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26/09/2018

Novas roupas e novas patologias


[Artigo para o público em geral]

Mudanças a respeito do que uma sociedade considera doença é como a moda, diz mais de um tempo e de um lugar que referências a governantes, planos econômicos, campanhas anti-corrupção e fatos restritamente políticos. Isso é uma verdade para o macro-historiador. Entender o Ocidente atual é compreender a razão pela qual temos hoje uma vestimenta unisex após o nome “unisex” ter caído em desuso já há mais de três décadas. Saber do Ocidente atual implica em notar que a transexualidade não é mais doença pela OMS, mas que, agora, estamos doentes se deixamos de fazer coisas ditas importantes para ficar jogando vídeo-game. É a OMS novamente quem diz.

Se eu quero mudar meu “sexo” – o que é diferente de trocar de gênero – é alguma coisa esquisita, a ponto de se pensar – pelo saber médico e psiquiátrico – que eu estou com um distúrbio psíquico? Sim, oficialmente, pela OMS, até ontem (18/06/2018). Terminado o dia 18, não estou curado, é decretado que nunca fui doente. E que se esqueça o passado, pois muita desgraça foi feita contra indivíduos por conta dessa ideia da transsexualidade como patologia.

Todavia, agora, se quero faltar no emprego, não tomar um remédio importante e, enfim, até deixar de me alimentar direito para ficar apertando botões de um vídeo game, aí sim sou doente. Claro que se eu fizer isso dentro do Pentágono, num jogo de guerra real, matando gente do outro lado do mundo por meio de drones, aí eu além de não ser doente posso ser chamado de herói. Um herói mais que sadio.

Se quero hoje, no Brasil, ir para a escola usando saia, sendo eu menino, sou tomado como perfeitamente normal. “Rebelde” para uns, ainda “bichinha” para outros, em menor número, mas normal. Mas se quero colocar essa saia para ir ao meu trabalho, imediatamente sou considerado mais que excêntrico, talvez anormal. “O que esse louco está fazendo aqui de saia?” A escola é interpretada agora como uma espécie de praia, e também o reino da adolescência – onde tudo pode (ou podia, já que praia, agora, não permite mais top less!). Já os locais de trabalho, mesmo para as pessoas que são adolescentes, não podem permitir a saia para menino. Não está na moda! Para que o menino possa usar saia, e entrar na moda, em qualquer lugar, como faz quando na escola, ele tem de fazer uma operação de sexo, virar sexualmente menina, e então irá de saia também no trabalho. É confuso, não é?

Moda e patologia mostram que nossa sociedade não está flexibilizando regras por diminuí-las, mas por ampliá-las. Há mais leveza no ar? Sim! Mas não sem introduzir novos pesos, em um outro patamar do jogo ontológico de gravidade. Ficamos desonerados se cortamos o pipi, por exemplo, e isso em vários sentidos. Mas nos oneramos em outro, se, mesmo com o pipi cortado, ficarmos muito tempo no vídeo-gama, ou então, sem o pipi cortado, quisermos assumir a gerência de uma agência do Banco do Brasil com uma mini saia sexy. Nesse caso, tão onerados ficamos que isso nem ocorrerá. Se insistirmos com a organização do Banco de que assim fazendo conseguiremos mais clientes – depilando ou não as pernas -., isso não terá peso algum na racionalidade lucrativa do Banco. O capitalismo não pensa em si mesmo como seus críticos afirmam.

Se não pudermos rir dessas regras que tiramos e introduzimos em nossa sociedade, então, de fato não estamos entendendo nada de nós mesmos. É  notável, também, que essas alterações de regras, que mostram um relativismo cada vez maior escancarado, por outro lado gere em nossas narrativas de defesa de tais regras (ou contra elas), dizeres sempre mais auto-postulados como absolutos.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.

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