A sociedade de Bolsonaro no horizonte: o pastiche do anarcocapitalismo

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O celular era caro e chegou ao pobre. O saneamento básico nunca foi caro e não chegou ao pobre. A chamada sociedade de consumo escolhe o que devemos consumir. Essa situação se adapta bem ao trabalho de um estado que, paradoxalmente, não está voltado para o cuidado do bem público. O estado neoliberal não está voltado para o público. Parte da direita está no projeto de construí-lo no Brasil desde o tempo de Collor. A divisão da direita atual se baseia no fato de que há um setor conservador, que agora segue Bolsonaro em sua radicalização, que prefere o não estado, ou seja, o anarcocapitalismo, e não mais só o neoliberalismo.

Qual a diferença? Ora, o neoliberalismo é a doutrina do estado mínimo. O estado se retira da sua função empresarial, mas, após isso, se retira também da sua função de cuidado com a coisa pública. As empresas entram em todos os lugares e prometem suprir o que seria a deficiência do estado. Por sua vez, o anarcocapitalismo é a doutrina da sociedade sem estado, mas ainda capitalista, gerenciada pelos destinos dados pelo capitalismo financeiro. Nesse caso, a sociedade deve gerenciar-se por suas entidades. No Brasil atual, na ordem do caos em dose homeopáticas que Bolsonaro administra, trata-se de uma sociedade regrada por milícias, igrejas evangélicas e famílias ricas armadas. O fascismo entra então como atitude individual, sem precisar de partido fascista e sem realizar o estado totalitário – essa diferença raramente é compreendida pelos intelectuais brasileiros que analisam o momento atual do governo Bolsonaro.

Tanto o anarcocapitalismo quanto o neoliberalismo têm origens intelectuais válidas e sérias. A doutrina do estado mínimo foi elaborada principalmente por Hayek. A doutrina do anarcocapitalismo foi desenhada por Robert Nozick. As versões postas no Brasil de ambas, ligadas aos escritos de Mises, são caricaturas. O Instituto Mises e correlatos são produtores de pastiches dessas formulações. Os que estão nessas entidades nada conhecem de Hayek ou Nozick e muito menos do Marx que criticam. Alimentam textos de pseudo-intelectuais que, sem citá-los, trabalham nesse pastiche: Pondé, Karnal e Olavo são as pontas de lança, na imprensa, desse lixo. A doutrina da seleção natural, de cunho nazista, permeia tudo isso, e é incentivada abertamente por Pondé e Olavo. Já Karnal, com a promoção da alienação da “busca do eu interior”, rema a favor dessa maré, mesmo que queira afirmar que não.

A sociedade delineada pelo pastiche do “Mais Mises, menos Marx”, ou do terraplanismo do Olavo, ou da luta contra qualquer pensamento de melhoria humana de Pondé, nada é senão uma aglomeração de gente que pode ser representada por três exemplos: o Morro do Rio de Janeiro, a Colômbia de Pablo Escobar e o faroeste americano. Uma espécie do que nos passado chamávamos de “darwinismo social”. Bolsonaro ama a imagem dos dois últimos e foi gerado por votos da milícia e das igrejas evangélicas que habitam o primeiro. Ele gosta da democracia. Nela ele vence sempre. O que ele não gosta é da república. Ele solapa instituições republicanas de modo a poder ter uma democracia que corra a seu favor. Uma democracia sem espírito republicano, com estado fraco, é aquela que sustenta uma sociedade onde todos podem ter celular, sem quem tenham saneamento básico. O chamado populismo de direita, na América Latina, tem nesse “criação” de Bolsonaro um exemplo de novidade.

Paulo Ghiraldelli, 62, filósofo. Autor (entre outros) de A filosofia explica Bolsonaro (Editora Leya).

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Marcos
Marcos
24 dias atrás

Bozo a novidade nociva.