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28/02/2020

Ressentimento, inveja e médicos no Brasil


Ressentimento, inveja e médicos no Brasil

O ressentimento é algo terrível. O ressentido se remói e acaba, não raro, caindo nos braços da inveja. Esse processo maldito atinge pessoas e se manifesta psicologicamente, mas às vezes contamina um grupo e se transporta para o âmbito psicossocial. Nietzsche aproveitou esse aspecto psicossocial do ressentimento para caracterizar o que ele chamou de “os fracos” ou “os escravos” ou “os doentes”. Com esses termos ele não estava falando de um grupo social empírico, mas de um grupo idealizado para a construção de uma tipologia, de modo a poder distinguir uma “moral dos escravos”. Seu objetivo não era fazer sociologia ou arrumar tipos para fazer história, antes, era forjar tipos para tecer uma narrativa em filosofia da história. O escopo era, no interior dessa narrativa, mostrar como que a metafísica não seria outra coisa senão o produto de um tipo de moral ou de combate moral, e não a busca legítima para algo chamado a verdade ou o absoluto. Todavia, após ele, muitos resolveram seccionar sua filosofia da história e se aproveitar de seus insights internos, lidando então com o ressentimento enquanto elemento estritamente psicossocial.

Antes de Nietzsche, é claro, outros deram elementos para a construção do personagem ressentido-invejoso. Pascal e Schopenhauer foram leituras úteis para Nietzsche nessa tarefa. Marx ele não leu, nem foi lido pelo filósofo revolucionário. Mas Marx não deixou de falar em algo parecido com algumas coisas de Nietzsche, especialmente quando mencionou o perigo do “comunismo de inveja”. Por este, ele entendia um tipo de atitude de quem não queria construir uma sociedade melhor por meio da abolição da propriedade privada, mas apenas encontrar uma forma de legitimar – ao menos no interior da lógica da revolução socialista – a expropriação de determinados bens dos ricos. Muitos processos revolucionários socialistas nada foram senão pilhagem. Os expropriadores podem não ter ficado com a propriedade expropriada dos ricos, mas tiveram o gostinho de vê-las se deteriorar nas mãos dos pobres ou no descuido estatal. De certa forma, isso gerou para alguns ricos o ressentimento do ressentimento, mas, enfim, não a inveja.

A inveja gerada pelo ressentimento sempre foi típica dos “de baixo”. Em geral, esses “de baixo” não eram os que conseguiram emprego regular e que, de certo modo, não se desmancharam no ar como tudo no despertar do mundo moderno. Eram exatamente os que se desmancharam. Tais grupos sociais se constituíram pelos que não se adaptaram à disciplina fabril e à confusão urbana, os que não se saíram bem diante da nova disciplina escolar e frente às demandas do mundo tecnológico e da novidade cultural. Não conseguiram constituir família ou, se assim fizeram, não puderam viver segundo uma dignidade dada ao trabalhador livre, ao menos quando este começou a ser mais ou menos proprietário de algum saber, por conta de uma readaptação à máquina. Essas pessoas não adaptadas se sentiram efetivamente desmanchadas.

Tais pessoas não eram ricas e nem pobres, ao menos não no sentido de assim se sentirem. Não eram propriamente os que haviam sido nobres e, com o advento dos novos tempos, os “tempos burgueses”, os que tinham hipotecado tudo nos bancos da nova classe mandatária. Mas podiam, sim, serem os filhos e netos destes. Eram os restos da nova sociedade. Compunham a parte dos pobres que havia ficado miserável, ou uma parcela de filhos de nobres que nada tinham e que nem bem haviam conhecido a riqueza. Essas pessoas destilaram ódio aos ricos, especialmente aos “novos ricos”. O ressentimento-inveja povoou a Europa entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Segundo temperamentos individuais, esse enorme grupo de azarados da modernidade passaram a condenar toda forma de liberalismo e de democracia liberal emergente. Tornaram-se presas fáceis, logo depois, no século XX, da retórica  rebelde e meio que adolescente de líderes comunistas ou de chefes nazifascistas. Aliás, muitos dos próprios líderes desses dois movimentos saíram desse meio, ostentando excessiva juventude e entusiasmo – tudo o que faltava a esse grupo cujos elementos até então se sentiam como os derrotados e os grandes injustiçados da face da Terra.

Durante todo o século XX vimos tais grupos, em graus diversos, aparecer e desaparecer em várias sociedades. Às vezes o ressentido-invejoso podia não ser o miserável, mas o tipo característico de uma parcela da classe média baixa. Às vezes podia ser um grupo difuso, surgido em meio a uma modernização atípica, segundo características especiais de determinado país. Nem sempre um sentimento psicossocial importante se fixa em outro grupo que não o originário somente se este novo grupo  é  uma réplica do antigo hospedeiro. Aliás, foi essa alteração  que ocorreu durante o século XX, e em épocas de crise, o século XXI tem mostrado que ainda deve muito ao século XIX, ao menos quanto ao campo dos sentimentos coletivos.

Esse ressentimento-inveja, não raro, não descola completamente da política. No Brasil de hoje, eu ousaria dizer que a política do governo diante dos médicos é alimentada por algo parecido com esse sentimento que historiei. A impressão que tenho é que não se está fazendo política social, mas apenas jogando um grupo, até então tomado no imaginário social como poderoso, rico, orgulhoso e indisposto com qualquer forma de proletarização, para o interior de um regime de degradação vingativa. É como se o governo, nutrido pelo ressentimento invejoso, quisesse fazer justiça ao povo, julgando em praça pública o que muitos chegaram a chamar, às vezes até com razão, de “a máfia de branco”.

Assim, no Brasil de hoje, a política de saúde é uma política de ameaça, dizendo algo mais ou menos assim para os médicos: “quero que vá para lugares inóspitos, mas não sei se vou pagar você por isso, no entanto, para a sociedade eu vou dizer que pago e que pago muito bem, e que você não quer ir, e então por isso vou salvar a sociedade trazendo médicos estrangeiros”. É uma ameaça terrível, pois ao se colocar que há a disposição de buscar médicos lá fora, pegando o que há de pior na mão de obra do exterior uma vez que não vai se exigir exames e validação do diploma, o que se quer é mesmo rebaixar o ganho dos médicos. Assim, no limite, o plano é antes de tudo de vingança que de política de saúde. Na propaganda estatal, então, deve ficar tudo muito arrumado para o governo, nesses termos: “salvamos o país trazendo médicos de fora, e assim atendemos os mais pobres, já que a máfia de branco, os ricos e cheirosos, os que se filiam ao partido dos ricos, são todos não patriotas”.

Essa propaganda é forte, pois de fato se une à raiva da população diante do atendimento hospitalar que é ruim para os mais pobres. Mesmo para a classe média, vítima de planos de saúde enganosos, o atendimento hospitalar é ruim. Então, todos ficam com a impressão de que a culpa é do médico. Poucos param para analisar as condições históricas dos hospitais e as questões de saúde pública e as deficiências do ensino médico. No imediato, os desacertos caem sobre o médico. Isso é algo que eu conheço bem, pois ocorreu com os professores, mas ao longo de mais de trinta anos. Com os médicos, o que se quer é que esse processo ocorra em meses. A profissão de professor acabou. A profissão de médico, nessa toada, também acabará. Sobrarão alguns bons, com condição de trabalhar nos hospitais dos ricos, mas depois, nem isso. É como hoje nas escolas. Mesmo nas escolas particulares, hoje, já há falhas terríveis, ainda que o preço, para a classe média, seja impagável.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ.

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164 Responses “Ressentimento, inveja e médicos no Brasil”

  1. Wagner
    27/05/2014 at 16:38

    Nietzsche serve para muitas coisas, inclusive para o uso indevido. Como tudo no Brasil, a medicina tem lá seus cartéis e panelinhas (seus bodes velhos), suas picuinhas e vaidades. Os dois lados, o governo e os médicos, têm suas próprias razões e seus próprios ressentimentos, seus pavores. Porque omitir a resistência da classe médica organizada antes da vinda dos estrangeiros. Porque dar a impressão que tudo na política é feito do dia pro outro. Essa situação é coisa antiga e a classe médica está longe de ser uma classe de “coitados”, embora tal comportamento, agora, pareça aceitável para muitos deles. Nietzsche ia vomitar com essa quedinha de braço.

    • 27/05/2014 at 19:10

      Wagner, não foi queda de braço separada, isolada, é constante a ideia de deterioração do serviço público, é uma coisa da mentalidade nossa. Outras categorias foram levadas ao lixo. Veja o que ocorreu com os professores.

  2. Flávia
    26/01/2014 at 22:07

    Sr Paulo Ghirardelli

    Sou médica e só gostaria de agradecê-lo pelo texto pois é bom saber que ainda existem pessoas de olhos abertos nesse país. Sinto que a maioria da população está alienada diante desse medida eleitoreira e descabida desse desgoverno.
    Me formei há 5 anos e, querendo lidar com população carente, fui trabalhar numa comunidade situada na Baixada Santista. Falta de segurança, falta de medicação, falta de estrutura, falta de higiene local, falta de funcionários, falta de Hospital de referência para encaminhamentos, falta de especialistas. Ao mesmo tempo também trabalhava como plantonista de um Pronto Socorro movimentado, os mesmos problemas já citados e muitas idas para casa chorando após ver mais de um paciente morrer por falta de transporte para remoção e, principalmente, falta de leitos de UTI. Durante os 10 anos do governo PT milhares de leitos foram fechados. Prefeituras não pagam os salários em dia ou, como aconteceu com colegas, muitos precisam entrar com processo na justiça para receber os salários. Quer saber qual foi minha atitude?Me mudei para o Canadá e aqui pretendo exercer a medicina com dignidade e respeito a mim e ao paciente. Vou passar por uma sabatina de provas e proficiência em francês (Quebec) pois, mesmo faltando médicos no Canadá, eles são muito exigentes quanto a formação e conhecimento desse médico estrangeiro e também exigem que a especialização do médico estrangeiro seja feita no Canadá para que o mesmo se adapte à realidade local (epidemiologia). Todos os bons médicos já estão pensando em sair do país e fazendo com que seus filhos desistam de fazer medicina. Já podemos imaginar o futuro da saúde no Brasil não é mesmo???Povo ainda acredita que medicina só se faz com um médico e um carimbo.Boa sorte pra quem fica e que o tempo consiga mostrar a verdade a esse povo que não acredita em meritocracia, em estudo, em ordem, em trabalho, apenas acredita que vai chegar um salvador da pátria…

  3. junior jp
    12/01/2014 at 11:31

    O que sei é que na pratica, devido a banalização da medicina pelo o governo, abertura de mais de 50 cursos de medicina e a presença deses médicos . Tenho a certeza que em 6 anos haverá médicos aos montes desempregados, ganhando uma miséria e matando gente a torta e a direita. A VERDADE DOÍ MAS A MEDICINA NESTE MISERÁVEL PAÍS ACABOU!!!!!!!! PARABÉNS GOVERNANTES BRASILEIROS[FHC, LULA e DILMA]!!!!!!!!!! E TEM MAIS!!
    ACABEM COM ESSA CONVERSA COMPRIDA!!!!!!!!!!

    • 12/01/2014 at 12:34

      Bem, não é o ensino de medicina que está com problemas somente. Estamos com uma crise educacional dos diabos, iniciada com a ditadura militar e não resolvida pela democracia.

  4. Um testemunho
    06/11/2013 at 16:29

    Sou medica e me lembro bem que há mais de 25 anos passados me submeti a uma seleção para ser medica do Programa medico de família lá na Paraíba e me fizeram uma pergunta se eu acreditava que aquele programa faria a “revolução social”.Eu respondi de pronto : ” Jamais ! Não acredito que colocar medico nas comunidades revolucione uma sociedade” Fui classificada ! No ultimo lugar da lista de cinco vagas!
    Meses depois ,numa reunião com secretarios latinos americanos ,o secretario de saúde de uma cidade daquele estado me apresenta como a medica que passou em primeiro lugar naquela seleção ! Não o desmenti naquele momento.Mas depois lhe perguntei e lhe falei de um equivoco pois fui a ultima da lista ! Mas ele confirmou: Vi sua prova foi maravilhosa e mereceu um dez!
    Eu era única medica que não era filiada ao PT ! Me engoliram a força! E me arrependo de ter assumido ! Fui tão perseguida por motivos políticos que um dia ainda escreverei sobre isso!
    Mas o que quero dizer sobre isso ?
    É que o PT agora no poder executará o intento sonhado: Fazer uma revolução social via categoria médica!
    Como ninguém é idiota para servir de palhaço para o povo oferecendo medicina de miséria e fazendo de conta que prestamos serviço de qualidade e seguro , não nos submetemos a esse serviço seboso! Então crucificam médicos brasileiros e trazem cubanos acostumados com escravidão e pobreza : Para pobre ,medicina de pobre!!! E enfiarão ideologia de falsa igualdade goela abaixo dos mais pobres brasileiros!
    Já se foi o tempo que para exercer a medicina bastava uma caneta e um pedaço de papel!

    • 06/11/2013 at 16:57

      Bernadete, a ditadura militar fez igual. Os outros partidos fizeram igual. Escola de pobre para pobre, casa de pobre para pobre e medicina de pobre para pobre. Essa mentalidade não é do PT, é uma mentalidade de um país de diferenças sociais e econômicas muito acentuadas.

  5. Zé Capenga
    09/10/2013 at 19:21

    Aqui está mais um texto “TOSCO” desse filósofo, alguns até que são legais. Não sei se escreve bebum ou se é de propósito.
    Inveja.. inveja DAONDE, meu filho???? Essas pessoas ganham mais que os médicos, tem mais influÊncia e são mais vistas, além de não lhe dar com cadáveres. São mal intencionados, mas são políticos, o degrau máximo do poder.

    • 09/10/2013 at 19:38

      Zé Capenga o seu nome diz tudo, você é sinônimo de Zé Mané. Tchau. Vá terminar o seu curso na APAE.

  6. Jonatas
    29/07/2013 at 13:10

    Paulo, sugiro uma entrevista com o filósofo Luiz Felipe Pondé.
    Ele é excelente!

  7. Flávio
    28/07/2013 at 14:52

    Paulo, o que você acha da sua colega, Marilena Chauí?

    • 28/07/2013 at 16:22

      Flávio, procure por aí e achará o que procura. Há observações críticas, inclusive vídeo nesse blog mesmo.

  8. Luiz Motta
    21/07/2013 at 11:08

    Paulo, a Petrobras, por exemplo, está cheia de engenheiros e técnicos estrangeiros trabalhando. Empresas terceirizadas, campos leiloados…Por que este tema de importação de profissionais estrangeiros tornou-se tão traumático quando cogitou-se importar médicos?

    • 21/07/2013 at 11:15

      Luiz, a resposta está nos meus artigos. Leia e reflita. Se depois de ler e refletir ainda estiver com essa dúvida, leia mais uma vez e reflita mais. Entao volte. Você mesmo terá a resposta.

    • Andre Dias
      30/07/2013 at 14:31

      Porque uma empresa (ainda que estatal) importar profissionais pagando bons salários e oferecendo garantias é completamente diferente do Governo do próprio país forçar profissionais a irem para regiões longínquas sem oferecer estrutura adequada. É muito diferente.

    • 30/07/2013 at 14:58

      Que empresa faz isso? Não faz. O governo deve fazer.

  9. Ana Carolina
    13/07/2013 at 14:08

    Paulo, um texto sem tantos exemplos pessoais e mais teórico, escrito já com a raiva mais acalmada, em resposta a um comentário ao anterior.

    SOBRE A ATUAL SITUAÇÃO DOS MÉDICOS NO BRASIL – MAIS REFLEXÕES

    Eu não disse que as pessoas em outras profissões não passam por dificuldades. Claro que eu sei disso. Eu disse que nós também passamos, que é o que parece que muitos ignoram. O que eu disse é que somos iguais aos outros. Iguaizinhos. Uma classe trabalhadora como outra qualquer. Que quer condições de trabalho dignas, salário justo, aposentadoria, plano de cargos e carreiras e direitos trabalhistas. Sabia que não temos nada disso assegurado? Eu não sou contra a vinda de médicos estrangeiros. Aliás, eles sempre vieram. Só quero que venham, como os que vieram antes, tendo que fazer a prova de revalidação do diploma. Qualquer profissional de nível de educação superior, quando quer mudar de país, precisa revalidar sem diploma por um motivo óbvio: não tendo sido formado por instituição do país, o país não tem como saber qual foi sua formação e precisa checar se ele tem condições de trabalhar. Se você quiser ir trabalhar fora, você precisa. Eu também. Na Inglaterra, na Austrália, em Portugal, na Espanha. Até em Cuba eu não posso simplesmente ir entrando e exercendo a Medicina. Aliás, em Cuba eu não poderia nem estar escrevendo este texto. O que o Brasil resolveu foi colocar médicos que não pode atestar como foram formados para atender sua população. Alegando que não há problema porque atenderão a população mais pobre no interior. Isto quer dizer que médico não revalidado pra pobre pode?
    Quanto à falta de condições de trabalho no interior, ela não é uma questão contornável ou de menor importância. Não é a presença dos médicos que vai levar os recursos. Ou a presença dos professores tem melhorado a escola pública?
    Não caia nessa subversão ideológica. Isto é discurso de teóricos. O grande mal dos teóricos da educação é que eles não estão ou nunca estiveram em sala de aula. O grande mal dos teóricos da saúde pública é que não são ou nunca foram médicos. Nunca estiveram atrás de um birô em um posto de saúde ou emergência. Então ficam alimentando preconceitos em seus discursos. Como esse de acreditar que os pobres merecem atendimento pior.
    A base teórica desse pensamento é formada por filosofias pseudo-esquerdistas que há muito a história provou estarem bastante equivocadas.
    Ademais, em Medicina, se lida, como é bastante óbvio, com a vida e a saúde. O improviso não pode ser admitido. Não é algo assim: “ah, se não tiver lousa com pincel, o professor pode escrever com giz. É ruim, mas não mata.”
    É algo assim: “se não tiver o antibiótico adequado, o menos adequado é ruim e mata!” Todos tem que ter condições pra trabalhar. Mas, no nosso caso, não nos dar condições é potencialmente catastrófico de maneira imediata.
    E nós não podemos assumir a responsabilidade pelas mortes que acontecem pela falta de estrutura. Não só não podemos porque não devemos, porque não é justo nem certo, mas porque somos eticamente proibidos.
    Vejamos o que diz nosso Código de Ética profissional a respeito:
    É direito do médico:
    “IV – Recusar-se a exercer sua profissão em instituição pública ou privada onde as condições de trabalho não sejam dignas ou possam prejudicar a própria saúde ou a do paciente, bem como a dos demais profissionais. Nesse caso, comunicará imediatamente sua decisão à comissão de ética e ao Conselho Regional de Medicina.”
    E, se não o fizermos, podemos ser punidos.
    Sabe, o governo pode não cumprir a Constituição. Mas eu cumpro meu Código de Ética. E eu não vou assumir a responsabilidade e a punição pelos erros desse mesmo governo.
    E o que o governo quer é obrigar alguém a assumir por ele. Seja esse alguém o médico importado, seja o graduando sob serviço obrigatório.
    Quanto a contrapartida social, me perdoe a franqueza, do modo como está colocada, é outra balela.
    Em primeiro lugar, se é por essa lógica, deveria valer para todos: vamos obrigar arquitetos e engenheiros a trabalhar em obras públicas, advogados a trabalharem como defensores públicos, enfermeiros, bioquímicos, psicólogos a trabalharem em hospitais públicos. Todos sob um tal “registro provisório” se quiserem obter a graduação. Seria uma ótima forma de não precisar se preocupar em melhorar o salário de defensor, a justiça no país e as condições de trabalho nos canteiros de obras nos rincões.
    O estágio supervisionado em serviço público em Medicina já existe. Chama-se internato , dura dois anos, todos nós cumprimos e é, inclusive, não remunerado.
    Eu quero sim dar essa contrapartida. Melhore o SUS que eu trabalho nele com todo o prazer. Me dê um PCCS e aposentadoria. Não só eu farei isso. Muitos faremos.
    Mas ninguém é, ou ao menos não deveria ser, obrigado a dar “contrapartida social”. Até porque não é justo cobrar a mesma conta duas vezes. Eu não devo a ninguém o meu estudo em Universidade pública. Eu já o paguei com meus impostos. Meus pais já o fizeram Assim como você já pagou os seus. Todos nós já fizemos isso.
    Aliás, esse conceito da “contrapartida social” é, a história mostra, perigosíssimo. Essa ideia de “nós deveríamos sim dar um retorno ao Estado e à população, ainda que isso nos custe alguns anos e alguns sacrifícios de nossos projetos pessoais” é a responsável por um enorme número de corpos que jazem, sem identificação, em vala comum de muitas ditaduras de direita e de esquerda pelo mundo. Um argumento que serve e historicamente sempre serviu aos mais espúrios ideais de preconceito, cerceamento de liberdade e massificação.

    Ana Carolina da Silva Bezerra
    Médica Residente em Pediatria no Hospital Geral de Fortaleza

    • 13/07/2013 at 15:06

      Ana, os dois textos seus igualmente bons.
      A “contrapartida social” pode existir como política de acordo, em um esforço nacional acordado com a sociedade. E assim mesmo, por determinado tempo somente. Posta só para os médicos e sem discussão, vira castigo. E é contra nossa Constituição. Além disso, o ensino público é pago, pago por nós com impostos. “Contrapartida social” gera o pedágio, ou seja, o duplo pagamento.

  10. Ana Carolina
    12/07/2013 at 21:46

    Paulo, meu comentário (postado anteriormente) é, na verdade, um texto de catarse que escrevi para tentar expressar e, portanto, me livrar da mágoa e tristeza que venho tendo nos últimos dias. Por isso ficou tão longo.

  11. Ana Carolina
    12/07/2013 at 21:42

    Faz dias que eu tento escrever algo sobre a atual situação dos médicos no Brasil. Não tenho conseguido. Logo eu, que costumo ser tão logorreica e opiniosa, não tenho conseguido. É que estou em choque. E vou tentar explicar, se não desistir de novo do texto no meio, o motivo.
    Bom, talvez seja bom começar me apresentando. Eu sou Ana Carolina, 28 anos, médica, brasileira. A designação médica vem após a idade e antes de brasileira não sem motivo. É que, dos meus 28 anos, dediquei pelo menos a metade ao projeto de ser médica.
    Decidi muito cedo que queria abraçar essa profissão e sabia que, em sendo pobre (miserável não, mas pobre), a única forma de fazê-lo era estudar muito. E assim foi. Por decisão consciente no meio do turbilhão do final da infância – início da adolescência, decidi estudar. E, por isso, saí menos, tive menos entretenimentos juvenis, menos amigos. Mas consegui meu objetivo. Passei no vestibular. Entrei em uma escola médica federal e dei início a mais seis anos de estudos em tempo integral. Lembremos que nenhum outro curso dura seis anos. Menos ainda em tempo integral. Durante esses seis anos, não trabalhei. Não porque não quisesse. Mas porque não podia. Na minha profissão, trabalhar sem o devido registro é (ou era) crime. Era porque os médicos importados que o governo quer trazer ao país poderão fazê-lo.
    Interessante é que o fato de não trabalhar no começo da juventude me deu, na boca de alguns, o título de “elite”.
    Sempre achei muito curioso saber que eu, filha de uma professora primária e neta de um marceneiro e uma costureira podia pertencer a algum tipo de “elite”. Filha de uma mãe que viu, ao longo dos anos, a nobre profissão de professora, que escolheu abraçar, ser reduzida a condição de subemprego. E, como subempregada que era, trabalhou muito para sustentar a única filha em um curso de livros caros e material caro, que ela tinha que comprar porque a universidade pública não oferecia.
    Pois bem, eu. Eu que comprava meus jalecos no crediário. Estetoscópio em cartão de crédito emprestado e parcelado em doze vezes. Eu, “elite”.
    “Elite branca”, ainda por cima. Minha ascendência genética, só pra constar, traz uma mistura de brancos, mulatos e índios (no que não sou em nada diferente do restante da população) e, se nasci com a pele branca, foi por combinação genética randomizada. Se houvesse uma “culpa” em ter uma cor de pele, ela não seria minha, nem do Mendel e suas ervilhas. Nem de ninguém.
    Mas me foi dado, talvez por algum auto-entitulado defensor dos direitos humanos usando uma camisa desbotada com a cara do Che Guevara, o título de “elite branca”. E isso, hoje percebo, é quase uma condenação.
    Aliás, sempre tive dificuldade em entender pessoas que se dizem liberais, defensoras das liberdades individuais, usando camisas do Che. Pra mim, uma ditadura de esquerda é tão ruim quanto uma de direita. Pra mim, matar e fuzilar por um ideal solapam a legitimidade de qualquer ideal. Simples assim.
    Pra mim, escravizar pessoas não é boa política social. E quando a escravidão é política de Estado, é temeroso. Porque eu chamo de escravidão fazer com que pessoas trabalhem compulsoriamente em outro país em condições de trabalho humilhantes. E é isso que o governo do Brasil e o governo de Cuba pretendem fazer com os médicos cubanos. Por isso, deles (dos médicos) não tenho raiva. Tenho, antes, dó.
    E quando digo condições humilhantes, digo por saber de cadeira. Aliás, de cadeira, de banco de cimento, de banco de tora de madeira. Pois foram em instalações com estes dispositivos que trabalhei por alguns anos.
    E deixei de trabalhar no interior. Deixei sim e não pretendo voltar. É que, quatro anos atrás, quando terminei o curso de Medicina e saí de casa rumo a um município aqui no interior do Ceará, deixei minha vó chorando sentada no sofá de casa. Minha vó que, quando eu tinha três anos de idade, me falou de seu sonho de ter uma neta médica e, de alguma forma, plantou uma semente em mim. Minha vó que lavrou a terra no sertão árido deste mesmo estado. Que perdeu a mãe quando tinha seis anos de idade para a febre tifoide, que perdeu um filho recém-nascido para alguma doença desconhecida e uma filha de poucos dias de vida para a meningite. Quando eu saí de casa naquele dia, a última frase que ela me disse foi “nunca pensei que ia ver uma neta minha sair de casa pra trabalhar como médica.”
    E eu fui. Estetoscópio no pescoço e sonhos no coração, trabalhar na zona rural de um município no sertão central cearense. Uma hora e meia de Fiat Uno sem freio de mão na estrada carroçável. Uma fila de pedras na entrada do posto. Cada pedra marcava o lugar de alguém que tinha chegado de madrugada para ser atendido. E eu atendia todos. Consulta médica detalhada, criteriosa, atenta. Como aprendi na minha escola. Mas um dia, um paciente com câncer de próstata precisou trocar a sonda urinária e não tinha sonda. Um dia, apareceu um paciente com osteomilelite crônica e não tinha antibiótico adequado. Um dia, botei a mão num “caroço” na barriga de um senhor de idade muito pálido e soube, de imediato, que aquilo era um câncer de estômago avançado. Pedi a endoscopia, mas ele morreu antes de poder fazer o exame. Meus pedidos de endoscopia, tomografia, ressonância, remédios de alto custo foram, um a um, esvaindo-se no espaço. É que pobre também tem câncer. Pobre também infarta. As doenças, ao contrário do que pensam as correntes políticas que querem mandar médicos mal formados e enfermeiros que também não tem formação pra isso ao interior, não distinguem entre pobres e ricos. As doenças não tem preconceitos. Quem os tem é quem pensa essas políticas. Pobre também tem “doença de rico”. E eu tinha aprendido a fazer medicina de verdade. E medicina de verdade precisa de recurso.
    Aí, um dia, eu ia voltando pra sede do município, numa estrada de terra, e o Fiat derrapou ao desviar de uma vaca. E eu não morri bem pouco. Nesse dia, eu voltei pra casa. É que o sonho da minha vó provavelmente não era ver a neta dela morrer em nome de um ideal inalcançável.
    Se eu tivesse, como dizem os prefeitos desses municípios do interior do Brasil, salários estratosféricos à minha disposição e condições de trabalho menos que humilhantes, será que eu realmente desistiria?
    Você, independente da profissão que tenha, se recebesse uma proposta de trabalho com um bom salário e, ainda assim, a recusasse, será que faria isso sem motivos? Penso que não. Penso que ninguém faria tamanha asneira. Se eu desisti de trabalhar no interior, tive bons motivos pra isso.
    Claro que quando eu fui trabalhar, também pensava em ganhar dinheiro. De preferência, em ganhar o melhor possível. Em ganhar bem. Quem não pensa? Seria esse um pensamento exclusivamente médico?
    Acho que não. Não é exclusivamente médico e é bastante justo. Aliás, ouvi dizer também que médicos ganham muito dinheiro. Queria saber onde isso se passa. Ou qual o conceito de muito de quem diz isso.
    Porque, para ser especialista, a educação médica vai até, facilmente, dez anos de estudos. Eu, que atualmente penso em ser neuro, ou gastro ou pneumo ou endócrino pediatra, faço a conta:
    Seis anos de Medicina. Dois de residência em Pediatria. Dois de residência na subespecialidade escolhida.
    Bom, suponhamos que eu trabalhe trinta horas semanais. Eu vou ganhar de modo muito semelhante ao que ganha alguém com dez anos de educação superior em qualquer profissão. O que diferencia é que um engenheiro ou advogado com dez anos de estudo superior já deve ser doutor. Eu, com dez anos, sou só especialista. Pro doutorado, ponha uns quinze anos.
    A diferença também é que eu posso trabalhar dia, noite , fins de semana e feriados. Então, se eu fizer essa escolha, eu vou ganhar mais por trabalhar mais. Não vejo o absurdo disso.
    E vejo o mérito. É justo que a neta de um marceneiro fabricante de cercas que dizia pra filha “estude e só depois pense em casar, porque seu marido é o estudo” seja recompensada pelo seu estudo. A sociedade precisa se organizar com base na oportunidade, na justiça e no mérito. Não na fantasia e na esmola.
    Governar desprestigiando a oportunidade e o mérito e pesando a mão na esmola me parece estratégia de quem quer governar pra sempre.
    Você, que teve paciência de chegar até aqui no texto, pode estar pensando que eu sou uma exceção. Que não represento a “elite branca de branco” pela minha história pessoal e familiar.
    Engano seu. Posso citar inúmeros exemplos. Tive professora nascida no sertão pernambucano que, ainda criança, ouviu de uma freira (veja a ironia) que visitava a escolinha lá em Gravatá que nunca seria médica. Presumo eu que porque era pobre. E ela foi. E é. E foi das melhores professoras que tive. Faria ela também parte da “elite branca e branco?”
    Tive colegas (vários) que abandonaram cedo a família para estudar e correr atrás do sonho da Medicina. Amiga que saiu de casa no Norte do país porque na época não havia faculdade de Medicina em seu estado natal.
    Poderia escrever um livro só especificando cada exemplo. Seríamos nós a “elite branca de branco?”
    Tenho muito colegas que são, sim, filhos de médicos e, se eles não passaram por histórias como essas, seus pais passaram.
    Tenho até colegas que, vejam só, são ricos! E nunca entendi qual o crime que cometeram em sê-lo.
    A maioria, imensa maioria dos meus colegas é constituída de médicos excelentes. Existem as maçãs podres. Como as existem em todos os lugares. E devem ser identificadas e punidas. Mas não me julgue por elas. E, em nossa maioria, somos bons médicos. Mas ser um bom médico não significa ser capaz de trabalhar sem condições, nem de atender, diagnosticar, tratar, responder a anseios existenciais e fazer psicoterapia num consultório de emergência, como muita gente parece querer.
    Eu sou médica. Tenho bons e maus dias. Não sou heroína nem sacerdotisa. Nem pretendo sê-lo. Se quiser me conhecer como médica, leve seu filho para que eu atenda, pergunte aos meus pacientes e aos seus pais. Se quiser me conhecer como pessoa, converse comigo. Não me julgue pelo estereótipo das suas frustrações.
    Pra completar, dias atrás, vi, num comentário sobre médicos, a expressão “máfia de branco”.
    Deixa eu desenhar uma coisa aqui:
    Eu não sou mafiosa. Eu sou uma mulher, estudiosa, médica, brasileira, trabalhadora, que quer ser respeitada e tratada com justiça. Mafioso é quem trata com preconceito o próprio povo delegando aos mais pobres a condição de cidadãos de segunda classe e lhe oferecendo tratamento ruim.
    Mafioso é quem quer transformar o trabalho no SUS em punição obrigatória e mostra, com isso, não querer em nada melhora-lo.
    Mafioso é quem quer renegar uma classe trabalhadora ao papel de vilã instantânea pra disfarçar incompetência de quem gere esse sistema.
    Mafioso é quem mantém seu povo ignorante para que ele acredite em qualquer propaganda criminosa.
    Mafioso é quem acha que os fins justificam os meios. Ainda mais quando esses fins são eleitoreiros.
    Mafioso é quem se trata no Sírio Libanês enquanto sucateia o SUS.
    Quanto a mim? Eu sou uma médica brasileira que merece e exige respeito. E me orgulho muito do branco que visto!

    • 12/07/2013 at 22:54

      Ana Carolina. Você só tem 28 anos.Não é incrível que com tão pouca idade o país já a tenha magoado assim? É disso que estou falando.

  12. elzo
    12/07/2013 at 18:53

    julio, nao se iluda com o marketing do governo. concordo com todos os fatos relatados no inicio do seu texto. faltam medicos de qualidade, mas faltam ainda mais imvestimento na saude. Engracado justificar a vinda de “estrangeiros” com o tempo que se leva para formar um medico, sendo necessaria a resolucao do problema em carater emergencial. sim, demoram cerca de 8 anos para se formar um profissional, mas …. a quantos anos o governo atual esta no poder? 11?
    eles se aproveitam da falta de memoria da populacao. cito as cotas como ja citado anteriormente, mas para refrescar a memoria de quem nao se lembra: foram criadas como medida “emergencial” para o problema da educacao publica. diminuir a desigualdade da populacao carente, que nao conseguia ingressar na faculdade devido a baixa qualidade da educacao publica basica, em concorrencia a particular. Mas os frutos dos “INVESTIMENTOS”em saude demorariam anos, e os ja em formacao nao se beneficiariam. Me responda: os alunos de escola publica de hoje estao melhores que os de 4 anos atras?
    a luta da classe medica reflete essa indagacao. Pessoas morrem no interior sem assistencia medica, ha pou os medicos em areas afastadas…. Mas nos grandes centros ha concentracao destes profissionais… e ha qualidade na saude publica?
    falta, investimentos, em saude, em educacao. um medico de qualidade custa mais caro em educacao do que abrir escolas de medicina particular sem controle algum. e isto o governo nao conta. faltam medicacoes, exames estrutura em todo sistema de saude, e isto nao esta sendo mudado.
    pessoas morrerao nas maos de medicos nao so despreparados, mas sem a minima condicao de trabalho. mas quando isto vier a tona, ninguem se lembrara da abertura indiscriminada de cursos de ma qualidade, de estrangeiros sem comprovacao de conhecimento, a culpa nao sera do governo, e sim da classe medica despreparada, com bons profissionais cada vez mais diluidos entre a onda de despreparados.

  13. Pedro
    12/07/2013 at 05:10

    Olá, Paulo, sou médico e tenho ouvido ultimamente muitos comentários de pessoas de outras áreas aplaudindo a MP do governo. Fico impressionado com a falta de informação das pessoas, já ouvi comentários do tipo “medicos sao mercenários e só exercem a profissão por status e dinheiro e coisa do tipo…. O que me chocou mesmo nessa situação foi ver o quanto foi fácil para o governo manipular o povo …… Como é fácil manipular fazê-los se contentar com atendimento medico meia boca em um sus que caminha a passos largos para o precipício…….. Como foi fácil para o governo transferir a culpa da péssima administração dos recursos da saude para as costas do medico brasileiro……noto que o governo colocou a população contra o medico ……tenho sentido isso no meu dia a dia como profissional…..enfim …..achava que o principal problema social do Brasil era a saúde, mas mudei de idéia …..acho que o problema eh a falta de educação e discernimento. O povo vai às ruas, faz passeatas, sei diz consciente politicamente, exige um Brasil melhor e aplaude medicina feita em posto sucateiro feita por estudantes e medicos sem diploma…….quanta hipocrisia, sinceramente! Parabéns pelo seu blog……eh bom ouvir uma voz lúcida de vez em quando

    • 12/07/2013 at 10:49

      Pedro, tentei mostrar os mecanismos do que você chama de “manipulação”. Eu não acho manipulação. Eu acho o que escrevi. É fácil mobilizar pessoas contra gente que é tomada como privilegiada. Mas agora os médicos, elitistas ou não, vão se mobilizar, vão experimentar as ruas, fazer protesto, e isso será bom para todo mundo. Talvez o governo tenha acertado num ponto: mexeu com um categoria que sofria calada e que agora terá de reagir antes que ocorra com ela o que ocorreu com os professores.

  14. Omar
    11/07/2013 at 13:12

    Caríssimo Paulo, muito lúcida a sua análise. Sou médico e tenho experiências pessoais de trabalho longe de grandes centros. Sei bem ( por ter sentido na pele!) dos obstáculos para a interiorização dos profissionais. Antes de contar um “causo” breve, apenas uma questão simples: será mesmo que os médicos estão recusando polpudos salários para trabalhar em lugares onde são tão bem tratados? Quer dizer que tem gente oferecendo salários de 30 mil reais e ninguém quer?!? Por que será??? Não será, talvez, por ser em lugares onde não se pode garantir sequer a segurança física do profissional que se dispuser a trabalhar lá? Que tal ir trabalhar nas periferias de grandes cidades e acontecer como aquele engenheiro que teve a infelicidade de errar o caminho no RJ e foi fuzilado? Que tal se embrenhar em um rincão longínquo com a família e levar um calote da prefeitura que o contratou no 3º mês de trabalho? Interiorizar os médicos é bem mais fácil fazendo o óbvio: 1- prover mínimo grau de segurança (se eu trabalhar vou receber/ se eu trabalhar com assiduidade e corretamente meu vínculo será mantido e não serei sumariamente trocado por algum apadrinhado político a despeito do trabalho desenvolvido) 2- Prover condições mínimas de trabalho ( terei vagas para transferir pacientes graves quando precisar ou terei de suplicar no telefone para que me liberem essa vaga, depois de preencher longos formulários e esperar na musiquinha por 1h com o paciente piorando na minha frente? E se a vaga não for liberada e o paciente morrer, quem vai ter de explicar a situação para a família? Eu ou o burocrata que me enrolou no telefone?). Bem, voltando ao causo, após ter concluído especialização em gineco-obstetrícia recebí proposta de uma cidade no interior de Goiás para trabalhar no Hospital local. Inicialmente a proposta parecia boa e os gestores locais interessados em melhorar o atendimento. Depois de estar lá, a realidade vai se impondo. Em um plantão, no 1º mês de trabalho atendí uma gestante com quadro gravíssimo de pré- eclâmpsia, toda inchada (mal conseguia abrir os olhos por conta das pálpebras inchadas) e cujo bebê dava sinais de que também estava em sofrimento, com desacelerações da frequência cardíaca. Pois bem, passei das 21h até o dia seguinte às 06h pedindo pelo amor de Deus para que o anestesista e restante da equipe viessem para prestar o atendimento necessário ( finalizar a gravidez por cesárea de urgência, entre outras medidas). Durante essa noite em que passei manejando o caso, ví toda a minha trajetória profissional como um filme: o vestibular, os longos anos de faculdade, a especialização “ralada”, com longas noites maldormidas e fiquei pensando no que aconteceria se mãe e bebê morressem no meu plantão (o que felizmente não aconteceu). Será que todos entenderiam que eu fiz o possível para dar o melhor atendimento à paciente? Será que entenderiam que eu também era um grande interessado em que o caso terminasse muito bem? Entenderiam que, sendo eu um médico recém- chegado à cidade, um resultado péssimo seria catastrófico para mim também e por isso acreditariam quando eu dissesse que fiz todo o possível? Ou me linchariam em praça pública revoltados com o médico insensível que viu a paciente e o bebê morrendo e não fez nada? Saí desse plantão decidido a voltar para um grande centro, apesar dos pesares dos grandes centros. A prática de colocar os médicos como escudo para a má gestão não vem de hoje e se serve do ressentimento tão bem delineado pelo Paulo em seu excelente artigo. Esse programa mais médicos (assim mesmo, com minúsculas) é só a expressão rematada desse sentimento! Parabéns pelo artigo. Omar

  15. Luciano
    09/07/2013 at 20:00

    Paulo brilhante analise! Tudo que voce falou eu ja vivenciei na prática médica. Voce nao tem ideia como doi ver o governo colocar o povo contra quem luta todo dia com o minimo necessário para fazer uma medicina de qualidade questionável! Nao calcula como é dificil sair de uma condição de filho de pais funcionarios publicos (Mae inspetora de alunos e pai inspetor de obras do DER) lutar uma vida inteira e ver o governo fazer isso com quem lutou a vida toda! Te aplaudi de pé! Brilhante analise!

    • 09/07/2013 at 20:02

      Luciano, é isso! Experiência nesses casos conta.

  16. Luciano
    09/07/2013 at 19:55

    Paulo brilhante analise! Tudo que voce falou eu ja vivenciei na pratica medica. Voce nao tem ideia como doi ver o governo colocar o povo contra quem luta todo dia com o minimo necessario para fazer uma medicina questionavel qualidade!

  17. Gustavo Barata
    09/07/2013 at 18:17

    Para quem acha que a importação de médicos traria um aumento de qualidade na assistência, eu deixo um questionamento: Qual médico você acha que aceitará essa proposta e virá ao Brasil? O médico de qualidade – portanto bem-sucedido em seu país? Ou o médico que, por “algum” motivo obscuro, não conseguiu se fixar no mercado e está desempregado?

    • 09/07/2013 at 18:18

      Gustavo, esse raciocínio tão simples e fácil, que revela tudo, as pessoas não querem fazer. Foda né?

    • Gustavo Barata
      09/07/2013 at 18:40

      O governo, pra variar, só quer fazer números. Recentemente li – perdoe a falha, não me lembro onde, e odeio citar argumentos sem a fonte… – que o Brasil era o país que mais produzia doutores (doutorado) no mundo. Mas qual o alcance/qualidade/relevância da produção científica do país? Temos excelentes números, mas a qualidade… Que nem no teorema do economista: Eu comi um frango, você, nenhum. Na média, cada um comeu meio frango, a fome está erradicada.

    • 09/07/2013 at 18:59

      Gustavo, sem problema com fonte. Isso de fonte, para citações assim, é bobagem hoje em dia, pois todo mundo está na net e pode procurar.

  18. elisane
    09/07/2013 at 09:19

    Sou médica, e grata pelo texto Paulo. Embora certos comentaristas pareçam ler e não entender (será que leram mesmo?). Aos que falam em corporativismo e reserva de mercado, façam a gentileza de ler e tentar compreender algo desta situação sem usar de tamanha bobagem.

    • 09/07/2013 at 13:48

      Elisane, os comentários contrários, eu deixo aqui os que parecem querer debater. Mas há os que não deixo, que são de gente puramente desinformada e recalcada mesmo, o que confirma o que estamos vivendo.

  19. Lobato
    09/07/2013 at 01:49

    Paulo, a despeito das colocações de seu texto terem valia ou não, me responda uma coisa:
    Porque você sempre responde os comentário aqui com grosseria, ofensas rasas e suposições fantasiosas sobre a vida e os pensamentos das pessoas?
    Li todos e fiquei assustado com suas respostas aos discordantes. Não seria melhor receber de cabeça aberta as ideias contrárias para enriquecer o debate? Porque você as enxota? Porque teme a diferença de pensamento?

    • 09/07/2013 at 05:13

      Lobato, os discordantes ou concordantes muito burros eu não quero como meus leitores. Eu não sou político que precisa de voto. Eu gosto de leitores inteligentes. E eles são muitos, tanto é que vendo bem meus livros. Agora, leitor burro e, pior, chorãozinho porque é de fato burro e vem sendo chamado de burro desde o primeiro ano de escola, aqui não é o lugar dele. Sacou?

  20. Valmi Pessanha Pacheco
    08/07/2013 at 19:53

    Paulo
    Peço licença para concordar inteiramente com o seu texto sobre o ressentimento-inveja e, após 42 anos de serviços na Saúde Pública, ratificar expressamente os argumentos do LEONARDO SAVASSI e cumprimentá-lo pela concisão.
    Atenciosamente
    Valmi Pessanha

  21. GERALDO FONTE :.
    08/07/2013 at 12:41

    EU TAMBÉM SOU E PERGUNTO-LHES : CUBA COM APENAS DUAS FACULDADES DE MEDICINA, UMA FORMANDO 200 MÉDICOS POR ANO E A OUTRA 100 P/A. UM PAÍS PEQUENO TER 6.000 MÉDICOS PARA PODER CEDER AO BRASIL ? TANTOS MÉDICOS, PRECISARIAM DE NO MÍNIMO 20 ANOS CORRETO ? E PARA A SUA NECESSIDADE INTERNA, DE QUANTOS MÉDICOS PRECISARIAM ? ACHO QUE AO INVÉS DE MÉDICOS, O QUE ELES EXPORTARIAM SERIA OUTRA COISA… POR BAIXO DESSE ANGU MEUS AMIGOS, COM CERTEZA EXISTE MUITO CAROÇO … ESSA ESTÓRIA ESTA MUITO MAL CONTADA , GENTE ! AÍ EXISTE ALGUMA ARMAÇÃO DO NOSSO GOVERNO . . . PODEM CRER !!!

    • 08/07/2013 at 12:44

      Geraldo, não há armação nenhuma. É o que está no meu texto. Meu Deus!

  22. Adelcio
    08/07/2013 at 02:50

    Parabéns pelo texto! Gostaria que vc comentasse sobre a aprovação do projeto de Lei conhecido como Ato Médico pelo Senado nesse contexto.
    Parece que foi uma forma de reduzir a resistência à importação dos médicos cubanos, pois com exceção da classe médica todas as outras áreas da saúde são contra esse projeto.

    • 08/07/2013 at 03:10

      Tentarei ter tempo, obrigado pela sugestão Adelcio.

  23. jose sales
    07/07/2013 at 14:38

    Nos países mais adiantados observa-se infra estrutura desde o plantio das sementes, seu cultivo, armazenamento, estradas adequadas ao transporte para grandes centros, mercados bem abastecidos, aquecimento para as estações frias, manutenção do fluxo dos carros, ônibus que levam e trazem as crianças para as escolas e caminhões nas estradas mesmo durante as épocas com neve, linhas ferroviárias cruzando o país, saneamento básico, enfim tudo a funcionar a contento para que a população não fique desassistida durante todo o ano. Isto para que não se morra de fome ou de frio. Mas com todo este avanço a Medicina ainda pode deixar a desejar. Aqui no Brasil com seu clima tropical temos a fartura que nos deixou mimados pela natureza em relação aos alimentos que não nos faltam e às temperaturas muito baixas que nos obrigariam a plantar quando fosse possível, como ocorre na Alemanha por exemplo. isto para falar só do básico. Quanto aos médicos temos os melhores profissionais do mundo exatamente pela dificuldade que é não ter as infraestruturas básicas e necessárias a um diagnóstico mais acurado. Somos clínicos acuradíssimos com nossos diagnósticos sendo feitos nas pontas dos dedos ao examinarmos nossos pacientes através da palpação e ausculta, nosso raciocínio diagnósticoo que impressiona os pacientes estrangeiros ao serem examinados por nós aqui no Brasil. O problema não é a saúde no Brasil mas a saúde do Brasil, pois nos falta tudo que é relacionado à organização de uma infraestrutura digna de um país rico e abençado por natureza. A educação nos permite perceber a necessidade de criar as condições de saneamento básico, permitindo que a prevenção de doenças seja desenvolvida, mantendo a população saudável. Isto permite que o trabalho seja executado mais integralmente e os empregos sejam mantidos gerando mais lucros as empresas. Educação=Saúde=Emprego

    • 08/07/2013 at 00:38

      José Sales, de fato, sabemos que descuidamos da infra estrutura tanto no governo FHC quanto Lula. Este é nosso gargalo.

  24. Fabrício
    07/07/2013 at 10:13

    Renato:
    interior de Minas Gerais.Todos os meus amigos médicos que foram para os Rincões do Brasil sofreram estelionato político.Minha colega de plantão foi pata o agreste nordestino e pleiteia uma ação na justiça do Trabalho por 12 meses de trabalho que não foram pagos.
    No Maranhão só tem o centro histórico da família Sarney.custeado pelo estado,lógico.

    • 08/07/2013 at 00:40

      Fabrício, as pessoas querem penalizar os médicos, é um ódio psicanalítico igual ao que sentem pelo professor.

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