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17/08/2018

Prostituição, invenção nossa anterior a nós mesmos


cão do mato africanoProstituição, invenção nossa anterior a nós mesmos

Aprendemos sexo social com o que foi o lobo que virou cachorro. O cachorro do mato é monogâmico. Dentro do possível, aliás, como nós. A esposa pode de vez em quando pular uma cerca, escondida, mas é muito difícil que a família se dissolva. Até o momento não há registro de pedidos de exames de DNA vindos de um papai cachorro do mato. Já primatas, de quem somos parentes mais próximos, não conhecem a monogamia. Conhecem o harém e a orgia. Conhecem também a prostituição, e creio que são os seus fundadores. Há uma espécie de macaco que come a carne de outros macacos menores, caçados não necessariamente para alimento, mas como presente de amor para a companheira. Pedaços de carne são roubados do casal pelos macacos menos fortes e são trocados por sexo casual. Duvido que se nós não tivéssemos morado com os cães teríamos tentado ser monogâmicos do modo que temos feito desde as primeiras civilizações.

Tentativa de monogamia e sexo por dinheiro – eis aí duas práticas tipicamente humanas antiquíssimas. Mas, olhando bem, existiram muito antes do “bicho homem” ter conseguido os aspectos do que se convencionou chamar de humano. A primeira parece ter sido aprendida com o nosso melhor amigo, a segunda parece ter sido inventada por nós mesmos, ou melhor, pelos nossos ancestrais hominídeos. Mas, seja como for, ambas estão lá guardadas no que há de mais socialmente primitivo em nosso aparato cerebral/mental. Não vamos nos livrar disso sem algum tipo de eugenia. Aliás, para que faríamos isso, se com essas duas práticas nós obtivemos sucesso evolutivo? Para satisfazer engenheiros sociais fascistas e estalinistas? Nem pensar! Não vamos trair nossos ancestrais por conta de gente de péssimo gosto e de moral pior ainda.

Sendo assim, é bom que tiremos o melhor proveito da nossa monogamia hipócrita e de nossa prostituição institucional. O problema é como fazer isso.

No Ocidente, claro, filósofos trágicos e filósofos cristãos ou judeus em geral tendem a ver perigo nos planejadores sociais que gostam de deixar tudo castradamente arrumadinho. Dizem isso. No entanto, como namoram o conservadorismo moral (aliás, o que os une a determinada esquerda), terminam por endossar certas práticas cerceadoras. Proibir não errado, o errado é proibir errado. Os planejadores ou engenheiros sociais adoram pregar a monogamia e abominar a prostituição. Não sabem que ambos são comportamentos arcaicos que não irão desaparecer. A monogamia sempre será burlada, mas, enquanto uma tentativa humana, jamais acabará. A prostituição institucional é produto nosso, de nossos avós com aparência de símíos, e não vamos jogar fora um tal patrimônio. Tudo que fizermos a respeito dessas duas práticas precisa ser pensada antes pela filosofia inteligente que pela engenharia social caolha.

Caolho é uma metáfora para univisual, pessoas que possuem somente um olhar e que não entendem sequer a palavra “perspectivas”. Em matéria de monogamia não há muito o que fazer (a não ser pensar em boas mentiras que, afinal, sempre terão perna curta), mas em matéria de prostituição, ter perspectivas é bom. Há o que fazer, e muito. Nenhuma pessoa com alguma consciência social pode viver tranquilamente sabendo que há um trabalho que diminui assustadoramente o tempo de vida do trabalhador. Ora, “sexo por dinheiro” é um trabalho desse tipo. Não é só por razões de culpa que nos preocupamos, embora esse componente tenha seu espaço na nossa inquietude da consciência moral e social, como qualquer Nietzsche nos ensinaria. Nossa angústia é também por razões de continuidade com o que chamamos de “civilização”. Temos ampliado os cuidados com variadas práticas humanas que formam o rol de profissões e atividades laborativas em geral. Deixando a prostituição fora desse rol estaremos nos mostrando moralmente mesquinhos, politicamente incompetentes e, enfim, ancestralmente traiçoeiros.

É mesquinhez moral deixar uma profissão sem direitos enquanto todas as outras ganham direitos. É incompetência política não conseguirmos organizar geográfica e historicamente a cidade de modo que ela se adeque à demanda por prazer, exigida pela fantasia sexual que é cultivada por uma imaginação que se tornou o último refúgio do excesso de realidade. Por fim, é um ato de traição para com nosso ancestral de aparência siamesca não honrar a prática inventada por ele, a de trocar carne de macaco menor por sexo – se é que podemos, como fazemos aqui neste texto, acreditar que nosso ancestral direto fazia o que certos macacos de hoje fazem.

Ora, sejamos humanos, vamos manter a evolução funcionando.

© 2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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One Response “Prostituição, invenção nossa anterior a nós mesmos”

  1. 07/09/2016 at 11:28

    Gostei.

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