O adeus à virilidade

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Entre nossos parentes primatas, a diferença entre macho e fêmea parece ser menos acentuada que entre nós. Será que foi no momento que as fêmeas humanas deixaram de ser só progenitoras para serem mães (Sloterdijk), que elas fragilizaram suas musculaturas? É difícil saber. Talvez nunca possamos ter boas hipóteses nessa busca antropológica. Podemos somente constatar essas diferenças físicas e, ao observar a história, notar como elas contaram na cultura.

Que a mulher ao se tornar antes mãe que só progenitora ganhou, como presente, a caverna, o lar, deixando o homem para a atividade da aventura e da caça, isso nós conhecemos bem. E podemos dizer que a guerra nunca foi outra coisa que não a extensão da caça. A atividade masculina como atividade viril, no âmbito de uma semântica específica que dá glórias para essa virilidade, tem a ver com a atividade guerreira. Capacidade de domínio pela força, decisão para o combate e propensão para a decisão calculada caíram nas costas dos homens enquanto guerreiros, até o dia em que nenhum homem mais necessitou ser guerreiro.

Quem necessita ser guerreiro hoje senão o texano que se inscreve nas forças armadas americanas? Ninguém mais. Ali estão os últimos homens que devem exibir virilidade, ainda que todos eles possam ser homossexuais enrustidos – ou, quando Trump for embora, apenas homossexuais. Ser viril não impede de ser homossexual. Ao contrário, em certos sítios geográficos e históricos isso foi condição básica.

Mas, o mundo atual, que é o da relativa leveza, da desoneração, da sociedade de mercado, da democracia e do enaltecimento da diferença, da paz e, enfim, de um cultivo da liberdade individual enquanto liberdade narcísica, não há nenhum espaço para o velho conceito de virilidade. Passamos rapidamente da androgenia para uma certa feminilização dos gestos e costumes. Passamos do cabeleireiro unissex para a volta dos salões só para homens, contanto que esses homens possam todos, lá no salão, serem homoeróticos – e às vezes homofóbicos. A estética gay, para homens e mulheres, se tornou a dona da moda atual. As roupas e gestos podem ser trocados, contanto que tudo tenha uma marca que ainda possa ser identificada pela expressão “é gay”.

Isso indica que gênero e sexo se igualaram e que ninguém mais sabe mesmo o que significou ser viril. Não é necessário mais ser viril. O que é necessário, agora, é ser “companheiro”. Sexo? Fazer sexo? Ora, o sexo se tornou abstrato, e pode ser feito se masturbando virtualmente, no culto narcísico, ou com outro, fisicamente, contanto que possa ser escolhido pelo Tinder. Nesse caso, o fazer sexo também não tem mais nada a ver com a busca das mulheres pela virilidade. A virilidade se tornou um dos avatares. Se na quinta feira ela estiver na moda e no desejo, basta pedi-la. Alguém na net irá acolher o pedido e vir desempenhar uma tal performance.

Até a direita política, que um dia se orgulhou de cultivar a virilidade, agora se põe mansa e, de certo modo, um tanto que vitimizada. Ser de direita, antes, era ser como John Wayne e Clint Eastwood. Agora, ser de direita é todo dia reclamar de algo na pele ou falar que a roupa pinica ou, então, dizer que é necessário encontrar homens e mulheres depilados e limpinhos. A direita foi o último reduto da virilidade! Bem, é certo que agora se transformou na primeira porta para aquilo que os gays, jocosamente, chamam de viadagem.

Paulo Ghiraldelli, 62, filósofo

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