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20/11/2017

Escreva no quadro cem vezes: “eu matei meu coleguinha de modo errado”


Um casal de policiais, que deveria ter sido treinado para não deixar as armas à disposição de crianças, se descuida. A arma da mãe do menino, causa de todo o estrago, deveria ou estar no coldre com ela ou, então, num cofre, não numa gaveta. O menino, uma vez amargurado pelos colegas que o chamavam de “fedorento”, conseguiu a arma e, estranhamente, não só a montou como a carregou – dando mostras de que o aprendizado caseiro foi eficaz – para depois descarregá-la em sala de aula. Matou dois coleguinhas. Feriu outros. Colegas desarmados o fizeram parar. Não foi necessário polícia e muito menos outros homens armados para contê-lo. Depois, um profissional da escola, com força moral, segurou o menino até a polícia chegar. Junto da polícia, chegaram procuradores e advogados, que a partir dos princípios de Direitos Humanos se preocuparam com a idoneidade física do garoto. A juíza que cuidou do caso, em menos de 48 horas decretou que o garoto não deveria ir para qualquer casa de detenção, mesmo que, claro, apropriada para a idade, mas para lugar especial de internação. Ela foi decidida: Todo cuidado é  pouco para que o garoto “não sofra de represálias”, já que é filho de militares.

De tudo isso, deveríamos esperar que o pai do garoto morto (o alvo principal) viesse a dizer algo contra o armamento de pessoas. Mas não! Evangélico, o pai veio a público para fazer apologia das armas, mesmo diante de tão horrenda situação. “A arma realmente deve estar nas casas, as pessoas precisam se defender” – disse o homem, com visível rosto de quem não sabe que o Sol é uma estrela. Esse tipo de gente, sabemos, não consegue aprender por lição nenhuma. São impermeáveis a qualquer raciocínio. Louvam apenas a doutrina que as fez serem o que são. Monteiro Lobato via nessa gente o atraso real do Brasil.

Por outro lado, o silêncio dos conservadores foi sepulcral. Sempre muito loquazes em época de chacina, nessa hora sumiram. Na medida em que os encarregados de levantar a bandeira dos Direitos Humanos, na figura de juízes, procuradoria e advogados, logo apareceram para legitimamente defender o menino atirador, não apareceu desta vez ninguém para dizer: “criança criminosa tem que ser punida, como no país X, e temos que indenizar as vítimas”. Não! Nada disso. Silêncio total. O neofascismo fugiu para debaixo da cama.

Também aquele que vez um filme recentemente, dizendo que o correto é mesmo fazer bullying na escola, principalmente chamando colegas de “fedorentos”, desapareceu. Medo, covardia ou simplesmente mau caratismo? Tenho que apostar nessa última hipótese, afinal esse rapaz não gostava da Lei Rouanet até ela financiar esse seu lixo. Um lixo que, por ironia do destino, veio calhar no momento.

E os outros justiceiros? Os que vivem querendo pendurar qualquer um aí em poste? Por que desta vez concordaram rapidinho com a internação do garoto? Nesse caso, também ele veio a ficar doente? Mas isso não é o “vitimismo”? Ou, pela primeira vez, a direita que ainda quer se parecer liberal começou a entender a função dos Direitos Humanos? Ledo engano. A direita vai se calar agora, mas quando o atirador for um filho de negro, favelado, cujo pai não é policial ou rico, esses garotos repetentes aparecerão novamente por aí com a lenga-lenga daqueles que pedem “intervenção militar”, pedem armamento da população e, por fim, espumam de raiva diante da palavra “democracia” ou da lembrança de que a religião de Jesus é a do amor, não da punição indiscriminada. Essa gente, os que julgam todos escondidos na impotência da Internet, desta vez tratarão de ficar escondidos por aí, preocupados demais com “ideologia de gênero”, pois esta, junto com a Rede Globo, está acabando com a família tradicional, né? A tal família tradicional não pode acabar, ela precisa, sim, se armar, para destruir outras famílias num bang bang escolar. É isso?

Pela regra dos armamentistas, o certo seria cada aluno na sala de aula também ter o seu revólver, para a segurança, e então revidariam os tiros do filho dos policiais militares. Desse modo, todos se defenderiam, não? Não é isso? Não é essa a lógica dos armamentistas? Ou ao menos o guarda de trânsito ou o diretor da escola deveriam ter arma, não? Assim, rapidamente entrariam em sala de aula, como a SWAT, e atirariam na cabeça do garoto agressor. Não é assim que tudo deveria ser resolvido?

Ah! A arma não faz mal para ninguém, não o revólver! O que mata é o fuzil – agora é moda dizer isso. Principalmente os que defendem “intervenção militar” dizem isso. O que estes ainda não perceberam é que a “intervenção militar” já começou. Afinal, descobriu-se (mais uma vez!) que quem entrega fuzis do Exército para bandidos é sempre alguém do Exército. Esses dias, prenderam um sargento, há anos vinha fazendo isso. Os que defendem a “intervenção militar” não se conformam com a ideia de que a corrupção também, e desde 1964 com mais intensidade, também os militares.

Os armamentistas, os desescolarizados, os anti-arte, os anti-democracia, os anti-direitos humanos, os caçadores de “comunistas” e “pedófilos”, os horrorizados com o pênis e os com medo da vagina – essa gente não vai nunca mudar de ideia. Foram incapazes de se civilizarem na escola. Eram, na escola, aqueles que não puderam sequer atirar, pois quando foram atirar, deixaram a escola por conta de terem sido reprovados. Vociferam até hoje essa mágoa. É a nossa patuleia pronta para cair nas fileiras do neofascismo atual. Uns gritam daqui, outros de fora. A impotência dessa gente se expressa na Internet. Mas, esses dias, no caso de Goiás, estão quietos. Estão com o rabinho entre as pernas.

Por outro lado, a esquerda e os liberais também se aquietarão. Afinal, o que poderão falar em favor dos Direitos Humanos se, desta vez, o garoto que terá ao seu lado as forças legítimas da lei será um filho de policial militar? Nessa hora, percebemos, que por razões transversas a esquerda defende o que a direita defende.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 21/10/2017

Paulo Ghiraldelli é Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

Foto: pessoas velam a escola de Goiás, onde morreram os dois garotos, vítimas do também aluno, filho dos militares.

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2 Responses “Escreva no quadro cem vezes: “eu matei meu coleguinha de modo errado””

  1. Orquidéia
    23/10/2017 at 08:19

    Os radicais de plantão não vão comentar o caso,pois ele não se encaixa em esteorótipos,
    o garoto não é pobre,não é minoria, é filho de polícia [a Direita quer que a polícia mande no Brasil], a tragédia foi acidente [eles só lidam com histórias intencionadas], é jovem demais para poder ser chamado de “opressor”.
    Direita e Esquerda são melhores no perpétuo bate-estaca já conhecido de polêmicas carimbadas,que segundo elas imaginam,irão ajudá-las em seus planos de tomada futura de poder.
    E os militantes pobrinhos da internet [ …tádinhos…] colaboram na toada,ligando só para notícias que rendem fama para suas preferências políticas.

  2. João Paulo Matheus
    22/10/2017 at 20:08

    Há aproximadamente um ano atrás morreu um menino de 10 anos, por policiais. Até hj não há uma explicação se houve reação dele ou não que justificasse a ação policial. Mas, e daí? Era um garoto de 10 anos, com ou sem razão, perdemos uma vida, e de várias formas.
    A população do morumbi aplaudiu o policial msm sem certeza do que ocorreu. Afinal, o delinquente, pobre e não branco deve ter merecido.
    Porém, agora não há revolta contra o filho do militar que assassinou. E a esquerda está preocupada em dizerbin que o Lula, pobrezinho, foi vítima de um golpe.

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