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23/11/2017

Será que lá há vida inteligente?


Será que lá há vida inteligente?

O homem pisou na Lua.  1969. Eu estava colado no televisor vendo tudo. Abria-se uma nova era e nós, crianças da classe média brasileira, fazíamos mais ou menos o que as crianças americanas faziam, brincávamos de astronautas. Queríamos ser astronautas. Afinal, era a única profissão que conciliava três elementos importantes para a nossa época: sermos engenheiros ou médicos como nossos pais queriam, sermos aventureiros como nós queríamos e sermos atualizados como a nossa época exigia. Estávamos todos prontos para encontrar a vida extraterrestre.

Mas nem só de astros vivíamos nós. Havia os deuses, e eles viviam muito menos no Céu e bem mais nada Terra do que os astronautas e também nossas cabeças. O padre na missa dizia: “o homem conquistou o espaço e encontrou o que? Nada! Cada vez mais se prova que estamos sozinhos no universo”. Aquilo soava como uma bobagem imensa para mim. O padre era apenas um tonto, por mais latim que soubesse – eu imaginava. Mais dia menos dia – pensava eu com meus botões ali na missa – toparíamos com os ETs e esfregaríamos fotos deles no focinho do padre, como já havíamos feito com tantas outras coisas que a raça dele tinha negado.

Todavia, as viagens espaciais se tornaram corriqueiras e foram perdendo o interesse. Por outro lado, nós, as crianças-astronautas, íamos crescendo e as profissões começavam a nos parecer todas muito chatas, uma vez que não havia nenhuma que não exigisse a terrível rotina. Ora, rotina por rotina já tínhamos uma horrorosa, a de levantar cedo para ir à escola. Quando passei do ginásio para o colégio a ideia de estar no espaço já tinha se perdido a ponto de eu não saber que um dia havia pensado em tal tolice. Meninas e basquetebol me pareciam então a única coisa que realmente valia a pena. Mas a bobagem dita pelo padre eu não tinha esquecido. E durante toda a vida, mesmo que em determinados anos com pouca frequência, nunca deixei de ler as notícias sobre “conquistas espaciais” e, de certo modo, gostar de ficção científica.

As pesquisas sobre ETs sempre fascinaram os cientistas por razões que nunca tiveram a ver com a ciência. Eles pesquisaram o cosmos por interesses filosóficos. Encontrar outras formas de vida ou ver o espaço de lugares mais promissores para se entender o próprio universo era antes de tudo uma maneira de responder perguntas sobre nós mesmos: o que éramos nós, os tais humanos? O padreco bobo dizia, como todo humanista clerical, que nada havia de inteligente senão o homem. Éramos o segundo na escala: havia Deus e, depois, nós, feitos à semelhança do Criador. Fora isso, não poderia existir mais ninguém horizontalmente colocado ou, pior ainda, acima de nós, entre nós e Deus. Ora, não podíamos dar bola para uma ideia tola como essa. E então, eu mesmo, filósofo, ainda que não mais tão entusiasmado com a Nasa, ainda assim mantive durante muito tempo uma ideia dualística contrária a do padre, mas muito infantil: de um lado está o padre tolo, de outro estão os cientistas, agora sem tantos recursos como no tempo da Corrida Espacial – estão dizendo coisas diferentes e incomunicáveis.  Para quebrar essa dualidade tola veio para a minha casa o Pitoko.

O Pitoko é meu filho não humano. Ele é um cão. Um Golden. Sua vida comigo e com a Fran, como membro da família e centro das atenções foi seguindo e seguindo, até o dia em que em uma de nossas conversas eu lhe disse: “ei Pitoko, você está com os olhos tristes, foi porque não ficou no parque com sua namorada?” E completei: “a vida aqui com os humanos está chata né Pitoko? Você fala e nós demoramos para entender, não é isso?” Foi aí que me veio o insight e aquela dualidade “padre versus cientista”, que eu já havia abandonado por meio da filosofia, mas não no meu íntimo, se esvaiu de vez. Finalmente eu entendi o padre como quem poderia colocar uma pergunta interessante aos cientistas, ainda que contra ele próprio.

Para o padre, seguindo a Bíblia, os animais nunca fora importantes. Eram para ser dominados pelo homem e nunca passariam de instrumentos. Para os cientistas, de certo modo, valia a mesma coisa. Mas o padre, ao insistir em dizer que buscar no cosmos uma nova forma de vida era uma bobagem, poderia fazer os cientistas descobrirem algo que eu, como filósofo, tinha a obrigação de não desprezar: para que buscar uma outra forma de vida se temos aqui outras formas de vida? “Vida inteligente” que não a nossa? Ora bolas, mas do que eu estava falando? Não estava ali o Pitoko e não estava eu e ele conversando?

Cachorros e homens estão juntos há mais tempo do que podemos imaginar. Duvido que o homem tenha domesticado o cão, como dizem alguns antropólogos. Aposto nos antropólogos que conjecturam que o cão evoluiu do lobo e isso já se fez em conjunto com o hominídeo que deu origem ao homem. Cães e homens estão juntos há muito e se educaram mutualmente. O comportamento primitivo de ambos, quando se manifesta, mostra isso. Cães e homens podem muito bem ser vistos como duas formas de vida que se encontraram no espaço – a Terra faz parte do espaço! Portanto, eis aí o encontro de vida inteligente de diferentes matizes no cosmos. Ora, se era para isso que queríamos tanto virar astronautas, para que procurar longe no espaço o que ocorreu longe no tempo, mas bem aqui na nossa mesma geografia.

É claro que se pode dizer algo assim para mim, como um tipo de objeção: “Paulo, Paulo, o homem tem outros ETs com quem se relaciona: a criança e a mulher”. Sim! Claro. Mas nesse caso são seres que são usuários da linguagem como o homem.  Sendo que o pensamento e a linguagem ou são a mesma coisa ou possuem estruturas muito semelhantes (ficando com Davidson e não com Chomsky), homem, mulher e crianças são ETs que acabam se tornando pouco interessantes ao se mostrarem em seus relacionamentos mútuos. Agora, o relacionamento entre o homem, que é usuário da linguagem, e o cão, que não é usuário da linguagem (como a entendemos aqui, com semântica, sintaxe e pragmática), é exatamente o relacionamento entre ETs. Levando em conta que cão e homem se tornaram amigos e que o cão se tornou amigo do homem a ponto de não poder fazer outra coisa senão procurar homem para considerá-lo como parceiro (o cão é o melhor amigo do homem, dizemos porque reconhecemos isso), então, por que estamos interessados em vidas do espaço sideral distante? Que bobagem! Tudo que procuramos está exatamente aqui. Sempre esteve aqui!

Procurar fora daqui a “vida inteligente”? Ora, mas uma vida inteligente que viesse a se relacionar conosco seria uma vida de indivíduos (ou algo assim) usuários da linguagem e, portanto, alguma coisa muito próxima de nós, algo no máximo diferente do homem como a mulher ou a criança diferem do homem. Não teríamos nada para conhecer além do que já sabemos. Um ser diferente disso seria um ser que não fosse usuário da linguagem. Um ser que, em princípio, não há como compartilhar do nosso mundo (tomando aí o argumento de Wittgenstein contra o que chamamos de linguagem privada e tomado a frase de Wittgenstein “o limite do meu mudo é o limite da minha linguagem).(1) Ora, mas estamos há milênios com ele: o cão. Estamos tentando uma comunicação há milênios. E o êxito é notável. Tanto é notável que nós todos, ao menos no Ocidente, estamos vivendo uma época em que muitos de nós já não se põe mais como “dono” de um cão, mas como pai e mãe. E é assim que eles já nos veem há anos (eu espero que isso continue).

O padre boboca não entenderia o que estou falando. O cão nunca seria outra coisa que não instrumento para o humanismo clerical babaca. Mas a sua questão ao cientista, na minha boca, ganha importância outra. A boa questão seria essa, como já disse: para que procurar lá fora o que se quer saber? A resposta está aqui, se é que há uma.

Aposentar os domesticadores de cães e outras coisas parecidas, que ainda pensam no cão de acordo com o pensamento do padre (ou de Descartes), é fundamental para começarmos a fazer viagens espaciais, dentro de nossas casas, e encontrarmos vidas interessantes por aqui mesmo. Comecemos por aquele que está nas nossas lendas como tendo criado vários homens, o lobo (e o cão). Deveríamos tomar como significativo que Roma, a cidade mais importante do mundo para o Ocidente e sede do Vaticano, da Igreja portanto, nasceu de dois meninos que foram criados por uma Loba, Rômulo e Remo. Isso deveria ser um indicativo simbólico de que nós e cães temos de ser vistos segundo o encontro que tivemos e que estamos tendo, e que é isso é algo muito maravilhoso. Não há estudo do homem que se possa fazer que não considere essa amizade, o mesmo se diz do cão. E creio que temos desprezado essa relação, exatamente porque desenvolvemos a linguagem e os animais não.

Aliás, esse desenvolvimento da linguagem nos fez demorar demais para fabricar um Darwin. Caso os animais tivessem desenvolvido algo um pouco semelhante, teríamos produzido um Darwin muito mais cedo, e ele nos diria o que só na modernidade passamos a levar a sério: somos parentes dos animais, não de Deus. Nietzsche nos avisou: o homem se pensaria um deus se não fosse o baixo ventre. Mas que nada, nem mesmo o baixo ventre nos impediu disso. Afinal, passou um tempo e abandonamos as religiões que nos separavam dos deuses para endossar uma, o cristianismo, que nós fez parente sanguíneos de Deus. Somos filhos de Deus. Então, somos um pouco deuses, temos um DNA de Deus. O  cão não tem – assim queremos crer. Mas a prática nossa está mudando.

Lidar com o Pitoko não é lidar com um ser maquinal, como sempre temos pensado, mas é lidar com alguém que não é usuário da nossa linguagem, mas que é usuário de algum sistema de comunicação que estrutura um tipo de inteligência. Essa inteligência não é pior ou melhor que a nossa, é apenas diferente. A vida do cão não é melhor ou pior que a nossa, é uma vida. Ah! Como perdemos tempo esperando os astronautas fazerem mais façanhas do que poderiam, dentro do tempo estipulado para eles. Só agora realmente pode começar uma era das verdadeiras viagens junto com os tais marcianos.

Os marcianos não são verdes. São peludos. Verde é o Hulk.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

(1) A diferença entre nós e os animais é um campo agora já clássico na filosofia contemporânea. O artigo célebre, nesse caso, é o de Nigel, What Is it Like to Be a Bat?” (1974). Um artigo que particularmente acho importante é o de Davidson, “Animal Rational” (1984).  Minha questão aqui não é discutir se há ou não “racionalidade” no “pensamento animal”. A questão é controversa. Davidson nega, Dennett nega bem menos, se é que nega. Temo que um debate desse tipo antes volte a atrelar os direitos dos animais a questões cognitivas. Eu não gostaria de repetir os humanistas nisso. Não quero classificar os animais por atividades próximas ou não das dos homens e, então, considerá-los a partir da ideia de que seria inteligentes se pensassem como o homem etc. Mas, para quem se interessa exclusivamente por “pensamento animal”  e não por direitos dos animais, este verbete da IEP é bom: Animal Minds 

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5 Responses “Será que lá há vida inteligente?”

  1. 28/03/2014 at 04:37

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  2. coli
    03/06/2013 at 22:38

    Putz…. Lendo o texto eu juro que olhei para o “meu” cachorro e, num sentimento de culpa, eu disse: amanhã, bem cedinho, eu te levo pra dar um role na rua tá?!

    • 04/06/2013 at 01:10

      Converse com ele, comece uma interação. Trate-o com carinho. Comece a olhar por onde ele percebe o mundo. Você só tem a ganhar.

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