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17/12/2018

“Papai quer papar a filha safadinha” – é isso a causa do mal?


[Artigo para o público em geral]

Amara Moira tem 33 anos, é transexual e ativista da causa LGBT e dos direitos das prostitutas. Já trabalhou com a venda de seu corpo para ato sexual. É doutora em teoria literária e escreveu  E Se Eu Fosse Puta (Hoo Editora). Não há dúvida que Moira está correta ao dizer que “prostituição infantil” é uma péssima expressão. Um coisa é a prostituta, a pessoa maior de idade que é “profissional do sexo” – uma atividade legal que está na Classificação Brasileira de Ocupações -, outra coisa é o menor, em geral pobre, que é vítima de exploração sexual em becos e principalmente estradas.

Todavia, há uma série de pensamentos de Moira que só ampliam a confusão que ela quer desfazer.  A Folha de S. Paulo diz que ela, Moira, acredita que “a exploração sexual infantil é alimentada por uma cultura que cria desejo e demanda por corpos de crianças e adolescentes”.  O mesmo jornal põe na boca de Moira que “é importante refletir sobre o machismo e seu papel em criar esses sujeitos que sentem desejo por crianças e adolescentes.” E retira da própria Moira a frase: ‘São discursos para justificar abuso, assédio, investidas contra aquele corpo.’ A Folha resume o pensamento da autora: “somado a isso, vivemos em uma sociedade que idealiza o corpo jovem, leva mulheres adultas a buscar uma eterna aparência juvenil, considera natural homens se relacionarem com parceiras muito mais jovens, enquanto o relacionamento da mulher com um homem mais novo ainda é tabu.” (Folha, 24/05/2018).

Moira é vítima do que eu chamo de antropologia apressada. Há uma série de frases que se tornaram comuns entre ativistas, que reproduzem a cultura não raro superficial sobre sexo, mulheres, minorias, gênero e infância. Uma dessas superficialidades está aí estampada, a ideia de que temos violência por conta da juvenilização obrigatória da mulher. Ora, basta que a Moira abra a Internet e fique mais atenta para ela perceber que, além dos quadrinhos onde há comics que falam “papai quer a filha safadinha”, os homens e mulheres se dividem em mil tipos, e não só “novinhas”, para oferecerem serviços sexuais, virtuais ou com programa a domicílio. Um site que oferece fotos de “vovós” é até mais caro que um site que oferece “teens”. Aliás, têm mais assinantes! E o mesmo se dá entre os que, de pouca sofisticação cerebral, querem realmente tornar real suas fantasias eróticas, e contratam tais serviços.

Moira está acriticamente dominada por frases ideológicas, às vezes toscas. A Folha diz que “Moira atenta para detalhes do cotidiano, geralmente despercebidos, que alimentam essa cultura, como falar para uma menina de dez anos que ela está com um corpão e dará trabalho ao pai. ‘São discursos para justificar abuso, assédio, investidas contra aquele corpo’.”. Meu Deus, isso já beira a paranoia! Moira precisa tomar cuidado para do tosco não cair na mania de perseguição.

Encontrar problema em frase que diz que a filha está com um “corpão” e que vai dar trabalho ao pai é, logicamente, o contrário do que  a Moira está querendo encontrar. Ela se desmente e não percebe! Falta de lógica no Ensino Médio, não? Veja: quem olha para uma adolescente e diz que ela está com um “corpão” e que “vai dar trabalho” para o pai não está dizendo que quer essa mocinha, mas, ao contrário, que quando ela virar mulher, aí sim, será desejada e irá, perante um pai ciumento e conservador, oferecer preocupação. Moira põe a frase como algo do futuro, e ela própria não percebe isso. Ou seja, quem observa o “corpão” está afirmando o contrário  do que ela conclui: a mocinha olhada irá realmente “dar trabalho”, ou seja, será cobiçada e abordada quando virar mulher. É isso que a frase está dizendo. É um perigo esse tipo de raciocínio de Moira, que nota errado frases que ela própria escolhe. Sua antropologia urbana barata acaba por criminalizar uma frase comum que, no seu centro, está respeitando a moça que é objeto da frase.

Além desse descuido lógico significativo, pode-se ver no discurso de Moira a questão de invocar uma relação de causa e efeito em relações que não são causais. Dizer que uma sociedade que incentiva as pessoas a serem jovens está tornando criando tarados por corpos de crianças e adolescentes é simplesmente não entender o que são relações causais. Primeiro: nossa sociedade é uma sociedade da leveza (nós, os humanos, somos antropologicamente frutos da leveza – daí a neotenia – e isso eu explico bem no meu Para ler Sloterdijk, Via Vérita, 2017), e quanto mais tempo livre tivermos e mais abundância tivermos, mais iremos ampliar nossa noção de infância e juventude, e mais nós todos, adultos, iremos também, mesmo fora desses parâmetros já ampliados, querer ficar dentro desses parâmetros. A ideia de saúde eterna e vida plena é uma tendência da leveza que não implica na criação de uma idealização da mulher jovem com sendo a única e principal mulher a ser desejada. Aliás, em geral temos o contrário. Percebe-se isso na moda das mulheres mais velhas de não pintarem mais o cabelo, deixando-os brancos, ou então pintarem de brancos para preservá-los e ficar com uma aparência “própria da idade”. Há toda uma indústria em nossa sociedade atual que incentiva a vida sexual após os cinquenta e sessenta anos – e isso no sentido de tornar a mulher mais bonita, não necessariamente com rosto da boneca de 13 anos. Só uma pessoa que não acompanha o marketing não notou isso ainda.

As questões sobre a estética atraente – ou aparentemente mais atraente – em uma sociedade é um tema complexo. Platão adorava o cheiro dos efebos, dos garotos que ainda não tinham o “cheiro de homem”. Os gregos tiveram a pederastia como instituição de guerra, social e pedagógica para lidar com a entrada na adolescência. Um homem mais velho tinha, nessa cultura, a obrigação moral de fazer encômios aos mais jovens que, por sua vez, deveriam saber se conter, desprezar os pretendentes e, enfim, só aceitar os que realmente se preocupassem com eles – os aceitos pela família do jovem. Essa sociedade não era “machista”, essa sociedade era masculinista. Mas, ainda que exista diferença entre machismo e masculinismo, o fato é que nenhum “macho” queria uma mulher jovem, mas sim um moço, pré-púbere de preferência.

Na nossa sociedade, por exemplo, ontem e mais ainda hoje, temos a figura sexy da “cougar”. A ideia do jovem poder seduzir uma mulher mais velha ainda continua no imaginário social. Tanto quanto a aluna do cursinho pensa no professor como seu crush. A ideia de que o sexo é, também, uma experiência com o “diferente”, é uma ideia presente no Ocidente e nada tem a ver com machismo. Aliás, passa bem longe de qualquer incentivo à violência.

A violência é atraída, em geral, pelos chamados bodes expiatórios – no sentido original dessa palavra. Os indefesos que não podem se vingar da violência atraem a violência contra eles. No imaginário dessa situação há a ideia de que essa violência contra o fraco e isolado será a última violência e que, enfim, depois dela, o desejo de violência irá cessar. Não haverá requisição de mais violência, pois não haverá a vingança. Assim, há a expiação de todo mal até então cometido. Se entendemos essa psicologia social bíblica podemos compreender de modo melhor a violência contra o menor, a menina e o menino indefesos. Esse tipo de antropologia é melhor do que as frases catadas por aí por movimentos de minorias (veja meu artigo aqui no blog sobre o bode expiatório).

As tramas sociais são complexas demais, e Moira não as entende, porque tais tramas vão além do discurso militante. Enquanto os movimentos militantes não puderem conter esse desejo de pegar a primeira explicação pseudo-teórica que encontram, de modo fácil, eles sempre vão dar margem não para críticas como as minhas, de quem está ao lado deles, mas vão favorecer o descrédito de outros, que percebem suas fraquezas teóricas e as utilizam para tirar sua legitimidade social.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

 

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5 Responses ““Papai quer papar a filha safadinha” – é isso a causa do mal?”

  1. LMC
    25/05/2018 at 12:48

    Pior é ver os reaças por aí
    chamando a Moira de
    “bicha velha comuna”.Rarará!!!!
    Não tem preço!!!!

    • 25/05/2018 at 13:39

      Tudo é motivo para você falar de política!

  2. Matheus
    25/05/2018 at 10:36

    Será que moira de fato pensou todas essas baboseiras, ou foi só a folha que pos tudo na boca dela??

    • 25/05/2018 at 10:40

      Pelas aspas e pelo que li em outros lugares, ela própria, é isso mesmo.

  3. lucas
    24/05/2018 at 19:02

    Paulo, entendo sua crítica e sua pegada antropológica. Conheço a Amara Moira e sua bibliografia é um lixo teórico.

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