Os neofascistas e a apologia do sofrimento

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Diante da pandemia atual, o filósofo alemão Peter Sloterdijk disse que vai demorar para recuperarmos a frivolidade. No Brasil pandêmico, por conta da busca de um ministro da Saúde que seja compatível com a cabeça torta do presidente, alguns apontam para o olavete Marsili (psiquiatra sem CRM!). A Folha de S. Paulo (20/05/2020), diz que uma de suas pérolas é a afirmação de que a anestesia é um conforto da geração atual.

Há pessoas que, na esteira do confusionista Pondé, acreditam que a ideia de Peter Sloterdijk de que vivemos no mimo  – ou vivíamos – é a mesma ideia que gente como Marsili, Olavo e o próprio Pondé advogam: só o sofrimento e o fracasso criam algo que tem legitimidade para viver. Mas não é nada disso. O lema do sofrimento é o lema do fascismo. Mussolini chegou a ser bem claro sobre isso: o fascismo é a defesa da vida dura. Isso nada tem a ver com a esquerda, campo ao qual Peter Sloterdijk pertence.

Quando Sloterdijk e, enfim, eu mesmo, falamos de uma vida no mimo, na frivolidade, estamos nos referindo a uma situação contínua. Desde o seu nascimento, a vida humana é alguma coisa que tende ao mimo. Aliás, a antropologia que defendemos é a que diz que, sem mimo, ou seja, sem um nicho protetor, não teríamos transformado progenitoras em mães, e não teríamos produzido o homem. A cada etapa de nossas vidas, tanto do ponto de vista ontogenético quanto do ponto de vista filogenético, procuramos mais mimo, mais frivolidade, mas, ao mesmo tempo, em um novo patamar, buscamos um reencontro com a realidade, impondo-nos outras tarefas árduas. Não as antigas, mas novas. Explico isso em dois livros sobre o filósofo alemão, Para ler Sloterdijk (Via Vérita) e Dez lições sobre Sloterdijk (Vozes)

Desse modo, olhamos para a anestesia como um bem, como um mimo bastante interessante, mas que, de certo modo, também nos tira da realidade. Então, reinserimos a realidade não pela reintrodução do alicate para tirar dentes, mas, sim, pela preocupação de se ter de assinar um documento de responsabilidade por conta de aceitarmos a anestesia. Desoneramos a vida com a anestesia, mas a oneramos com novas dores, mais psicológicas que físicas – uma característica moderna que Foucault percebeu bem.

Mas os fascistas não viam assim. E os adeptos do anarcocapitalismo de hoje, que em mentalidade de hábitos pessoais, e não no âmbito da visão de estado, imita os fascistas, não há etapas em espiral, há apenas o passado cristalizado como o único bom lugar. Assim, ou voltamos ao alicate ou seremos fracos e, se somos fracos, não merecemos viver. Olavo e seus dois discípulos, Marsili e Pondé, pensam assim. No fundo, são frutos do fracasso. Cada um tem um grande sofrimento na vida. Fazem disso um troféu. Ostentam corpos disformes e mentes perturbadas como glória. Não querem ninguém feliz. Não podem pensar em um mundo em que a felicidade pode estar numa curva da espiral.

É interessante notar que essa mesma mania de tornar tudo simplório, sem as complexidades dialéticas e sinuosidades da espiral, os faz adeptos, também, da sociedade da transparência, denunciada por Byung Chul Han. Para a dor, ora, basta o alicate. Tudo deve ser na base do já existente no passado. Tudo tem que voltar ao passado, quando vivíamos na roça ou, mais longes ainda, nas cavernas. A sofisticação é um mal. Nessa busca, não suportam o complexo, o que tem rugas, o que é dialético e tem de se bater com o Outro. Advogam o liso. Então, eis que encontram a bem aventurança na sociedade do obsceno e do pornográfico. Falam de sexo, mas são assexuados. Na verdade, o caso aqui apresentado, são impotentes e, por isso, podem falar de sexo. Não sentem erotismo algum. São os que podem a todo momento sexualizar pelas palavras, pois, factualmente, são deserotizada e dessexualizados. Corre aqui o campo fértil para a pornografia e para a incapacidade de saber usar o palavrão de cunho sexual.

É neste ponto que essas gente neofascista se encontra com os yuppies e a esquerda cirandeira, também assexuada e deserotizada, como as descrevi em outro lugar (A juventude dessexualizada e deserotizada no comando)

Paulo Ghiraldelli, 62, filósofo.

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Matheus Rocha
Matheus Rocha
5 dias atrás

Curioso notar que o Pondé defenda, entre outras coisa, a vida dura, tal como o senhor colocou a analogia do alicate, mas com os corpos deles é o oposto, Pondé quer para ele a vida fácil e para os outros a vida difícil. Eu lembro da última vista dele na CNN, onde ele disse que o ponto mais negativo dessa pandemia é o fato dele não poder viajar mais. Veja que curioso, tanta gente sofrendo inominavelmente de várias formas possível e o Pondé preocupado com a própria viagem? É esse tipo de sujeito que a direita aclama como intelectual? É… Read more »

Alex Ricardo da Silva
Alex Ricardo da Silva
5 dias atrás

Nesse caso, a apologia de sofrimento histórico que o fascista Bozo se vangloria seria o fracasso na carreira militar?

JOÃO BATISTA Cavalcanti de Albuquerque RATIER
JOÃO BATISTA Cavalcanti de Albuquerque RATIER
5 dias atrás

O pessoal tá cego

JOÃO BATISTA Cavalcanti de Albuquerque RATIER
JOÃO BATISTA Cavalcanti de Albuquerque RATIER
5 dias atrás

Muito bom professor