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20/06/2018

Santo Agostinho, o homem que descobriu a dopamina


[Texto para o público em geral]

Não há qualquer sexualização do pecado original na Bíblia. Esse feito narrativo, de ligar o pecado ao sexo, foi de autoria de um único homem: Santo Agostinho. Ele descobriu o que, na sua narrativa, era estar com o falso Deus, a falsa satisfação plena, ou seja, o vício causado pelo êxtase intenso, porém momentâneo – o pecado. Vários êxtases então vieram à sua mente como pecado, em especial, claro, o gozo sexual. Na nossa narrativa atual, sua descoberta se chama dopamina.

A dopamina é uma substância produzida pelo nosso cérebro, e que causa profundo prazer e relaxamento. Ela é acionada por impressões diversas como comida, substâncias químicas, impressões visuais ou outras, sexo, estados prazerosos de aplauso exterior etc. Esse prazer pede para ser repetido pela estrutura cerebral, e para muitas pessoas esse pedido de repetição começa a se fazer em cada vez menos tempo. Tudo que é bom vicia? Quase tudo que é bom no sentido do êxtase-prazer-relaxamento tende a viciar.

Eis aí o mecanismo do inferno de Agostinho, a ausência de Deus: a dopamina.  O êxtase ocorre, ficamos altamente satisfeitos. Mas o efeito passa e queremos mais, precisamos de mais dopamina secretada, e eis que não fazemos mais nada na vida senão repetir os estímulos internos e externos que nos levam a ter mais dopamina disponível. Ao invés da satisfação plena, o fim das necessidades, que é o autêntico encontro com Deus, cultuamos nosso próprio ego como produtor da sensação de poder substituir Deus. Estamos então na desgraçada vida de ausência de Deus. Estamos no vício, na insatisfação, na ansiedade, na degradação moral no sentido de buscar estimulantes e, dessa forma, sem qualquer virtude. É o pecado. Estamos em pecado, ou seja, a falta de paz. Todos nós nascemos com o pecado original, pois todos nós somos dotados da capacidade de produção de dopamina. Não há cura para isso. Não podemos nos desendorfinarmos. Podemos apenas orar ou, o que é o mesmo (dependendo do ponto de vista), tomar remédios, para conviver com isso. Uma vida santa ajuda a Graça? Não sabemos. Agostinho tinha a impressão que não, que a Graça era dada por Deus. Ou seja, algumas pessoas podiam ficar livre da requisição de dopamina em termos de reposição contínua.

Pela narrativa da medicina cerebral e da psiquiatria atuais, ou pela narrativa religiosa agostiniana (oficializada pela Igreja), o que descrevemos é algo que diríamos que se trata do mesmo fenômeno. Donald Davidson diria: monismo ontológico e dualismo epistemológico. Duas narrativas diferentes, ambas válidas segundo seus públicos específicos, para falar de algo que, tudo indica, é a mesma coisa. “Tudo indica” como? Ora, por questões de comparação. Afinal, só temos acesso ao tal “mesmo fenômeno”, inclusive para nomeá-lo como “o mesmo”, ontologicamente falando, por meio das narrativas. Ajustamos narrativas e então dizemos: eis aí o mesmo fenômeno. O pecado pode ser dito, nesses termos, como o nome que uma narrativa dá para aquilo que uma outa narrativa chama de vício devido à requisição continuada de descarga de dopamina.

Uma vez aqui hoje, no mundo atual, Santo Agostinho desaprovaria a nossa narrativa, eu creio. Ele preferiria a dele, para falar de situações de vício.  (Muita gente ainda prefere a dele). Ele falaria em pecado. Mas, também creio, que ele, para uso próprio, iria utilizar de nossos remédios, de nossa química, para combater o pecado. Poderia associar as duas coisas, se tornando um psiquiatra heterodoxo. Afinal, Agostinho era inteligente o suficiente para tal.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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4 Responses “Santo Agostinho, o homem que descobriu a dopamina”

  1. Wagner Santos
    12/06/2018 at 18:05

    Ok Paulo, você tem razão! Mas imagino se a vida monástica pode mesmo ter sido plena na época de Agostinho, ou foi um “pecado” ele ter resistido aos esforços da vida para afirmar a si mesma, do modo como que a vida encontrou os seus meios e do modo como nós nos erguemos ora celebrando ora condenando a carne. Os viciado não dissimula um desespero pelo viver?

    • 12/06/2018 at 20:49

      Só um detalhe: São Paulo condena a carne, não Agostinho. Agostinho vai contra Paulo. Agostinho vê o conflito interno dos homens como um conflito interno da vontade, ou seja, um conflito espiritual. A carne desobediente, para Agostinho, não é problema. Ele cansou de mostrar que os homens conseguem controlar seus corpos. Aliás, seu exemplos sobre isso são hilários.

  2. Wagner Santos
    12/06/2018 at 12:56

    Agostinho teria um filho, estando aqui hoje? Agostinho seria mesmo Agostinho, após a denúncia da morte de Deus?

    • 12/06/2018 at 13:38

      E nós não estamos aqui, às vezes com o pecado original nas mãos, aqui hoje? Deus pode morrer, mas o pecado não, nem o Nirvana, a terra da não necessidade, entende? A questão não e´a sua, mas a das narrativas que podemos ter em convívio, umas aparentemente arcaicas, outras aparentemente atuais.

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