Luciano Huck e Gabriela Prioli vão tapear também você?

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A política é a atividade de administração da polis, ou seja, do estado. Parece algo fácil, se tomamos a tarefa de administração como quem faz uma empresa cumprir seus objetivos produtivos em épocas prósperas, sem crise. No entanto, administrar o estado é sempre atuar em época de crise. Por uma razão simples: a sociedade que o estado rege está prenhe de interesses divergentes, vindas de setores sociais e classes sociais diferentes. Consensos são raros!

Por isso mesmo, classes sociais e setores sociais disputam politicamente o comando do Estado. Ter o comando do estado é poder dirigir ações em seu próprio favor. Nesse sentido, a política é, no campo da disputa pelo controle do estado, uma parente próxima da guerra. Não é difícil, portanto, ver a política deslizar para a guerra civil.  A democracia mais fértil e antiga do mundo moderno, a americana, viu isso ocorrer na Guerra de Secessão.

Hoje em dia, até mais que antes, os setores majoritários da população têm no comando do estado a única chance de se apropriarem da riqueza que produzem. A exploração da mais valia vinda da fábrica tem um limite. A mais valia social, que resulta nos impostos, esta sim corresponde à fatia mais cobiçada. Deter o controle do estado é direcionar impostos para ações de melhoria da cidade, se apropriando da mais valia social e colocando-a a serviço daquilo que se entende como sendo a melhoria da cidade. Mas a “melhoria da cidade” é relativa a grupos e classes que vivem na cidade.

Há um setor social que, vendo esses conflitos, tende a negá-los. Em geral é a classe média que defende a ideia de que os conflitos sociais não existem, que tudo é uma questão de técnicas de administração, de uso de tecnologias científicas e de construções jurídicas anódinas. Mesmo hoje, quando não sabemos mais direito o que é classe média (se só tomamos questões de posses e rendas), mantemos a ideia de que essa ideologia, a da neutralidade técnica, denota o pensamento de classe média. Não raro, definimos classe média mais por essa ideologia do que por qualquer outra coisa.

No Brasil, vemos agora surgir alguns grupos que estão identificados com o objetivo de esvaziar a política de seu inerente conteúdo conflituoso. Eles fornecem projetos que visam conquistar a classe média. Luciano Huck/Rede Globo representa uma vertente desse tipo de coisa, Gabriela Prioli/CNN representa outro. Ele insiste em se dizer fora do campo da esquerda e da direita. Nega conflitos e apela para as tecnologias como o que pode resolver todos os nossos problemas. Ela também não se posiciona, só que ao invés de dar atenção à tecnologia, induz quem a escuta a imaginar que política se resume no estabelecimento das melhores as leis – é a visão jurisdicista da política.

Como ambos são advogados de formação, ou seja, escolarizados, eles falam de modo que a classe média se identifique com eles. Como estão na TV, satisfazem o público “da sala de jantar”. E como escondem os conflitos por meios ideológicos, com a tecnologia e o regramento jurídico, podem dar para a classe média a tranquilidade social que esta deseja mais que tudo. Além disso, a classe média tende a ver a política como dividida apenas entre “os que roubam” e “os que não roubam”. Ora, como que um apresentador de TV, rico e casado com uma loirinha, iria roubar? Como que uma moça bem branca, loira e de olhos azuis iria roubar? Nesse quesito, então, já entram ganhando.

Ambos são fracos. No que fazem na TV são muitos fracos, até um tanto tolos. Na política, seriam as desgraças amadoras que já conhecemos bem no que resulta. Os jovens incautos de classe média irão idolatrar ou um ou outro, ou talvez os dois. E se viermos a alertá-los sobre isso, logo tenderão à “lacração”, dizendo: “é inveja”. Esta reação é a esperada pelos marqueteiros de ambos os lados. O liberalismo inodoro e incolor põe suas cartas na mesa. E alguns se acharão espertos, pois verão ideologia em Huck, e não na tão ideologizada que ele, a Prioli. A esses espertalhões, ao menos no momento atual, restará dar de ombros.

Paulo Ghiraldelli, 62, filósofo

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Paulo
Paulo
1 mês atrás

Podemos, por ora, dar de ombros para o Luciano Huck e a Gabriela Prioli. Porém, sempre é bom lembrar o quanto a academia pouco ou nada ligou a bolsonaro e seus seguidores, anos atrás, e a coisa deu no que deu.

MARCELO S
MARCELO S
1 mês atrás
Reply to  Paulo

TENS RAZÃO

Euripedes Gomes Filho
Euripedes Gomes Filho
1 mês atrás

Ghiraldelli
!!! Não sei o que acontece, mas todos os teus vídeos, DO YOUTUBE que posto na minha página, que compartilho, ficam lá postados, mas sem a imagem exposta e congelada como em os vídeos de outros palestrantes… Só acontece com os seus vídeos, embora eu continue a postar…Grato. P.S. NO MAIS, AO SEREM ACESSADOS, ELES ESTÃO FUNCIONANDO NORMALMENTE… Uso esse face: “Euri Potiguara Sanhauá”, o meu principal estava sendo bloqueado sistematicamente… Obs.: Sou aluno de Filosofia do Campus I, UFPB… Abraços fraternos…

Rosalvo Almeida Filho
Rosalvo Almeida Filho
1 mês atrás

DISSE TUDO: DISPUTA PELA CHAVE DO COFRE CHAMADO ESTADO