Mousquer
Zelce Mousquer
1 mês atrás

Texto ficou muito bom. Bastante claro.
Professor fale mais sobre a mais valia na produção de conhecimento e registro de parentes.

Mateus de Castro
Mateus de Castro
1 mês atrás

Olá, professor! Esse artigo é bastante didático, profundo e contundente! Assim também é o seu vídeo “Bozo vai até Aras – não é o discurso liberal que vai parar o Bozo”). Parabéns! Dito isso, gostaria de sugerir uma reflexão específica sobre o seguinte prognóstico: na hipótese de o Brasil concretizar propostas financeiras essenciais apresentadas por profissionais do calibre da Fatorelli, por exemplo, como o senhor entende que ficaria o cenário brasileiro, sob a ótica social, econômica e até de mentalidade dos cidadãos. Eu lhe apresento esse desafio pois entendo que a construção de visões futuras desse tipo pode contribuir para… Read more »