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28/02/2020

“Puta que o pariu”


“Puta que o pariu”

Qualquer governo que tome medidas contra o preconceito em relação às prostitutas está mais que correto. Poucos discordariam de mim quanto a isso. A discordância viria quando das medidas concretas. O cartaz da campanha que iria ser veiculada pelo ministério da Saúde continha os dizeres “Sou feliz sendo prostituta”. A frase é legítima na boca de uma mulher prostituta, mas pode não soar assim na boca do governo. Afinal de contas a prostituição, independentemente de juízo moral, é um trabalho com um nível de insalubridade de tal ordem que pode não parecer conveniente que o governo dê a entender que esteja apoiando a existência de tal coisa.

Desse modo, talvez fosse melhor outros dizeres ou, ainda, ações menos publicitárias em torno do assunto, e mais medidas concretas de apoio às “profissionais do sexo”, tomando como tal, ao menos em um primeiro momento, somente as pessoas que realmente entram em contato físico para “vender o corpo” (sexo via telefone, internet, atividade de streeper etc não entrariam no rol). De qualquer forma, da maneira que está não pode continuar. Há uma atividade nada diminuta no Brasil que tem a ver, de modo bem delimitado, com “sexo por dinheiro”. Sem regulamentação e apoio, isso amplia a indústria do crime, ou seja, a exploração de menores e a associação disso ao mundo das drogas etc. Todavia, já ficou claro que não é o caso do ministério da Saúde ficar com essa bandeira solitariamente, e nem mesmo capitanear qualquer ação. É preciso uma comissão interdisciplinar e interministerial para o caso.

Não adianta os conservadores berrarem contra o que estou dizendo. Eles não vão mudar isso nunca. Ninguém vai. Por quê?

turbinaQuanto de verdade suporta um homem? – eis a pergunta de Nietzsche.  O homem pode viver sua realidade sem burlá-la? Não há como escapar dessa pergunta. O homem consome drogas para trabalhar e para descansar. Mas só esse recurso não basta. Ele tem um mais antigo e mais eficaz. Ele fantasia para enfrentar a vida que não é fácil. Dentre as fantasias que temos, uma delas é a obtenção de prazer sem custos. O que significa isso? Significa ter sexo sem ter os custos comuns, que decorrem do envolvimento amoroso, que gera compromissos sociais que transformam o prazer em dor rapidamente. Assim, o custo em dinheiro se torna quase um custo zero diante desses outros custos que, enfim, nos jogam de volta à realidade da qual queremos fugir ao menos por uns minutos.

É a fantasia que gera o mundo da prostituição. Miséria educacional e econômica gera miseráveis, entre tais, putas miseráveis. Agora, a prostituição não tem uma ligação tão direta com a miséria, como certa esquerda gostava de argumentar no passado. A miséria precisa ser exterminada. Mas a prostituição existirá quando ela for exterminada. Nós todos não abriremos mão dessa via da fantasia, de sonhar com o amor sem amor e do sexo sem qualquer vínculo, algo que seja feito com um corpo universal, sem nome e, principalmente, isento até do perigo de vínculo da “ficada”, o “sexo casual”. O mercado da prostituição só vai aumentar no mundo todo, inclusive porque vai colocar cada vez mais mulheres do outro lado do balcão, como compradoras do sexo sem compromisso. Ora, como não vamos deixar de fantasiar, é bom que cuidemos dos objetos de nossa fantasia. Não vamos fazer isso sem o estado, mais uma vez.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Leitura indicada:

Scruton, R. Sexual morality. In: Halwani, R. (org.). Sex and ethics. New York: Palgrave Macmillan, 2007.

Ghiraldelli, Jr., P. Filosofia, amores e cia. São Paulo: Manole, 2011.

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14 Responses ““Puta que o pariu””

  1. acássio
    12/06/2013 at 15:15

    Puta tem que existir, até pq não é todo mundo que tem acesso ao mercado sexual e afetivo sem pagar. Os feios e excluídos do mercado de casamentos e namoros por razões de ordem física, mental ou econômica também merecem dar uma trepadinha.

  2. Diego Michel
    08/06/2013 at 12:40

    Concordo, Paulo, que esse amadurecimento virá, como tudo neste “mundo aparente” pela via do vir-a-ser, e, para que este vir-a-ser venha devemos conjecturar ao máximo, sopesar, de forma positiva.

    Obrigado!

    • 08/06/2013 at 14:11

      Diego, o mundo aparente é o mundo, o único mundo que temos. Não há caverna. Nem Matrix.

    • Diego Michel
      08/06/2013 at 16:33

      Sim, Paulo, o “mundo aparente” é o único mundo, o tangível, o concreto, o da efetividade!

      A alusão ao problema platônico foi proposital (como bem o Sr. percebeu). O “mundo aparente” é algo já superado, ao menos para mim, faço isso mencionando uma das premissas fundadoras e afirmadoras do mundo concreto, o vir-a-ser.

    • 08/06/2013 at 18:49

      Para mim Platão não está superado. Posso ser trucidado por ele, caso ele queira.

  3. Orivaldo
    07/06/2013 at 11:19

    A prostituição do texto não é essa da qual JUNIN fala. Ela fala dessa que, (não todo mundo como ela diz) uma grande parte da sociedade se submete pra sobreviver. A prostituição do texto é a das nossas queridas putas, que não abrimos mãos, essa que sempre existiu e sempre existirá, pra nossa alegria, mas que tem seu lado problemático e até perigoso tanto com relação a saúde pública como com relação ao lado bandido da sociedade. O problema agora é apenas encarar com realismo um fato pra que possamos descobrir o que fazer pra tratar do assunto da melhor maneira possível. Sem preconceito mas também sem apologia. E felicidade não tem nada a ver com tudo isso. Ou tem?

  4. Junin
    07/06/2013 at 00:49

    Todo mundo é “puta”. Todos dispomos do nosso tempo, corpo e saúde por dinheiro… trabalhando, gostando ou não da profissão.

    • 07/06/2013 at 08:21

      Junin, eu não sou. Portanto, sua ideia já fez água. Aliás, ela é inútil.

  5. Diego Michel
    07/06/2013 at 00:30

    Esperar que o Legislativo inicie medidas afirmadoras com relação à está profissão é tomar parte, de forma passiva, na situação.

    O Judiciário, então, nem se fala!
    Este sofre de um enorme problema, qual seja, uma “ignorantia” “ad infinitum” quanto ao que seja moral e ética.Confundem, incessantemente os dois, e, como se não bastasse isso (sendo que isso já seria um grande motivo para que eles fossem alvo variadas virulências teóricas), reverberam um discurso vestal-cristiano-ocidental falho, frágil, apequenado, vil, arrogando para si a moral, os bons costumes, o pastoreio, o rebanho etc.

    O Executivo ao invés de se posicionar significativamente, prefere iniciar campanhas que não dão garantias legais para o caso.

    Elas (as prostitutas) merecem, e muito, a nossa consideração, o nosso considerá-las como um dos grandes benefícios que o viver em Sociedade traz, porquanto vendem barato muito instante de esquecimento, devemos à elas a grande consubstanciação entre corpo e alma, que muitos homens não conseguem obter nas tais damas.

    • 07/06/2013 at 08:23

      Não entendi o “esperar”. Quem está esperando? Ninguém está esperando de esperar, mas há quem espere de esperança. Realmente nao entendi o que você quer. Se não for por tais vias, principalmente o legislativo, como seria? Um golpe da mão de Deus?

    • Diego Michel
      07/06/2013 at 14:46

      É assim, professor:

      Esperar que o legislativo regulamente a situação jurídica delas, a dizer, o reconhecimento de que se trata de uma profissão, não é viável.

      O Sr. não entendeu o meu esperar (claro, não expressei de forma clara, desculpe), que vai no sentido de o Legislativo agir em razão de sua função, “ex officio”, em suma, promulgar leis que façam a devida tutela com ênfase no âmbito trabalhista.

      Realmente elas (as prostitutas) estão fazendo “o que eu quero”, professor, que seja, recorrendo ao Poder Judiciário para que este se manifeste acerca da existência, ou não, de garantias trabalhistas e demais direitos ainda não reconhecidos para elas.

      Indiretamente o Legislativo está sendo provocado a manifestar-se sobre o assunto, digo indiretamente porque há mecanismos legais e extra legais para que o mesmo se posicione sobre assunto.

      Como bem o Sr. sabe não é atribuição típica do Judiciário criar leis e, como mencionei no comentário anterior, este mesmo Poder estatal está vicíado pela espectro da moral e dos bons costumes.

      Nos deparamos com uma situação em podemos provocar qualquer um dos Poderes do Estado e não o fazemos? O Sr. está agindo, mas e quem não possui esta acuidade, mas pode oferecer algo diferente? Está esperando, ou está agindo?

      Quanto a mão de Deus, com toda a certeza não iria ser, já que o antropomorfismo é mera convenção linguística, “Deus ex machina”? Menos ainda, já que até agora ele mostrou-se mais um fomentador da miséria do qualquer outra coisa, quem sabe um milagre no sentido contrário ao da Religião?

    • 07/06/2013 at 16:27

      Você não sabia que o agir do escritor ou do filósofo é escrever? Estranho sua visão sobre o agir! Aliás estranho todo o seu texto. A impressão que tenho é de uma distância fenomenal para com o cotidiano das instituições, pessoas e práticas. É tanta coisa acontecendo e você aí, achando que as pessoas estão olhando … somente olhando.

    • Diego Michel
      07/06/2013 at 19:16

      Ora, Paulo, eu mencionei que o Sr. está agindo, (e como está, afinal, estamos aqui dialogando justamente um assunto que o Sr. trouxe para o debate na condição de filósofo-escritor) mas adiante indaguei sobre se algumas pessoas estão agindo ou não, mas o agir da qual falo é um agir finalístico-transmutador-positivo.

      Os parágrafos anteriores do meu texto induzem a este agir do qual falo. As pessoas podem estar agindo, no entanto, esperando, mas como se dá isso? Da seguinte forma, quando tocamos em um assunto dessa natureza (a prostituição, a figura da prostituta) e estes opõe-se veemente contra alguma atitude que dê respaldo legal à elas, algo que as reconheça como pessoas humanas.

      Ai está o agir (no sentido de comportar-se, ter uma atitude tal), todavia, negativamente imposto, não transformador.

      Paulo, as pessoas das quais você fala, não sei ao certo se ou não, são o povo, o povo sim, tende a agir da maneiro como você diz, porém, o que se afigura na Pós modernidade(???), os homens-massa, ou a canalha, como ficou convencionado entre alguns, não!

      Estes tendem a se aglomerar mais e mais, formar uma pasta homogenia, que odeia tudo que lhes são alheio.

      Talvez, Paulo, o estranho não seja o meu texto, mas realmente seja a minha visão, porque, afinal, o cotidiano que se afigura perante os meus sentidos é essa acima demonstrado, as instituições que me rodeiam mostram um resultado duração extremamente fugaz, as pessoas, são as que eu acima mencionei.

      Se elas estivessem olhando, que bom que seria!
      Já que o com o contemplar você pode intuir uma visão mais ampla da realidade, uma interpretação menos mesquinha, mais humana, demasiada humana.Mas nem ao menos isso os homens-massa conseguem, Paulo.

      O olhar deles para com as prostitutas é um olhar aniquilador, pergunte aos homens-massa se eles desejam ver, se eles se mobilizam socialmente em prol do reconhecimento de garantias trabalhistas, por exemplo, para elas. Eles vêem nelas uma pessoa humana, ou uma meretrizes, pessoas de moralidade anormal, decaídas, barregãs, marafonas, rebanho pecador e tantas outras designações que as dignifique.

    • 08/06/2013 at 12:23

      Diego, como no casamento gay, o amadurecimento dessa questão não será da noite para o dia. O agir é este que está se dando. Não há muito o que fazer senão o que já vem sendo feito. Foi assim em todas as outras questões, ao menos na nova democracia nossa.

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