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21/10/2018

Do imposto sobre seios ao topless. Questão sobre a violência


[Artigo para o público em geral]

Que tal decepar os seios? Nada há de mais horrível para a maior parte das mulheres que a deformidade dos seios ou sua mutilação.

Na Índia do século XIX, sob domínio britânico, uma garota de seios lindos e grandes, resolveu cobri-los. Mas, para tal, tinha de pagar um imposto. Sim! Havia um imposto sobre as castas de baixo, pagas para as de cima, se mulheres (e homens) quisessem cobrir o tórax. Nangeli escutou o bater na porta, abriu e viu lá o cobrador, ele havia chegado para pegar Mulakkaram (“tax breast”). O valor era fixado de acordo com o tamanho dos seios, mas, desta vez, o homem teve de medi-los já fora do corpo. Nangeli os cortou e os entregou para o cobrador. Pagou não só com mutilação, mas com a vida.

Os seios desnudos nada tinham a ver com questões de moral sexual. Tinha a ver com distinções, necessariamente visíveis, entre os das castas altas e os das castas baixas. Se posso cobrir meu tórax, fico parecido com os “de cima”. Mas então, os de cima logo percebem que podem regular uma tal farsa, pondo no meio disso o dinheiro. Todas as classes sociais altas vendem um degrau da escada que vai até elas para as classes que estão abaixo. Criam logo um tipo de “classe média”. O tax breast nunca foi outra coisa senão isso.

Muitas vezes, lembro dos Sixties no Ocidente, com as moças queimando sutiãs. Também lembro do que se seguiu na década seguinte, com a febre do topless nas praias. As mulheres queriam, ao contrário de Nangeli, ter o direito de descobrir os seios. Mas nenhuma delas queria andar o dia todo de top less ou ficar sempre sem sutiã – afinal, logo se verificou que a saída do sutiã permitia a entrada da maldita gravidade.

Por conta dos seios pertencerem, de modo direto ou tangencial, ao campo erótico, e por conta de nossa sociedade moderna elevar o erotismo a um problema teórico, não é difícil ver sociólogos, psicólogos e jornalistas envolvidos com uma ideia cara a certos tipos de feminismo: cobrir ou descobrir os seios tem a ver com a liberdade sexual da mulher, enfim, com a liberdade da mulher. Cobrir ou descobrir seios é, então, alguma coisa que tem na sua oposição, o tal “machismo”.

“Machismo” é aquela palavra que explica tudo e, por isso, não explica nada. Explica tudo para as feministas e, por isso mesmo, nada explicar para outros.

Se não quero pagar para vestir meus seios ou se não quero leis que me impeçam de tirar a parte de cima do biquini na praia, não estou envolvida, como mulher, em alguma coisa que tem como meu contrário o “machismo”, o desejo do homem de tornar a mulher não um objeto, mas um “mero objeto”. Há algo mais amplo nisso tudo. Há aí uma luta para escapar da condição feminina enquanto condição de frágil e, portanto, de alvo da violência. O fraco atrai a violência – é assim que a antropologia explica o “bode expiatório” como elemento comum de todas as culturas humanas. Quando a mulher corta o seios e os entrega ao cobrador ela está simplesmente dizendo: veja como sou mais forte que você, e você jamais vai me pegar novamente com a tal cobrança. Quando a mulher reclama por sol no peito, em uma praia, ela está dizendo para o guarda próximo: eu não me intimido, não sou mais uma menininha que quer esconder do coleguinha minhas protuberâncias. Nos dois casos, é uma auto-afirmação, na tentativa de dizer: não venha me escolher como bode expiatório para o próximo ritual, pois eu não vou posar de “cordeiro”.

Essas posturas da mulher são uma reação anti-vitimista. Mas são posturas que precisam, logo em seguida, do apoio da lei. Ou seja, a lei precisa mudar. Se a mulher continua posando de forte sem a lei lhe dar condições de ser forte, ela posa de pseudo-forte, e aí a violência se volta contra ela em dose dupla. Tudo é assim no mundo do cachorro, da criança, do membro da população LGBT e dos pobres. Eles são os vulneráveis e, por isso, atraem a violência. Mas se posam de fortes sem sê-lo, atraem ainda mais.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Gravura: photograph by Sunil Janah, via The Wire. Link do site: http://www.rejectedprincesses.com/blog/modern-worthies/nangeli

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