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28/02/2020

O que é e no que vai dar nosso movimento de protestos


O que é e no que vai dar nosso movimento de protestos

Ao contrário de uma boa parte dos analistas da “primavera brasileira”, minha visão não é a do não participante que se informa através de outros não participantes. Meu engajamento é o de filósofo e cidadão – principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro. Minha compreensão está na contramão do que tenho recebido de parte substancial da imprensa.

A imprensa se mantém preocupada demais com “os vândalos”, ou para condenar ou para dizer que “não é bem assim”. Também coloca o foco na polícia, afirmando-a “despreparada” e “violenta”, em especial quando atinge repórteres. Lá do interior das manifestações, no entanto, tudo isso importa bem menos. A polícia nem sempre é violenta e, quando é, não está “despreparada”. Segue ordens e ataca exatamente segundo o seu preparo: nossa polícia foi feita para bater em pobre, negro e desescolarizado. Fez a mesma coisa, só que agora com grupos não tão pobres, não tão negros e não tão desescolarizados. E fez o que fez com todos, e não com os tais “vândalos” que, aliás, atuaram bem menos do que apareceu na TV. As TVs fizeram questão de filmar fogos em papelão, coisa insignificante, com as câmeras abaixadas, dando a impressão de grandes labaredas e de “terra arrasada”. Muita imagem, pouca verdade.

Outro escorregão dos analistas foi forçar a terminologia velha para o fato novo. As noções carcomidas de direita e esquerda não se aplicam aos movimentos de protestos dessa nossa “primavera”. São movimentos não conservadores, mesmo que aqui e acolá possam conter pessoas que defendam a pena de morte ou mesmo a destituição de Dilma Rousseff por meio de um tipo de golpe de estado, seja lá de onde venha. O não conservadorismo do movimento tem um claro viés libertário, no sentido político da palavra. Caso o movimento fosse politizado no sentido tradicional, poder-se-ia dizer, sem errar, que o que se vê é a vitória de um espírito do anarquismo associado a um espírito social democrata sobre o marxismo e outras formas de vanguardismo de esquerda. Ninguém na manifestação morre de amores pelo PT e talvez até menos pelo PSDB e PMDB. O PSOL achou que seria o seu momento, mas seus militantes foram “aconselhados” a não levantar bandeiras.

O que salta aos olhos de quem está no contexto da participação é que o movimento não é organizado de fora, previamente, nem tem palanque, é realmente horizontal e segue a determinação dos indivíduos e de seus encontros passados, às vezes de anos, em grupos de conversa na internet. Trata-se da “revolução do indivíduo”. As pessoas se reúnem sem a hierarquia prévia a que estão acostumados os militantes partidários.

O resultado do movimento, em termos objetivos, eu não sei e ninguém sabe. Em termos subjetivos eu sei. Ocorrerá de forma bem mais radical do que nas “Diretas Já” e no “Fora Collor” uma ampliação de leitura por parte dos jovens participantes e uma melhoria do desempenho deles na escola. Todo mundo lê mais em épocas de agitação política. Os professores verão isso na sala de aula, durante algum tempo, até essa geração participante ou semi-participante deixar a escola. E todos os inteligentes dirão: “valeu a pena, eu fiz a história do meu país”.

Paulo Ghiraldelli Jr., 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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6 Responses “O que é e no que vai dar nosso movimento de protestos”

  1. Doni
    24/06/2013 at 00:27

    Um dos melhores cartazes que vi foi “Não quero direita nem esquerda, quero ir prá frente”, que acho que sintetiza o sentimento de uma boa parcela dos manifestantes.

  2. acássio
    23/06/2013 at 23:19

    Paulo, mais não corremos o risco de repetir 1964 com um golpe militar apoiado pelas elites. Tenho uma amiga petista que está receiosa de um golpe contra o governo da Dilma.

    • 24/06/2013 at 05:31

      Acássio, o PMDB, para conter o PT nas Diretas Já, falava a mesma coisa. Só um bobo acreditaria que há clima para militar tomar o poder. Nem geopolítica para tal. Meu Deus, diga para sua amiga petista que ela é burrinha.

  3. Ana
    23/06/2013 at 15:45

    Tava falando isso ontem… de tudo que tenho lido são poucas as pessoas que têm feito essa leitura libertária desse nosso momento. Tarso Genro na verdade instruiu as esquerdas a isolarem os anarquistas minando sua influência (?) nas manifestações que, segundo ele, promove uma ação direta antidemocrática e irracional que abre caminho para o fascismo. “Todos os partidos e pessoas, inclusive os de ultraesquerda, tem de ajudar a combater isso. Ninguém sobrevive a isso. Todos sucumbem”. Medo. Muito Medo.

    http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/politica/noticia/2013/06/tarso-avalia-que-minoria-fascista-dominou-as-manifestacoes-de-rua-4177563.html

    Essa esquerda institucionalizada precisa entender que não há grupo libertário por trás das manifestações. Não há ninguém por trás das manifestações! Esquerda ou direita, ninguém dá conta disso. Essa movimentação orgânica e anarquicamente coordenada, como bem disse, trata-se da Revolução do Indivíduo; assustadora porque poderosíssima! E te digo filósofo; como anarquista achei que nunca a experimentaria. O que vi na Alerj e no dia último dia 20… puta. Isso é História. Em contraste, a vitalidade da manifestação libertária realça ainda mais como essa política institucionalizada é carcomida… cheira a mofo.

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