O youtuber adepto do chamado “realismo ingênuo”

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Critiquei o youtuber Pirulla por uma razão simples: ele é adepto, talvez sem o saber, do realismo cientifico. Do que se trata? Fácil explicar: ele toma a narrativa da evolução diante da narrativa do designer inteligente como comparáveis. Elas não são. Se assim faz, cai no mesmo erro dos religiosos criacionistas, só que no sentido inverso.

Explico: a narrativa criacionista é baseada nos Evangelhos, e estes são do gênero literário da poesia, oriundos da forma oral e encantada de lidar com o mundo e de regrá-lo moralmente para benefício do homem antigo. A narrativa evolucionista é baseada em Darwin, e este trabalhou com o gênero literário chamado ciência – tipicamente moderno – algo que faz os homens olharem o mundo e olharem a si mesmos segundo um modelo que não é de integração, mas de explicação.

O positivismo é a doutrina que incentivou o realismo científico, típico do século XIX. Muito do evolucionismo se filiou ao positivismo. Ainda hoje, há evolucionistas positivistas, que não percebem que não devem debater com criacionistas ou divulgadores dos Evangelhos. O youtuber Pirulla é um deles. Critiquei o rapaz não para desmerece-lo, mas, sim, ao contrário, por consideração. Vi nele um educador popular que tem potencial e, portanto, que deve ser alertado do erro. Erro, claro, na visão da filosofia do pragmatismo e, em geral, de toda a filosofia contemporânea. (Os próprios positivistas ou neopositivistas não acham que estão errados!)

A filosofia contemporânea é, em geral, 1) antiplatônica e 2)  antipositivista. Ou seja, 1) a filosofia contemporânea (Rorty, Davidson, Foucault, Nietzsche, Derrida, Deleuze etc.) é antiplatônica porque não acredita que exista uma narrativa universal, ou seja, um instrumento geral que sirva para todo tipo de coisa, todo tipo de objeto ou problema. Uma chave universal para todas as portas, como queria Platão, é algo que causa desconfiança na filosofia contemporânea. 2) O pensamento de Comte, o positivismo, com seu realismo científico, é algo que não cabe na filosofia contemporânea, pois esta vê a ciência como autora de modelos trocáveis, perecíveis e, portanto, incapazes de darem conta do real definitivamente.

Entre os filósofos contemporâneos – Rorty à frente – a ideia básica é de que o melhor modo de atuar hoje em dia é usar de narrativas que funcionam segundo instrumentos. Se queremos fazer um discurso de consolo (na morte de alguém) podemos usar a poesia, laica ou religiosa, mas se queremos levar o homem à Lua talvez seja melhor usar da narrativa científica – a física de Newton e a física pós-Newton. Se queremos namorar é bom falarmos da Lua segundo seu brilho, em acordo com o brilho dos olhos da moça nossa namorada, se queremos ir à Lua é bom falarmos segundo a astronáutica.

A ânsia do youtuber realista ingênuo e de positivistas em combater a religião os leva a não perceber que o mito judaico cristão não é mais um concorrente da evolução. Talvez, no máximo, um concorrente político. Mas não é um concorrente efetivo, em termos de descrição da realidade, pois ele é um mito, ou seja, uma narrativa poética que traz quem o recita para o mundo cristão do respeito ao amor enquanto lei universal de Deus. E a narrativa científica não faz isso, ela no máximo integra os cientistas enquanto corporação, de resto ela serve para construirmos carros, naves, fazer descobertas médicas etc.

Na escola pública, se ensinamos gêneros literários (na disciplina Português), podemos admitir então que existam disciplinas que adotem um gênero literário par excellence: a narrativa da ciência é uma narrativa válida na aula de química ou física, enquanto que a narrativa poético-religiosa poderia caber na disciplina religião. Não há razão de tirar nacos da cultura, válidos para a formação do jovem, da escola pública. Tirar da escola a Bíblia nos levaria a tirar a Ilíada e a Odisseia! Ao final, teríamos uma escola empobrecida.

Foi isso que fiz no vídeo, e que agora, em texto, explico. Uma breve lição de filosofia contemporânea. Talvez o próprio Pirulla não saiba aproveitar dela. Mas outros, com mais curiosidade e tempo, saberão.

Paulo Ghiraldelli Jr., 62, filósofo

 

 

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Mariangela
Mariangela
20 dias atrás

Estamos repostando os textos antigos que foram apagados pessoal!