Três elementos do mundo pós-pandemia

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É manca qualquer narrativa sobre o mundo pós-pandemia que não leve em conta o conceito de biopoder e derivados. Nesse sentido, tenho visto tanto gente não séria (Karnal e Pondé) quanto gente séria (Laura de Carvalho e outros economistas) apresentarem conversas pouco interessantes. Não raro, discute-se sobre se o mundo vai ou não deixar o neoliberalismo. Em acréscimo fala-se sobre se as pessoas serão mais ou menos solidárias. Caso o covid-19 pudesse ler o que se tem dito nessas paragens, ele estranharia ver o seu nome envolvido. Ele não se reconheceria nessas narrativas.

O evento proporcionado pelo covid-19 é alguma coisa do âmbito do bioposwe par excellence, no sentido de Foucault. Os desdobramentos dados por Agamben, Sloterdijk e Roberto Espósito ao conceito completam o quadro. É a partir dessas referências que escrevo. Se nos guiamos por esses autores, e se localizamos o que o covid-19 efetiva e primeiramente atinge, vamos direto à noção de corpo.

O que há de concreto no mundo pós-pandemia é que ele não vingará de uma vez, abruptamente. Sairemos desse mundo atual, de crise, de modo tão lento quanto saímos (saímos?) do mundo pós-perigo-da-AIDs. O corpo humano terá a sua silhueta mais uma vez redesenhada. Seus limites fixados pela pele, segundo o que até então temos feito, não serão mais viáveis. Além disso, as antropotécnicas (Sloterdijk) irão gerar a fusão entre coisa e pessoa num ritmo crescente: primeiro, a máscara se tornará uma constante e, depois, apetrechos tecnológicos a substituirão e irão se introduzir ao próprio corpo, internamente. Teremos próteses que irão fazer a função da máscara e, talvez, do tamanho do corpo, como exoesqueletos. Neste último caso, as capas de corpo serão um primeiro estágio. Mesmo que apareçam vacinas, elas não irão alterar essas mudanças corporais, que mais ou menos persistirão, e isso por uma razão simples: daqui para diante estaremos sempre esperando a nova epidemia em escala global e em velocidade cada vez mais rápida. O fato é que o chamado corpo nu (Agamben), o corpo puramente biológico, que é o que importa no âmbito da modernidade, irá trazer para o seu interior muito mais coisa do que podemos imaginar, a favor de imunizações (Espósito). Se temos stent para facilitar o funcionamento do coração e óculos para corrigir nossa visão, nada impede que tenhamos apetrechos de todo tipo modificando o corpo em favor de imunizações rápidas, enquanto a vacina, que pertence ao campo das antropotécnicas químicas, não se viabilizam.

Uma outra mutação será a da arquitetura, em função dos corpos. As casas promíscuas tenderão a serem erradicadas. Não estou dizendo que a pobreza acabará. Mas a pobreza regrada por uma arquitetura coletiva, de baixo custo, será acelerada independentemente de termos o neoliberalismo afastado ou não. Corpo e casa estarão mais correlacionados. A casa-escritório, que hoje só os intelectuais possuem, será universalizada.

A tendência a uma crescente virtualização do corpo irá se acelerar. Portanto, também teremos uma deserotização da vida real e uma retransformação da atividade sexual como ludicidade cada vez mais esdrúxula. O sexo irá ganhar uma sobrevida inaudita em termos de virtualidade e, claro, as consequências são óbvias: existirão mais jovens que não conseguirão se excitar com o sexo real, de carne e osso, e que apelarão para o coito sem romantismo e rápido. Isso para não dizer das práticas bizarras, que irão passar da deep web para a web comum. Algumas mulheres reclamarão! Sobrarão alguns homens “da antiga”, e que irão se sobrepor durante algum tempo, como “melhores machos”. Isso durante algum tempo. Depois, até estes desaparecerão.

A bi-dimensionalidade da tela, que permanecerá vigente por muito tempo ainda, fará de todos nós pessoas com menos capacidade de empatia com o mundo de carne e osso, de três dimensões. Isso trará uma sentimentalidade bastante diferente, uma nova maneira de emoções a partir de nova corporalidade.

Por conta da virtualização excessiva, a maior parte das pessoas será antes usuária de uma plataforma que continuadora da tradição que dava importância à formação intelectual e moral  segundo um longo percurso vital. O plano de estudos incorporado ao mental (a vida escolar normal, a formação), como foi o caso no mundo pré-internet, tenderá a ser algo ininteligível para as futuras gerações.

Essas alterações se darão para além da política filiada a uma maior ou menor intervenção estatal. Mas, certamente, elas não serão independentes da financeirização do capitalismo. Elas estarão, todas, segundo o que a financeirização já vem fazendo. A não ser que o próprio capitalismo entre numa crise de autodestruição – o que não é nunca uma hipótese descartável.

Paulo Ghiraldelli, 62, filósofo. Autor, entre outros, de A filosofia explica Bolsonaro (Editora Leya)

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