Judith Butler escreveu sobre a atual pandemia:

“Quais são as consequências dessa pandemia no que diz respeito à reflexão sobre igualdade, interdependência global e nossas obrigações uns com os outros? O vírus não discrimina. Poderíamos dizer que ele nos trata com igualdade, nos colocando igualmente diante do risco de adoecer, perder alguém próximo e de viver em um mundo marcado por uma ameaça iminente. Por conta da forma pela qual ele se move e ataca, o vírus demonstra que a comunidade humana é igualmente precária”. (Sopa de Wurran).

Será? Qual a verdade de atribuir ao covid-19 essa faceta democrático-liberal, de um agente que, como Deus, não descrimina? Uma verdade que se esvai diante das estatísticas e mesmo do senso comum. O vírus só finge que pode atingir qualquer um aleatoriamente. Depois de certo tempo de atuação, com os resultados apresentados, fica claro que são os pobres e minorias vulneráveis as preferências do covid-19. Cai por terra sua carinha de democrata! Ele mata alguns ricos, fere outros, mas sua preferência é mesmo pelo pulmão dos menos afortunados, pelos mais velhos pobres, pelos pretos de todas as idades, pelas populações marginalizadas.

O vírus vem da polis e volta para a polis. Não existe vírus puramente biológico. A época do biopoder (Foucault), que é a nossa, cria a vida como vida nua (Agamben), vida puramente biológica, e ao mesmo tempo gera o vírus que nada tem a ver com a biologia, o vírus que adota comportamento humano, social, classista! Se não entendemos essa inversão não entendemos nada: do homem que vira coisa ao virar só corpo como vida nua e do vírus que, com o seu corpo que, às vezes, nem foi considerado ser vivo, se torna humano e aristocrático. As antropotécnicas (Sloterdijk) vindas dessa nossa solução irão nos salvar? Não sabemos! Nós já estamos construindo algumas: o uso da máscara como que usa óculos.

No Brasil, no entanto, o vírus não é só um não democrata. Ele também tem outra faceta: ele compactua com as milícias. Quando a população mais pobre do Rio de Janeiro se escondeu em casa, para evitar a doença, a milícia saiu às ruas para obrigá-la a voltar ao trabalho. Quando a ajuda emergencial de míseros 600 reais caiu nas mãos o pobre, o pastor tomou tudo. No mesmo tempo, o presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, derrubou as leis que dificultavam acesso a armas. A milícia se refestelou. O covid-19 agradeceu. Em uma narrativa fantástica poderíamos até dizer que Bolsonaro foi infectado, está imune, e então (como Stan Lee gostaria de inventar), estaria pensado a partir das diretrizes dos desejos do vírus. Afinal, é ele quem quebra com as regras de isolamento e incentiva seus asseclas neonazistas a realizarem carreatas contra o isolamento.

Em 2014 Barack Obama avisou o mundo que novas epidemias surgiriam segundo num novo ritmo. Que o Ebola e o H1N1 seriam pouca coisa diante de uma pandemia. Sim, o novo vírus traria pandemia, falou Obama, pois ele estava ciente do grau de globalização que vivemos. Tudo chega rápido em qualquer lugar. E o capitalismo continua produzindo desigualdades que poderiam, muito bem, gerar alguma coisa vinda de uma feira de Wurran perdida no fim do mundo. Obama pediu ao mundo que se organizasse para enfrentar uma pandemia com novas características. Mas o mundo não olha muito para estadistas. Não nos organizamos!

Às pressas, agora, achamos que nós iremos destruir nossas democracias para tomar os cuidados contra o vírus. Não percebemos que, na verdade, a agente não democrático, mesmo, na sua intenção, é o próprio vírus. Perto dele nós é que somos os democratas.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo. Autor (entre outros) de A filosofia explica Bolsonaro (Editora Leya)

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