Explicando biopoder a partir de Átila Iamarino

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Em artigo da Folha de S. Paulo (29/04/2020) o biólogo Átila Iamarino mostra os problemas do “passaporte imune”. Do que se trata?

A ideia desse “passaporte” é simples: os que tiveram contato com o vírus estão imunes e, então, poderiam voltar ao trabalho. Essa ideia não é válida. Vários pesquisadores já mostraram que o covid-19, como doença respiratória e enquadrado como “vírus do século XXI”, não se comporta como os clássicos vírus, tipo catapora. Pode ser que ele não provoque imunidade definitiva. Depois de algum tempo, uma vez exposto ao vírus, a pessoa antes infectada readquire a doença. E se da primeira vez os sintomas nem apareceram, da segunda os sintomas podem aparecer, e de maneira drástica. Iamarino sabe disso, e então mostra exemplos históricos para chegar à conclusão que serão os mais pobres e, de certa maneira os negros, que ganharão o “passaporte” mais rapidamente que outros – pois, afinal, é a mão de obra dos mais pobre a menos poupada, a requisitada sempre mais cedo para o trabalho.

Ora, o que isso tem a ver com biopoder?

Simples: o biopoder é o exercício do poder tendo como objeto o corpo, a vida nua (na acepção de Agamben), isto é, a vida puramente biológica ou a sobrevivência. O biopoder parte do pressuposto de que a vida é vida puramente biológica. O próprio biopoder reduz a vida a este patamar. E ele se exerce como poder, isto é, como biopoder, na medida em que assim age. A posse do “passaporte” e suas determinações – a volta ao trabalho – se faz segundo uma regra do biopoder: os mais pobres são os que mais precisariam do “passaporte”, pois necessitariam voltar ao trabalho o quanto antes, por falta de recursos para ficar em quarentena. São eles, então, que, já tendo suas vidas reduzidas à mera sobrevivência, estariam mais expostos a uma segunda reinfecção. A vida posta no campo da pura necessidade e não da liberdade, perde ainda mais a liberdade quando ganha o “passaporte”, um instrumento de aparente liberdade. Ao se imaginar que se vai para a liberdade, o que se faz é reincidir no campo da necessidade, exatamente porque, sendo pobre, sua vida é já contabilizada como vida nua. Se ao fim e ao cabo, vem a perecer, o reinserido no trabalho receberá da sociedade, perversamente, a seguinte nota: perdeu-se não uma vida, mas apenas um corpo, algo desde sempre reduzido a uma coisa, algo que parou de funcionar. Como escreveu Adorno certa vez a respeito da modernidade: em nossos tempos as pessoas não morrem, elas pifam.

Mas a conversa não termina aí. O que temos de notar é que quando Foucault elaborou a noção de biopoder, ele assim o fez de modo a desenhar a modernidade. Para ele, o biopoder é a forma do poder na modernidade, e uma característica central desta. O soberano não moderno tinha o direito de matar e deixar viver, só a política moderna se fez como biopolítica: uma ação de cuidado para com a vida como vida biológica. Lidar com doenças infecciosas se tornou, entre tantas outras medidas, uma constante do poder político. Evitar contágios e estabelecer controles tanto coercitivos quanto promocionais parece ao estado moderno uma sua incumbência própria. Nesse sentido, estamos imersos hoje no biopoder. Quem receber o “passaporte imune” saberá que ele foi emitido pelo ministério da Saúde de um governo que é, todo ele, apenas uma penduricalho desse ministério.

Somos autenticamente modernos, de maneira oficial, só agora, quando além da carteira de vacinação também tivermos nosso “passaporte de imune”. Isso dispensará carteira de identidade. Atravessaremos portas ou não a partir de nosso registro corporal, como em Gattaca, um filme de ficção de 1997. Alias, já disse algum pensador: nada envelhece mais depressa que o moderno.

Paulo Ghiraldelli, 62, filósofo.

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