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15/12/2017

Os filósofos e os protestos de junho


Os filósofos e os protestos de junho

Filósofos de esquerda como Marilena Chauí e Vladimir Safatle divergiram em suas análises do movimento de protestos. Pejorativamente, Chauí falou da “dimensão mágica” dos protestos, algo que derivaria do não domínio técnico e econômico da Internet por parte de seus usuários, levando em conta que a Internet, e em particular o Facebook, teriam sido o ponto de origem dos protestos. (1) Safatle, por sua vez, comemorou o que ele supôs que estivesse na ordem do dia do movimento de protestos, a saber, a democracia representativa. Apostou então na criatividade dos protestos, que segundo ele poderiam propor novas formas de organização ao se livrarem da representação. (2)

Não pude endossar a tese da professora Marilena, claro, porque não vejo como afirmar que há algum impedimento em se combinar protestos pela Internet só porque não se é o seu dono. Argumentei que, se o que ela disse tivesse base, também o livro não seria um veiculo de comunicação nosso, dos filósofos que ajudaram revoluções com suas publicações. Afinal, não somos donos das editoras! (3)

Também não endossei a tese de Safatle, uma vez que o movimento de protestos questionou a representação atual, não o princípio da representatividade na democracia representativa. Os manifestantes disseram claramente que estavam cansados de partidos políticos e coisas do gênero, mas poucos deles afirmaram que nunca mais votariam em alguém. Não disseram, também, que por causa do movimento ter uma certa horizontalidade e uma ojeriza às vanguardas, a forma de governo exclusivamente “das ruas” seria a melhor maneira de administrar o Brasil. Safatle se empolgou. Aliás, se estivesse certo, aí sim o movimento teria de parar o protesto e começar a pensar em como criar uma democracia de base direta no Brasil – coisa que eu duvido que alguém saiba como fazer para além dos mecanismos mistos que conhecemos, e que até foram propostos por Joaquim Barbosa. (4)

Os protestos chegaram tardiamente entre os filósofos conservadores. Menos afoitos que a esquerda, talvez eles tenham esperado as coisas se acalmarem para dar seus palpites. Denis Rosenfield e Luiz Felipe Pondé, que até já chegaram a escrever livro juntos, com o sugestivo título “Por que viramos à direita” ou algo parecido, tomaram caminhos diferentes. Rosenfield escreveu entusiasmado com tudo que ocorreu. Praticamente deixou a filosofia de lado para comemorar o antipetismo que enxergou no movimento. Esse antipetismo foi, na verdade, uma parte do antipartidarismo em geral que esteve de fato presente nos protestos. Rosenfield notou isso, mas tomou tal coisa como não tão importante diante da possibilidade de vibrar diante da visão de bandeiras do PT queimadas pelos manifestantes.

Diferentemente, Pondé se aproximou da análise de Safatle, ou melhor, praticamente endossou a análise do seu colega de Folha de S. Paulo. Também ele viu no movimento alguma possibilidade de fazer surgir seriamente uma crise de legitimidade da democracia representativa. Todavia, enquanto Safatle olhou para tal coisa com esperança alegre, Pondé, não de todo correto, assimilou a perda de legitimidade da representatividade como necessariamente um caminho de violência, e então fez as advertências de praxe para um conservador moderado.

Nesse caminho, Pondé trouxe Hobbes, Rousseau e Tocqueville para a sua exposição. (5) Deu ao primeiro um caráter muito mais totalitário do que o verdadeiro, e expôs Rousseau como que possuindo um caráter unicamente revolucionário. Tudo isso para abraçar Tocqueville. Nesse caso, criou aquilo que, não raro, eu denuncio em alguns artigos do Pondé: a caricatura. Nem sempre ele bate no adversário sem antes torná-lo já derrotado ao mostra-lo desenhado antes pelo chargista que por um retratista cuidadoso. Às vezes isso até ajuda. Mas, na maioria das vezes, atrapalha sua própria argumentação.

Hobbes diz claramente em sua teoria que o governado, mesmo tendo cedido ao contrato e conferido direitos absolutos ao Príncipe, se este falta com seu dever de chefe de estado e de seu protetor público, há legitimidade na rebeldia do súdito, aliás, surge aí até o dever de rebelião. Pondé nada fala sobre isso.

Rousseau não possui apenas uma via de leitura. Quando ficamos atentos a Kant, vemos que ele lê Rousseau como um reformista que quer mudanças pela via da educação. Quando lemos Engels, vemos então que Rousseau pode muito bem ser entendido como alguém que também toma a via revolucionária como caminho de mudanças. Isso não é nenhuma novidade. Vários intérpretes de Rousseau notaram isso que noto aqui.  Pondé também nada fala sobre isso. Aliás, já se tornou um lugar comum em seus artigos ele querer condenar o marxismo revolucionário por meio da condenação de Rousseau, o que, a meu ver, é um entendimento excessivamente unilateral do genebrino e, não raro, uma via assumida também pela esquerda que Pondé execra.

Até aqui, esse é o quadro das manifestações de alguns filósofos que foram à mídia para opinar sobre os protestos. Outros textos, no entanto, foram menos ideológicos. Artigo bastante analítico veio do Rio de Janeiro, pelas mãos de Luiz Eduardo Soares. Mas o leitor que não tiver paciência pode pegar a ideia central nas entrevistas desse pensador com o qual compartilho um passado semelhante quanto ao vínculo com Richard Rorty. (6) Não caberia falar de Soares aqui, mas sugiro ao leitor que o procure.

Da minha parte, não fui apenas um observador, mas um participante nos protestos, e diferentemente dos colegas citados acima, fiz mais de um artigo sobre o assunto, notando filosoficamente que os protestos poderiam ser chamados de “a revolução do indivíduo”. (7)

Por enquanto, salvo alguns outros colegas que, talvez, eu possa abordar em outros textos, este é o mapa que faço a respeito das falas nossas, de filósofos, sobre o movimento que mudou a agenda política brasileira de um modo bem diferente de outras mudanças passadas.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

1. O inferno urbano e a política do favor, tutela e cooptação. (Marilena)

2. Sem partido (Safatle)

3. Marilena Chauí e o pensamento mágico dos jovens no protesto (Ghiraldelli)

4. O fator Barbosa e a democracia representativa (Ghiraldelli)

5. A química da democracia (Pondé)

6. Vídeo de Luiz Eduardo Soares no Saia Justa e também entrevista em periódico.

7. A revolução do indivíduo (Ghiraldelli)

VEJA O VÍDEO

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35 Responses “Os filósofos e os protestos de junho”

  1. Telos
    08/07/2013 at 14:34

    O problema do Francisco Oliveira é que ele investiu uma década tentando provar que o brasileiro é o que o Sergio Buarque de Holanda falou que ele era – na média -, ou seja: o homem cordial, sempre propenso a dar um jeitinho nas coisas e se acomodar.

    Ai que mora o problema do F. Oliveira, pois tudo que ele vem falando faz 2 anos caiu por terra com as manifestações.

    • 08/07/2013 at 15:23

      Telos, o Chico é socialista véio. Tá mais por fora que o pau das nega do Frota.

  2. Alvaro Luiz
    07/07/2013 at 23:08

    “As manifestações não foram nada demais”, diz o sociólogo Francisco de Oliveira

    Em entrevista ao iG, Oliveira admite desconhecer os motivos dos protestos e diz que eles não mudam nada no cenário político do País: “Nem Reforma Política engatou”

    http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2013-07-07/as-manifestacoes-nao-foram-nada-demais-diz-o-sociologo-francisco-de-oliveira.html

    • 08/07/2013 at 00:36

      Oliveira já mostrou, em suas críticas ao PT, que está gagá faz tempo. O cara sai do PT não progredir, mas para voltar ao pensar em coisas tão ruins quanto aquelas que levou o PT a fazer coisas ruins.

  3. gabriel
    04/07/2013 at 22:14

    Esse Fardado e esse Julio nao tem nocao do que é a vida,Paulo. Nao sabem oquanto é difíci ser medico e ser professor no BRasil. Tem gente que parece q nao precisa de dinheiro pra sobreviver. Gente doida

    • 05/07/2013 at 06:57

      Gabriel, esse Fardado e esse Júlio devem ser avatares vazios, de neguinho que vem aqui tentar criar polêmica. Não pode ser sério.

  4. Fardado
    04/07/2013 at 16:01

    Sou a favor de médicos de fora. Falta médico no Brasil, a medicina é por demais elitista. Precisamos de médicos nos postinhos de saúde e nas cidades pequenas. Em todos os países do mundo temos médicos estrangeiros. Na Inglaterra 30% dos médicos são estrangeiros. É preciso abrir o mercado e acabar com a máfia de branco que domina o Brasil.

    • 04/07/2013 at 17:10

      Fardado, ainda dá tempo de raciocinar. Tente, se informe. Pare de falar coisa tola. O governo não pagou os médicos que foram para o interior.

  5. gabriel
    04/07/2013 at 00:25

    Paulo o q vc acha do plebiscito que está pra ocorrer, e dos médicos que virão de fora do paîs?

    • 04/07/2013 at 01:14

      Gabriel, os médicos só virão em último caso, e isso é mais uma vitória dos protestos. Mas hoje já ocorreram mais protestos dos médicos – corretos.

    • Julio
      04/07/2013 at 18:10

      Paulo, tomei conhecimento de um dado interessante. O Brasil ampliou muito o seu gasto com educação nas últimas décadas e já gasta hoje cerca de 6% do seu Produto Interno Bruto (PIB) com a área. É a média da OCDE e mais do que muitos países ricos gastam relativamente ao PIB com educação. Queria que vc comentasse isso. O problema da péssima educação no Brasil, então, não seria muito mais de má aplicação, de mau gasto do dinheiro público, do que outro? Aumentar consideravelmente o salário dos professores não seria pouco eficaz?

    • 04/07/2013 at 18:19

      Júlio, sua última frase faz eu perder a motivação de comentar. Depois de tudo que tenho escrito, eu ver que ainda tem gente que vem aqui escrever isso, me deixa nocauteado. Porra, será que você viveria com 800 reais, heim ô caralho?

    • Julio
      04/07/2013 at 18:40

      Não seja dogmático. Foi só um questionamento.

      Vc sabia que o Brasil é o 15° que mais gasta com educação em relação ao PIB. À frente, inclusive, de Suíça, EUA, Reino Unido e Japão. Este último gasta só 3,8% do seu PIB na área. Será, então, válida a proposta de 10% do PIB para educação? Não deveríamos pensar essencialmente em otimizar o que já é destinado à educação?

    • 04/07/2013 at 19:27

      Júlio, nao use palavras cujo significado não é o correto. Dogmático não se aplica ao que ocorreu. Em nennhua acepção. A resposta para sua pergunta, agora que você, ainda que meio sem pensar, resolveu retirar a parte do salário dos professores, é “não”. As necessidades de países subdesenvolvidos como o Brasil exigem três vezes mais o gasto dos países onde tudo corre normalmente em termos culturais.
      Agora, quando quiser realmente refletir sobre educação, sem usar adjetivos comigo, dado que não é a melhor forma de fazer perguntas, tente responder para você mesmo se você viveria com 800 reais.

    • Julio
      04/07/2013 at 20:29

      Salário inicial de professor no Brasil é maior do que 800 reais. Mas vc acha factível pagar entre 3 e 5 mil reais (faixa salarial sugerida por vc) para os professores do ensino básico, considerando que o gasto público total, incluindo o déficit público, já é de cerca de 40% do PIB? E quanto à remuneração dos policias e demais servidores, e quanto ao salário mínimo? Como lidar com todas essas demandas? Percebe que a coisa é muito complicada, pois o cobertor da despesa do estado é demasiado curto, malgrado a elevada carga fiscal brasileira? Não estou dizendo que os professores não devem ganhar bem. Sou até simpático à causa salarial destes profissionais. São apenas questionamentos que devem ser feitos.

    • 04/07/2013 at 21:06

      Júlio, por que conversar comigo, um estudioso do assunto, macaco velho, falando bobagem como essa aí do salário? Que tal ler e estudar antes de me encher o saco? Na maioria dos estados, nem o piso de 800 se paga. Aliás, em alguns lugares, não se paga! Acorda, estuda, e daqui uns meses você volta.

    • Julio
      04/07/2013 at 21:54

      Espero que não vocifere com o que vou dizer, mas parece que está tergiversando.

    • 05/07/2013 at 07:00

      Júlio, meu tempo é para gente séria. O que você vem fazer aqui é tentar gastar meu tempo. E quando eu vejo que o carinha que vem aqui não quer aprender, eu largo de lado. Pois meu tempo é para os que querem aprender. No seu caso, os leitores aqui já desistiram. Só ficou eu, mas agora chega. Melhore e depois volte.

  6. Julio
    04/07/2013 at 00:13

    Paulo, por que vc raspou a cabeça?

  7. Thompson
    03/07/2013 at 15:35

    Paulo, grande texto e excelente trabalho você vem fazendo. Tenho mesmo que agradecer!

    Talves se não fosse acompanhando todas suas analises eu já teria sucumbido diante de tanto argumento confuso por parte de Intelectuais e educadores.

    Inclusive, acabou de acontecer um fato muito engraçado, que mostra a alucinação por parte daqueles que não deveriam estar alucinados

    Um Professor de ensino médio comentou no facebook que Dilma poderia ter comprado o resultado do jogo para acalmar as massas.

    Achei uma completa bobagem e comentei simplesmente espondo minha interpretação, que é a de alguem que não quer olhar para o futebol como instrumento de alienação, mas sim como um momento de lazer, aliais não posso acreditar que as pessoas nas quais convivo todos os dias, sejam tão irracionais quanto ele quer sugerir!

    O resultado foi muito estranho… ele deletou todas as postagens de mesmo carater, mas não por ter mudado de opinião… Ele deletou para evitar o dialogo ou talves o tenha feito como forma de me censurar… não sei ao certo, mas acho muito estranho um educador que não conversa!

    • 03/07/2013 at 15:44

      Thompson, o cara não quer raciocinar. Se tivesse comprado o jogo, alguém saberia, e então, falaria com os jogadores, e o mal estar cairia ao menos em parte da equipe. Além disso, vimos o jogo, é preciso não saber nada de futebol para dizer que o jogo não foi disputado. Em que mundo o cara vive, nos anos 30? Ora, mesmo naquela época, as maracutaias vazavam, imagine agora, onde até a CIA não consegue mais guardar segredo?

    • Thompson
      03/07/2013 at 16:47

      É verdade, Paulo.

      E ainda que fosse verdade… o resultado o jogo mudou alguma coisa? Acabou com os protestos? Resolveu nossa insatisfação?

      Muitas vezes eu fico com impressão que esse tipo de gente quer mesmo é reclamar do Futebol, parecem adolescentes Haters!

  8. Fardado
    02/07/2013 at 19:16

    Se tem um recado evidente deixado pelas manifestações nas ruas, é a urgência de uma nova democracia. Acostumados com o acesso horizontalizado a tudo e a todos, por meio de um click, uma multidão de mãos foi às ruas para interferir na realidade, mas não encontraram muitos espaços onde pudessem atuar. Então foram impondo esta participação, empurrando a realidade pra frente, e interferindo diretamente nela. Mas, para que esta interferência continue acontecendo, precisamos criar canais de participação popular, que possam de fato possibilitar esta interferência, cotidiana, na sociedade. E isto exige uma nova democracia.

    Viviane Mosé

    • 02/07/2013 at 19:45

      E isso que faz com que não dê vontade de comentar. Qualquer um escreveria isso. Qualquer garoto de colégio. O sujeito pensa que pode falar qualquer coisa, que na boca dele fica importante: “nova democracia” “criar canais de participação popular”. Puta merda. Quem não diria isso. Um menino de colégio não, uma menino de ginásio.

  9. Andre
    02/07/2013 at 15:11

    Professor,

    e quanto aos filósofos Marcos Nobre e Joel Pinheiro da Fonseca,o senhor poderia comentar sobre textos deles ou até convidá-los para o programa Hora da Coruja?

    Abraço.

    • 02/07/2013 at 16:33

      André, não vi os textos. Não os conheço e nem tenho contato. Caso você tenha, fale com a Fran, que é a produtora.

  10. Julio
    02/07/2013 at 13:40

    A Marcia Tiburi também falou dos protestos.

    • 02/07/2013 at 16:37

      Júlio,e vale a pena ler?

    • Julio
      02/07/2013 at 17:35

      Por que não valeria?

    • 02/07/2013 at 17:57

      Por que nunca sai de algo simplório,nada de curioso ou filosófico!

    • Julio
      02/07/2013 at 18:37

      Esse Denis Rosenfield não é um xarope que foi no programa do Jô e defendeu o direito de ser idiota?

    • 02/07/2013 at 19:45

      O próprio.

  11. Marco Vasconcelos
    02/07/2013 at 07:02

    Excelente iniciativa,professor. Sistematização absolutamente necessária para se entender, minimamente, de forma abrangente e ampla, a onda de protestos no Brasil.Valeu!

    • 02/07/2013 at 11:23

      Marco, o Hora da Coruja de hoje, não esqueça, ao vivo!

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