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20/11/2018

Entrevista sobre abuso sexual


PERGUNTAS DE UMA JOVEM ALUNA DE FILOSOFIA

Raquel Jacob pergunta: Boa tarde, eu sou estudante do 10º ano, é o meu primeiro ano a estudar Filosofia e estou a fazer um trabalho sobre os Abusos sexuais, estive a ver alguns artigos seus e pareceram-me bastante bons então eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas… espero que me possa responder a todas elas, seria importantíssimo para o meu trabalho!

Como você caracteriza os abusos sexuais nos diferentes lugares no mundo?

——A variação é enorme. A palavra “estupro” é usada para “sexo sem consentimento” de uma maneira em um lugar que, em outro, seria piada. Mas o Ocidente vai caminhar para uma proteção da mulher em geral, e isso é bom. O tom será dado pelos Estados Unidos, mesmo que os europeus, tão cultos quanto, resistam mais. As mulheres europeias tendem a ver em denúncia de abusos sexuais por americanas, em especial atrizes, como mero “denuncismo”. Mas, na verdade, as coisas não são tão simples assim. Os números de mulheres abusadas é muito assustador no mundo todo. Uma coisa é certa: o abuso de pessoas mais próximas é sempre a estatística mais forte. É de quem não se tem medo que o abuso ocorre. O abuso do “estranho na rua” não é o perigo maior. //Agora, veja como estamos em uma época de encontros de cultura, de divergências por conta de alteração rápida de sensibilidade. Veja o caso: as russas lutaram para considerar violência doméstica algo criminalizável. Conseguiram. Mas agora o parlamento, inclusive com voto de mulheres, seguiram o aval de Putin para tornar a violência doméstica algo criminalizável só após alguma repetição. Há protestos na Rússia sobre isso. Mas Putin é presidente novamente. E com ele, esse tipo de lei, que parecia absurda, está vigente. Há quem diga, até, que os russos bebem muito, que a violência doméstica é fruto da bebida, e que a lei atual é saudável porque faz com que as “briguinhas” não sejam motivo de se buscar a polícia. Veja só que a lei nova chega a dizer que é preciso que a mulher apresente marcas da agressão – marcas “para valer”, para que algo seja feito pela polícia. Uma lei assim, no Brasil, seria inconcebível, ainda que no Brasil muitos homens que acham essa lei absurda agridam suas esposas.

O que você tem a dizer sobre as leis e penas aplicadas a cada caso de abuso sexual?

——- Há um pedido estúpido por parte da direita: castração química ou coisa parecida. Bobagem. Pênis e estupro não se relacionam como no imaginário dessa gente. A questão toda do abuso sexual é que ele precisa ter graus e ser respaldado por juízes que façam uma jurisprudência com graus. Um ponto interessante é sempre notar que a mulher que diz “não” diz “não”, e é preciso notar isso. A conversa de que a mulher que diz “não” está dizendo “sim” é perfeitamente inteligível, não dá para ser confundida ou tomada como galanteio etc. A linguagem corporal ensina homens e mulheres a darem recados, a vida social conjunta deve ensinar esses recados. Num confronto de culturas, isso é complicado. Mas numa cultura globalizada, é possível de pedir que todos se informem sobre linguagem corporal e saibam o que um “não” e o que é um jogo de sedução. Ou aprendemos a ser inteligentes, como rapazes, ou padecemos.

Você considera a prática de abusos sexuais em crianças mais grave do que nos adolescentes?

——- Cada caso é um caso. Qualquer tentativa de ligar abuso sexual com idade cronológica e daí tirar alguma lei, não vai funcionar. É claro que a ideia de “indefeso” ou de “exposto” etc. é uma ajuda para a lei. Mas a avaliação dos traumas não se deixa apreender assim tão fácil. Há pessoas que passam por sofrimentos atrozes, e os superam. Há pessoas que recebem uma “passada de mão” na adolescência e se sentem invadidas em um grau extremo, para toda a vida.

Você considera que os abusos sexuais é um dos maiores problemas na sociedade e na saúde?

——-Dito assim, tudo se complica. O abuso sexual tem a ver com uma cultura de satisfação de poder. Quanto mais a sociedade nos torna impotentes, mais queremos encontrar alguém mais fraco para nos fazer mandantes. A mulher, a criança, os animais, os mais pobres e indefesos são os que escolhemos para, dentro da nossa impotência, exercermos um pouco de mando. A fronteira entre o amor e o mandonismo é fina, tênue. Se pudermos ter uma sociedade em que nossa satisfação da vontade, nossa necessidade de exercer poder, não seja canalizada para a violação dos mais fracos, veremos os abusos diminuírem. Isso se chama civilização. Vem não só com mudanças culturais empurradas pela educação formal, mas também por leis, pela legislação. Mudanças de sensibilidade demoram para vingar, mas, hoje em dia, ocorrem mais depressa. Vejam o quanto o feminismo não fez dos anos 50 até agora! Mudou muita coisa. Mesmo nos anos 80, duas décadas depois de Maio de 68, ninguém pediria como trabalho de filosofia uma entrevista como esta. Agora, isso é comum. A sensibilidade para com os mais fracos cresceu muito e a reação da direita, dizendo que tudo é “mimimi” também se tornou mais evidente. Mas a própria direita é, ela mesma, “vitimista”. Ela chora por não poder ser violenta! Ela até chora por nós considerarmos tortura um crime. Ela se diz vítima de nossas leis que protegem os fracos.

Quantos tipos de abusos sexuais e quais você considera que existem?

—–O melhor nesse caso, quando se trata de jovens e adultos, é seguir a regra do “não”. Agora, sabemos que muitas pessoas não dizem “não”, e mais tarde percebem que o silêncio as fez abusadas, e que isso teve um custo nas suas vidas. Nesse caso, é o poder público vigilante que tem de ter mecanismos para não ser negligente. Até bem pouco tempo uma mulher entrava numa delegacia, no Brasil, mesmo que fosse a “Delegacia da Mulher”, para reclamar de abuso e, enfim, era desconsiderada pela autoridade presente (delegado ou delegada), caso ela fosse “insinuante”, ou seja, “tivesse com roupas curtas” etc. Hoje, se um delegado age dessa maneira, a mulher pode procurar outras instâncias e criar um bom inferno na vida dessa autoridade. Veja: se um garoto coloca um celular nos seus pés para filmar a sua calcinha no ônibus, isso pode lhe dar um sensação ruim, de se tornar indefesa, exposta etc. Não cabe a mim dizer que sua amiga, que foi encostada na parede por um cara, que baixou as calcinhas dela, sofreu uma violência maior que a sua. Cabe à vítima dizer “eu fui vítima”. As vítimas têm poder legítimo de classificar o que sentiram em seus abusos. Entende? A sociedade precisa ter leis que favoreçam que as vítimas possam reclamar do que se acham vítimas. Não estou dizendo que basta gritar “sou vítima” e todos viram agressores. Estou dizendo que a sociedade precisa ter um aparato de legislação que permita que a vítima diga “sou vítima, e quero dizer que para mim ter a calcinha filmada doeu”; e que então, sua amiga, possa dizer, sem ser classificada de mais dramática, que ela sim “foi vítima porque foi encostada na parede”. Entende?

Como você responde à pergunta: “É considerado crime se for praticado o assédio sexual de adulto para adulto?”

—–O abuso sexual é contra menor. Quando falamos de “assédio”, aí subentende-se que se trata de uma relação entre adultos. Ora, se uma sociedade resolve criminalizar tal situação, que assim seja. Toda sociedade democrática que avança para leis que impedem que as pessoas que dizem “não” para qualquer coisa sejam respeitadas vai precisar determinar muito bem o que é o “não”. “Não quero que toque em mim” é diferente de “Não quero que me fotografe”, mas em ambos os casos, cabe conversa, cabe pedir. Posso dizer “posso tocá-la para tirar um gafanhoto do seu cabelo?”. Posso dizer: “posso tirar uma foto sua?” Não creio que o abusador vá dizer: “posso tocá-la um pouco nos seios, só um minutinho, dado que estou com um desejo enorme de submeter você ao constrangimento?”

Respostas do filósofo Paulo Ghiraldelli Jr.

Raquel Jacob: raqueljacob2013@gmail.com Facebook: https://m.facebook.com/raquel.jacob15

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3 Responses “Entrevista sobre abuso sexual”

  1. Hilquias Honório
    14/05/2018 at 21:56

    Ah sim, eu devorei cada um dos textos a respeito.

  2. Hilquias Honório
    14/05/2018 at 02:41

    Cada resposta me ajudou a entender mais ainda o tema! Essa questão toda do abuso, da discordância entre americanas e européias, me fez compreender aquilo que a Filosofia mais deve causar: provocações.

    • 14/05/2018 at 08:19

      Honório, eu havia escrito sobre isso, dá uma procurada no blog

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