A co-imunização de Sloterdijk em tempos de pandemia

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A maior parte dos intelectuais que compuseram o Sopa de Wuran, que ficou conhecido como “o livro dos filósofos a respeito da pandemia”, mostrou preocupação com a liberdade. Herança de Hegel, certamente. Mas, também, memória boa. Qualquer pensador europeu de bom senso sabe bem o quanto naquelas terras a discriminação por doenças – existentes e fictícias – já possibilitou ao estado criar campos de concentração ou hospitais psiquiátricos politicamente forjados. Exatamente por causa disso, o que eles escreveram pouco serve para o Brasil.

Aqui, no cômputo geral, temos a maior taxa de contágio do mundo e, ao mesmo tempo – e justamente por conta disso – um desdém inaudito pela quarentena. O Capitão Corona que nos desgoverna, ele próprio uma fusão entre vírus e homem, está na presidência do país. Ele próprio é o defensor dos desejos do vírus que, enfim, são também os seus. Causar o caos em doses controláveis (existe isso?) através de um aumento de mortes provocada pela ideia de que a “imunidade de rebanho” é a solução para o problema que o seu desgoverno nos oferece.

Essa solução parece mórbida. Mas, se raciocinamos um pouco segundo o filósofo italiano Roberto Espósito, de maneira nenhuma Bolsonaro está abertamente defendendo a morte. Os nazistas, diz Espósito, fizeram o que fizeram em nome da vida. O biopoder se fez presente de uma maneira que as experiências com humanos e os projetos de “depuração da raça” nada eram senão projetos de uma vida melhor. A vida dos fortes geraria a vida imune. Desse modo, segundo Espósito, os médicos nazistas não viram diferença entre o juramento de Hipócrates e o projeto hitleriano. Claro que, quando medíocres e fracassados são alçados a cargos públicos relevantes, eles não titubeiam em fazer diminuir as diferenças entre princípios nobres e novos princípios compostos de subversão. Os médicos agraciados com cargos por Hitler se sentiram à vontade para desvirtuar Hipócrates. No Brasil, eu comparo essa gente aos tipos como Zannotto, um incentivador da cloroquina. Medíocres, mesmo que com um diploma em baixo do braço, são sempre os que se tornam os grandes cientistas dos regimes políticos guiados por um tipo ciência enquanto anticiência.

A situação no Brasil pode ser bem entendida não como um projeto teórico para a morte, mas sim para a vida. Todavia,  a vida aqui é interpretada nesse sentido do nazismo, vida dos fortes pela nação pura. Um pastiche neonazista, se é que o próprio nazismo já não era ele mesmo um pastiche da virilidade e saúde. A ideia de imunidade certamente se adapta bem ao que Hitler desejou para Alemanha: todas as nações imperialistas são nossas inimigas, então, para ficarmos imunes a elas, vamos incorporá-las. A imunização completa é sempre um projeto impossível: como ter anticorpos para todos os vírus do mundo senão deflagrar uma guerra infinita? Foi isso que Hitler fez. Deu no que deu, e que era bem compatível com a filosofia da história dos nazistas: um traçado de apogeu e queda.

Todavia, o projeto imunizatório tem outras facetas. Em uma boa entrevista recente (O Globo, 05/05/2020), o filósofo alemão Peter Sloterdijk lembra de seu conceito de co-imunização. A ideia básica é a imunidade não individualizada, mas a busca pela imunização em um sentido amplo, conjunto e harmonioso, feita ela aquisição de membranas permeáveis. Nesse projeto, cabe então o objetivo de que toda a humanidade se imunize de seus próprios perigos conjuntamente, em um processo cuidadoso de respeito aos Direitos Humanos. Da maneira como toma Sloterdijk, há alguns exemplos interessantes em que penso. É o que segue.

Podemos nos imunizar por co-imunização, por exemplo, ao racismo e ao corona. Inclusive ao mesmo tempo. Para tal, temos de saber em que doses incorporamos o racismo e o corona para podermos produzir internamente anticorpos. Quando começamos a nos mover contra o Apartheid na África do Sul, fomos revendo nossos racismos internos enquanto condenávamos, mundialmente, o racismo africano. Agimos segundo um grande movimento de todas as nações coordenadamente para que o regime de Apartheid fosse extinto. Ficamos co-imunes ao racismo. Senão plenamente, pelo menos podemos dizer que hoje, em cada país, há mais anticorpos contra ele do que antes. Podemos ficar co-imunes ao covid-19. A colaboração entre os médicos do mundo todo, como está ocorrendo agora (e Sloterdijk chama a atenção para tal), é um projeto de co-imunização. Nunca houve tamanha troca de informações pela saúde coletiva como ocorre agora no âmbito da medicina e correlatos.

Nesse sentido, Sloterdijk diz que a questão de tomar conta da liberdade nunca deixará de ser uma preocupação. Todavia, ele afirma, estamos agora precisando de um estado forte, um serviço público bem organizado, um projeto de co-imunização que nos dará uma sociedade que se apresentará como comunidade mundial. A utopia de Sloterdijk o faz um autêntico filósofo. Sem utopias grandiosas não há grandes filósofos.

Paulo Ghiraldelli, 62, filósofo.

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Caio Pablo
Caio Pablo
17 dias atrás

Caro professor Ghiraldelli, o sentido de “co-imunização” não me ficou muito claro nesse breve texto. Se o caro professor pudesse me explicá-lo melhor, seria ótimo. Grato!

Alex Ricardo da Silva
Alex Ricardo da Silva
17 dias atrás

Aguardando sua grandiosa utopia Paulo!

Fábio Schmidt
Fábio Schmidt
15 dias atrás

Caro professor, não consigo mais acessar vários textos seus que estavam disponíveis na versão anterior do site. Onde eles estão? Havia um vasto material de textos de filosofia sobre temas diversos que não consigo mais ler. Peço que volte a disponibilizar pois eram muito relevantes e didáticos.