A juventude deserotizada e dessexualizada no comando

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Ao aportarmos no mundo deserotizado – talvez até mesmo assexuado – nos damos conta que chegamos ao campo próprio do obsceno e do pornográfico. O obsceno e o pornográfico primam pela exposição. O erótico e, em certo sentido, até mesmo o sexuado, vivem do jogo de sombra e luz. Só o que vive da penumbra é erótico. Só o que é manchado e rugoso é sexual.

O filósofo coreano é a a voz que vem denunciando a “sociedade da transparência”. Tudo queremos que seja muito claro. A ausência do Outro, do negativo, do que faz oposição termina na sociedade da vida lisa. A estética do liso se impõe acima da estética do rugoso. Não à toa, diz ele, a chamada “depilação brasileira” se faz sentir como moda no mundo todo. Depila-se tudo, até o ânus. Eu acrescentaria: há também o próprio “clareamento anal”, uma febre da atualidade. No limite: o corte dos grandes lábios vaginais, na chamada cirurgia estética íntima!

O corpo pode existir, contanto que não traga sombras. Mas, como o corpo, a qualquer momento, pode nos enganar (os sentidos nos enganam, disse Descartes), o bom seria que pudéssemos evitá-lo. Nietzsche chamou a mente de pequena razão e o corpo de grande razão, e disse que esta última dava a última palavra! Fizemos tudo para escaparmos disso. Então, virtualizamos tudo, de modo a reduzir o corpo ao liso, ou seja, à tela bidimensional, sem cheiro. Que tudo fique bem limpo. Não à toa os jovens dizem que não fazem mais sexo oral – os homens, principalmente. As mulheres que desejam isso precisam recorrer a homens mais velhos.

A juventude yuppie e a juventude identitária são frutos do mesmo neoliberalismo que elimina o Outro e coloca adiante apenas a autocompetição e a autoexploração. Cada um é empresário num mundo sem trabalhadores. Cada um dirige sua própria empresa que nada tem a ver com o seu corpo, apenas com o seu celular. Os yuppies dizem que sucesso é algo individual, e implica em ter dinheiro. Os identitários, em reação, dizem que isso é falso, e então formam não mais minorias, mas tribos. Negam o todo neoliberal como universal, e elegem como o universal suas próprias características e idiossincrasias. Mas o todo neoliberal se vinga, e os faz se engajarem também no âmbito da vida deserotizada e assexuada.

Se o corpo é cultivado na academia, não é pela saúde, mas pela estética do liso – notem bem isso!

Até pouco tempo a identidade havia perdido fervor doutrinário racional para se fixar no corpo. Hoje, ela vai do corpo vivo para o corpo virtual. Ela se integra no corpo enquanto local de manchas permitidas: as tatuagens. Sim, se tiramos pelos e ficamos com o corpo sem nenhuma possibilidade de derrapagem, então criamos artificialmente manchas na pele. Tatuagem anal é o segrego, dado que nada há mais de beleza na mulher de quatro, no homem deitado, uma vez que o que está ali nada tem de mulher ou homem, mas apenas de manequins nus. Não raro, manequins virtuais que são réplicas de pessoas “bombadas” que nada são senão manequins. Junto disso, os que não conseguem a bela estética, também se tornam lisos pela pela escorregadia e balofa: todos engordam. Ficar redondo é também uma forma de não mais conviver com luz e sombra, só luz.

Nessa sociedade de corporalização descorporificada, os anti-eróticos e assexuados emergem com gana total. Os exemplos vindos da juventude lembram bem isso.

Jovens! O vereador negro Fernando Holiday se diz gay “não praticante”. O que é isso? A deputada Tábata finge rubor ao ser lembrada por Ciro Gomes da “mamadeira de piroca”. Luciano Huck e Angélica conseguem ter filhos sem fazer sexo (ou ao menos assim é que são apresentados, sempre, na Globo). Gabriela Prioli, ela mesma dona de corpo aguado, fala de política sem corpos, pois as regras jurídicas sempre dão conta espetacular de tudo. Caio Coppola raramente é visto com mulheres (ou homens), quase que lembrando Pondé, nunca fotografado com esposa. Nisso, imita seu parceiro, Leandro Karnal – cujo nome é, de certo modo, um paradoxo, dado que o mundo todo cabe no “eu interior”. Todos eles desenvolvem o culto à assepsia. Deles todos, Pondé é o que fala em pornografia. Claro, a pornografia é exatamente o auge da dessexualização e deserotização. Todos eles são jovens (sim, pode incluir Pondé entre os jovens, pela mentalidade semelhante e pela falta de perspectiva).

Em cada uma dessas situações, temos aí, em se tratando de Brasil, a direita yuppie e a esquerda cirandeira, a que faz ciranda, gira em torno de si mesma. É a realização máxima da anti-Atenas. A cidade de Atenas transbordava erotismo. Afinal, Eros nunca foi só demiurgo, mas também deus-fundador. A cidade moderna-contemporânea é feita de edifícios de vidro, e nenhum sexo escondido pode ser feito. Pois se ainda há sexo, ele é pudico, rápido, movido pela linguagem de evangélicos. O sexo emburrecido. O sexo de motel regrado a filme pornográfico somente com closes.

Essa juventude deserotizada, que não pode nem ouvir palavras que mostrem “sacanagens”, conseguiu absorver e matar até mesmo o sexy que havia em Anita. Ela foi branqueando e cada vez mais se tornando um tipo de Michael Jackson. Está ficando com a sua sexualidade em franca deserotização à medida que se torna obscena. Uma vez obscena, ou seja, não tendo mais nenhuma rugosidade, nada melhor que aparecer em salas de aula da elite branca, virando pau mandado de lições que nada dizem. Afinal, aluno é um ser assexuado – é uma obrigação da vida escolar.

Tudo isso é o espírito anti-68, anti-70.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo.

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Henrique Neves
Henrique Neves
1 mês atrás

Me fez lembrar muito um artigo de Frédéric jameson, do final dos anos 80, que descreve o visual, na esteira do pós modernismo, como pornográfico.

Bruno Camargo
Bruno Camargo
1 mês atrás

Ghiraldelli , já ouviu falar em Incel ? Diz muito sobre essa juventude e tem muita relação com este seu artigo

Alex Ricardo da Silva
Alex Ricardo da Silva
1 mês atrás

Em um curso de fotografia, o professor me disse uma frase que ficou carimbada até hoje:

“Procure a luz, mas respeite as sombras”.

O povo tava no fundo poço escuro, aparece Bozo com um palito de fósforo aceso, iludindo, dizendo ser a luz. Moro chegou acendeu uma vela. Clareou um pouquinho mais. Agora, Moro e outros correram, agora a vela tá derretendo com um restinho de luz. Mas os Bolsominions ainda se sentem iluminados. É preciso soprar dos 4 lados pra apagar essa vela e acender uma fogueira.

Lux Maia
Lux Maia
9 dias atrás

Pelo o que entendi, deduzo que se está deixando de respeitar e apreciar o erro, a falha, a imperfeição etc na ilusão de que tudo pode ser perfeito como eu quero que seja. É como se o mundo (interior e exterior) devessem ser completamente controlados pra meu liso e ininterrupto deleite. Se há contradições, eu deleto, cirurgio-o e se eu não puder eliminá-lo, simplesmente eu o ignorarei. Não há luz e sombra, só luz. São parte de ideia de um individualismo em que não estou aberto ao imprevisívelb adversidads do mundo e menos ainda às do outro; afinal, a esta… Read more »