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24/03/2017

Prostituição, prática ou “quem somos nós afinal?”


Prostituição, prática ou “quem somos nós afinal?”

“Há vagas. Requisito: maior de 18 anos e experiência no ramo”. É assim que o sustento de cada um que não é rico mostra sua cara. O prato de comida diário é para quem já pagou algum prato de comida diário fazendo o que pretende fazer. Experiência, exercício na função ou, de modo mais apropriado, alguma performance.  Ninguém pode começar pelo começo em nossa sociedade.

O filósofo alemão Peter Sloterdijk, no interior da ideia de que o homem é construtor de sua própria humanidade, resolveu deixar de lado a formulação de que o homem se autoproduz pelo trabalho (Marx) ou pela comunidade de comunicação (Habermas) ou pela interação social (Dewey e outros pragmatistas), e em troca afirmou que o homem se autoproduz pelo exercício. O homem é homem em formação ou, melhor dizendo, em treinamento. O homem é o homem que pratica sua prática. Sloterdijk diz: “prática é definida aqui como qualquer operação que fornece ou melhora a qualificação do ator para a próxima performance da mesma operação, se declarada como prática ou não”.  Pode-se caracterizar o homem como “o ser humano ético” ou “homo repetitivus, homo artista”. (1)

Sloterdijk deve ter lido placas de emprego ou ficado algum tempo diante de “anúncios classificados” nos jornais. Quem é gente? Gente é quem repete amanhã o que fez hoje de modo a fazer melhor. Até mesmo as atividades humanas mais ligadas à criatividade e que, portanto, poderiam parecer imunes ao exercício, à repetição, se fazem pela experiência em termos de exercício e repetição de inúmeros procedimentos. É assim, por esse processo que envolve um profundo ascetismo, como bem mapeou Nietzsche e a quem Sloterdijk presta homenagem, que somos o que somos.

Essa tese de Sloterdijk pode nos ajudar a explicar muita coisa. Uma delas, que ele próprio não explora: o ressurgimento da prostituição.

A liberação sexual dos anos sessenta desaguou em uma baixa dos prostíbulos nos anos setenta em vários países. No Brasil, sem dúvida, os anos oitenta chegaram a apontar para o que seria o fim da prostituição. Hoje, ao contrário, convivemos com a explosão da ideia do “sexo por dinheiro”. Claro que o filósofo britânico Roger Scruton (2) tem razão quando diz que a prostituição está ligada à demanda por prazer sem o custo social e psíquico que envolve o sexo com conhecidos, com parceiros etc. Em um mundo em que a realidade é dura, fantasiar é algo que fazemos antes com o puro prazer que com o prazer puro. Todavia, isso não basta para explicarmos a razão pela qual hoje os jovens de classe média que podem ter a mulher que quiserem, voltam a procurar prostitutas. Vivemos em um mundo bem diferente daquele dos anos cinquenta: a virgem inexperiente não é mais atrativa. Pois o anúncio na vitrine é “Há vagas. Requisito: maior de 18 anos e experiência no ramo”.

Não é a moral que evoluiu, e isso nós podemos sentir na fala do jovem que admite a mulher “para casar” aquela que mentiu para ele dizendo só fez sexo com dois namorados. Ou ainda na ideia do jovem que chama de “vadia” aquela que faz sexo no primeiro encontro. O que mudou é que talvez agora, e por isso Sloterdijk toma como um tipo de caracterização transhistórica do homem, a prática enquanto exercício tenha adquirido uma universalidade e intensidade maiores, saltando aos olhos.

O homem é homem porque se faz na prática, no exercício que mostra performances melhores. A mulher é desejada se prova que se exercitou na arte do sexo e que pode dar prazer sem cobrar nada que não seja o dinheiro. O prazer não é fazer a mulher gozar (como a mulher diz querer, hoje em dia), o prazer é poder gozar com quem, sinta ou não alguma coisa, faz gozar, tem boa performance sexual. Os jovens não procuram mulheres mais velhas e experientes, eles procuram a profissional do sexo porque ela tem algo interno à experiência: o exercício. Elas são mulheres da repetição. São mulheres mesmo, de verdade. Como o Homem de Sloterdijk se mostra o verdadeiro.

O sexo já vinha ganhando aspectos médicos, higiênicos, e depois se associou ao visual do fitness. Agora, ele é o melhor se é o equivalente da prática da academia de “malhação”. Gasto de energia em função de uma cinestesia relaxante – isto é o sexo. De manhã, paga-se o personal training, à noite, a sexual personal training, em outras palavras, a puta. Não importa a idade, mas a experiência de quem faz o exercício e adquire então carteira de habilitação para oferecer serviços. Para certos esportes, gente muito jovem mostra a melhor performance. É como no anúncio: mesmo para começar, é necessário experiência.

Abre-se aí um leque de opções para a prostituição: todas as idades servem para consumo, todas as formas, de modo que aleijadas e vovós são tão queridas quanto pré-adolescentes, anãs e morbidamente gordas. Ninguém fica de fora dessa democracia. O requisito é o seguinte: propor-se a dar um tipo de prazer e cumprir com isso porque se aprimorou no treinamento para tal.

Ninguém mais é o que qualquer “psicologia da intenção” possa dizer. A melhor psicologia é a mais behaviorista possível. Somos o que nossos corpos em comportamento fazem e dizem. Somos mais bem entendidos assim porque decerto somos já isso mesmo. Subjetividades rasas, ontologicamente existentes ou não, isso não importa. Importa que elas se apresentem por meio de comportamentos e que, portanto, sejam de fato rasas enquanto o que se mostra pelo comportamento corporal. Ninguém quer saber o que pensa um acrobata, quer dele as acrobacias. Mesmo nas atividades em que o pensar é a própria acrobacia, é assim que ocorre. Que o pensar se mostre, então, como o que pode ser como o entretenimento: a dança ou o futebol se mostrando devem ser o modelo do livro que chega à livraria ou a conferência universitária fora da universidade – ou mesmo dentro.

Não à toa a disciplina Educação Física foi jogada às traças na escola. Ninguém mais precisa fazer exercício em uma determinada hora se a vida já é um exercício constante. Toda hora é hora de educação física. (2) Da puta ao cientista, que se apresentem performances. Eu as consumo e também eu me ponho nisso para que outros consumam o que mostro. Por isso essa sociedade dita “de consumo” não é só uma sociedade de produtos materiais que viram mercadoria, mas também de serviços que viram mercadoria. Serviços que se mostram. Serviços que são produtos que já surgem fora das caixas. Produtos visíveis. Então, uma tal sociedade do consumo é também, para ficarmos nos jargões, uma “sociedade do espetáculo”. Há um mundo de voyeurismo se pondo importante. O êxito da pornografia na Internet e o sucesso do reality show na TV podem nos dizer bem isso.

© 2012 Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

1. [2009] Sloterdijk. P. You must change your life. New York: Polity Press, 2013, pp. 4-1

2. Scruton, R. Sexual desire. London: Continuum, 2006.

3. Atentei para isso em um estudo anterior, publicado em Ghiraldelli Jr, P. O corpo – filosofia e educação. São Paulo: Ática, 2007.

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7 Responses “Prostituição, prática ou “quem somos nós afinal?””

  1. marcelo
    17/12/2013 at 18:40

    paulo você é um voyeur?

    • 17/12/2013 at 20:22

      Marcelo, que estranha preocupação comigo! Que curiosidade esquisita. Que tal arrumar um emprego?

  2. Rodrigo R Remedio
    18/06/2013 at 19:42

    Paulo, até que ponto podemos encontar a causa da sociedade de consumo numa economia de mercado capitalista? Digo “até”, para não cair nas velhos mantras que culpam o capitalismo por tudo. Em verdade mais que isso: a Economia não responde a essas questões e para alguém que não se formou folósofo, não é difícil terminar em textos de uma Marilena Chauí, por exemplo. Ainda que de forma incipiente, parece-me que sua argumentação nos seus mais diversos textos não vai por esse sentido, ao contrário: nunca te vi dizer que existe melhor forma de alocação de recursos que o o sistema de preços (embora saiba que isso não signifique que você não possa pensar assim). Enfim, a pergunta inicial, agradeço caso possa responder (e sugerir leituras).

    • 19/06/2013 at 03:50

      Rodrigo, quem sou eu para dizer que sociedade é melhor que não a nossa, com a liberdade que temos? Não posso dizer que quero outra coisa, posso dizer que quero uma versão melhor do que temos.

  3. Paulo Roberto
    11/06/2013 at 09:40

    Correção: “intelectual”.

  4. Paulo Roberto
    11/06/2013 at 09:39

    Excelente análise! Paulo, concordo com sua abordagem; e percebo que cada vez mais estamos nos acostumando com essa “performance”, seja no aspecto inbtelectual como qualquer outro; mesmo aqueles mais rasos. Muito bom!

    • 11/06/2013 at 15:49

      Paulo Roberto, creio que não fiz juizo de valor. Nem Sloterdijk faz.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo