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27/06/2017

O que é a “revolução do indivíduo”?


O que é a “revolução do indivíduo”?

Protesto do indivíduoNão há casa comercial que não queira colocar na TV uma propaganda a respeito do quanto pode oferecer “serviço personalizado”. A TV propagandeia aquilo que se casa com a necessidade de nossos tempos de sermos tratados não como número, uma vez que de fato somos número. De uns tempos para cá, temendo que alguns percebessem essa estratégia como um truque afrontoso, as empresas resolveram embutir a propaganda no próprio objeto ou serviço: nasceram coisas como o PC e o PT, personal computer e personal training.

O marketing contemporâneo aprendeu a apostar na noção de indivíduo, no gosto das pessoas do nosso tempo de serem indivíduos. A noção moderna de indivíduo inclui entre suas possibilidades a noção de sujeito, ou seja, o indivíduo que se individualiza porque é cognitivamente autônomo e moralmente responsável. É um conceito em filosofia e também uma típica noção liberal, nem sempre criticada pela esquerda de uma maneira produtiva, culturalmente enriquecedora. Marx atacou o liberalismo porque entendia que este prometia colocar na face da Terra o indivíduo iluminista mas, de fato, não poderia realizá-lo. O liberalismo não poderia cumprir sua promessa, uma vez que estando atrelado ao capitalismo não permitiria qualquer autonomia ao indivíduo e, então, funcionaria apenas como peça ideológica.  No entanto, os marxistas em geral não seguiram Marx nisso. Eles fizeram uma crítica menos promissora.

Não à toa Marx se dizia não marxista. A esquerda marxista resolveu não seguir Marx no que ele tinha de melhor. Tratou o liberalismo como doutrina ideológica, sim, mas o fez não pelas promessas irrealizadas, e sim de modo absoluto. A esquerda se tornou mais próxima da crítica da direita, dos conservadores, substituindo “indivíduo” por “individualismo” para, em seguida, tornar esta última palavra pejorativa e então contaminar com ares pecaminosos a primeira palavra. Querer ser um indivíduo foi tomado como um erro, uma vez que todo e qualquer indivíduo nada seria senão cultivador e fruto do individualismo.

O que a direita queria era jogar fora a autonomia. Como nunca foi muito sofisticada nos seus atos, a direita chacoalhou o objeto e, vendo que a autonomia parecia não se desgrudar da noção de indivíduo, jogou fora tudo. A esquerda foi no embalo. Afinal, no campo da mentalidade popular os partidos fascistas e os partidos comunistas começaram a ficar parecidos na sua pregação antiliberal. Não foram poucos os militantes que oscilaram entre estar em um em um ano e estar em outro no ano seguinte. O que importava para essas pessoas era ficar contra o “individualismo” da democracia liberal. O liberalismo foi tomado por tais pessoas como a doutrina do darwinismo social. Liam a doutrina da democracia liberal como que carregando a bandeira do “cada um por si e o estado para ninguém ou só para os ricos”. Essa forma de tratar o liberalismo, principalmente nos anos trinta do século XX, trouxe para a direita e para a esquerda uma massa de ressentidos e fracassados. A direita se tornou belicosa com as elites tradicionais do dinheiro e da cultura e a esquerda fez a mesma coisa, propondo o que Marx havia condenado e rechaçado como sendo o que chamou de “comunismo de inveja”. Elas conquistaram para suas fileiras antes os derrotados que a parte melhor da sociedade.

Talvez a velha esquerda americana, como Richard Rorty a caracterizou em Para realizar a América (Rio de Janeiro, DPA), tenha sido a única facção política não conservadora que prezou tanto a liberdade quanto a igualdade, e não somente a última, e realmente fincou pé a respeito da importância da valorização do indivíduo. A educação americana de caráter protestante e os valores liberais dos Estados Unidos, uma vez sólidos por conta da maneira como se deu a colonização e a Revolução Americana, talvez tenha ajudado a esquerda daquele país nessa tarefa. Todavia, fora dos Estados Unidos, a esquerda nunca se reconciliou semanticamente com o “indivíduo”.

As doutrinas da direita fascista e da esquerda totalitária perderam sentido com o tempo. A primeira foi derrotada pelas armas na Segunda Guerra Mundial e a segunda caiu sozinha, não de madura, mas de podre, o que ocorreu na Queda do Muro de Berlim e no fim da URSS. A noção de que o liberalismo seria apenas uma ideologia perdeu força. E quanto mais a própria força do mundo econômico quis transformar o indivíduo em alguma coisa marcada pelo número, pelo abstrato, e não pela personalização, ou seja, pela marca da autonomia, mais o ideário ocidental fez seu trabalho, dizendo às populações: “nada disso, o mundo atual transforma você em um número, mas a minha empresa, o meu negócio, a minha política, o meu partido, a minha casa ou eu mesmo o tratam você como indivíduo, como pessoa”.

Alguns poderiam dizer, então, como de fato dizem: “estão vendo, o liberalismo é de fato uma ideologia, ele engana”. Creio que não são poucos os que acreditam nisso. No entanto, as pessoas em geral resolveram mudar de opinião a respeito das propostas de solução desse problema, de como tomar o liberalismo ou, principalmente, a questão do indivíduo que está em seu interior. Sem o saber, elas voltaram a Marx, ao menos em parte. O fim do comunismo, a redemocratização da América Latina, o fim do Apartheid na África, a constante denúncia de grupos americanos contra a oligarquização e militarização no interior da maior e mais perfeita democracia do mundo (Wikileaks e coisas similares), a ampliação de direitos civis na Europa (casamento gay etc.) são gritos de liberdade individual. É como se todos tivessem acumulado a experiência dos tempos e posto na cabeça da juventude o seguinte lema: vamos querer o que Marx disse, ou seja, o que ele mesmo também disse que era impossível: “vamos cobrar do liberalismo que ele realize aqui e agora o indivíduo, e isso sob o regime econômica capitalista”. Ou então: “vamos jogar a democracia liberal contra aquilo que se imaginou ser seu irmão gêmeo, o capitalismo”.

Claro que há quem não grite isso. A evolução animal é assim mesmo: todos nós sabemos que em Madagaskar há espécies de animais que são bem próximos dos antediluvianos. Pedaços do passado se prendem ao novo: olhem para o nosso corpo, para o chamado apêndice, que só serve para nos dar apendicite, e entenderão tudo. Há comunistas e fascistas em grupelhos. Existem apenas para que velhas piadas possam ser contadas de modo que os mais jovens digam “não entendi”. Mas a maior parte dos jovens que protestam no mundo todo hoje, ainda que aqui e acolá andem com algum Marx na camiseta, tem nas veias antes sangue libertário que totalitário. Aliás, é interessante que até a direita (ou parte dela) tenha se tornado libertária. Robert Nozick vendeu livros quase como um romancista ganhador de Nobel entre 1970 e o final do século. Muitos jovens entre o final dos anos oitenta e início do século XXI se apaixonaram por propostas filosófico-políticas ditas “neoliberais”, muitas vezes apenas para se colocarem em oposição à social democracia que, por um entendimento a meu ver errado, foi tomada como culpada da crise europeia e americana. Ainda há os economistas, sociólogos e até filósofos que culpam, injustamente, o Welfare State, de ser o provocador de crises que, pelo meu entendimento de vários outros menos fechados doutrinariamente, foram produzidas pelos engodos do sistema financeiro.

Vivemos hoje no Brasil exatamente no interior disso que chamo de uma mudança topológico semântica. Queremos tomar a palavra “indivíduo” segundo o conceito da filosofia iluminista, ainda que lambuzada de romantismo, e não mais temos sob a cabeça a regra da mera denúncia da palavra “indivíduo” como peça ideológica. Não adianta os conservadores de sempre virem nos perturbar por colocarmos nossas fotos e nossa vida privada no Facebook. Queremos aparecer como indivíduos. Eles, os que reclamam disso, que aprenderam a ser recatados, que fiquem de fora. Recato de conservador é sinônimo de hipocrisia. Nós não vamos por aí, pelo caminho do recato. Nós somos os que fizemos da Internet um campo no qual o “indivíduo” e o “capitalismo” podem se acotovelar, mas terão de aprender a conviver se acotovelando ou não. Nós acreditamos no impossível, que existirá o indivíduo se quisermos que exista. Fizemos nossos protestos começarem pela Internet não à toa. Fizemos isso a despeito dos conservadores e dos carcomidos, ou seja, da direita e da esquerda.

No mundo todo, e também no Brasil, os maiores protestos têm vindo da Internet para as ruas e vice-versa, e a isso eu tenho chamado “a revolução do indivíduo”. Estão completamente enganados os que acreditam que não queremos a democracia porque não queremos chefetes, vanguardas, partidos arcaicos e formas de política em que a regra é o engodo. Queremos a democracia, sim, exatamente porque não queremos essa parasitologia agregada. Saímos às ruas como cão sai do banho. Não vamos voltar para casa, porque cão é um bicho rueiro. Podemos parar de latir e então acharão que nós estamos satisfeitos, mas então, morderemos sem latir.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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20 Responses “O que é a “revolução do indivíduo”?”

  1. 29/06/2013 at 17:08

    Meu caro Ghiraldelli, o seu conceito de “revolução do indivíduo” é interessante…Todavia, como falar nessa “revolução” num mundo onde o controle da mídia, do poder econômico e político, enfim, todos os grandes poderes estão concentrados nas mãos de poucos poderosos? E eles permitirão passeatas de indivíduos até o limite a partir do qual podem oferecer algum risco real para o sistema. Aí o bicho pega de verdade e ninguém poderá deter a força da repressão, a não ser que estejamos de fato organizados.

    • 29/06/2013 at 18:21

      Chico, seu marxismo velho não o deixa ver as coisas que estão ocorrendo na sua frente. Você não viu o Datena mudar de opinião no ar, sobre o protesto? Como que você pode falar de domínio da mídia após ver isso? Não viu a Rede Globo tendo de cobrir os protestos? Eu não quero estar organizado do modo que você está organizado. O PSOL é apenas uma réplica do PT dos anos oitenta. Mesma coisa. Caciquismo igualzinho. Quer por canga na militância. Funciona como partido de vanguarda. A juventude que foi protestar odeia tudo isso.

    • juniN
      30/06/2013 at 22:16

      Paulo, você não está tendo uma visão muito romântica desse movimento juvenil nas ruas, não? Em poucos anos ficaremos mais velhos e inviabilizaria a disposição de tomada de decisões semelhantes.
      Outra coisa: A mídia por si só não influencia nada, mas a união programática dos noticiários de TV/internet já tem demostrado ter poder de orientar massas em direção ao que lhe convém politicamente -desde seletividade nas perguntas aos políticos em campanha, até tentativas de desconstruir a intensidade das manifestações separando grupos em anjos e demonios, num tom de “é melhor ficarem em casa!”. Principalmente quando se observa a nossa sociedade ser classista.

    • 01/07/2013 at 00:57

      Junin, se for romântica, então minha visão é ótima. De resto, o que você falou é apenas choro de quem não participa. Igual a todo choro do passado de quem não pode ir nas manifestações.É sempre assim.

    • Guilherme Gouvêa
      29/06/2013 at 21:28

      Chicão, acho vago essa menção ao “controle da mídia” nos dias atuais, com os meios digitais descentralizados dando a tônica das mobilizações.

  2. santos
    29/06/2013 at 16:01

    vlw,um abraço

  3. santos
    29/06/2013 at 15:47

    rsrsrsrchaui…essa gostei…gramsci inclusive escreve sobre o papel educativo do partido…vou reler e tentar adptar aos movimentos em geral.quanto ao livro q falei vc conhece?o outro eu comprei ,falta a livraria entregar.Posso manter contata c vc?sua producao ultimamente tem sido interessante(

    • 29/06/2013 at 15:58

      OK, mantenha contato. Partido educativo? Só para os tempos de Gramsci, que já acabaram. Felizmente.

    • Guilherme Gouvêa
      29/06/2013 at 21:25

      A função dos partidos nas sociedades modernas ocidentais, com raras exceções, esvaziou-se, enfraqueceu-se, apoderados que foram pelos caciques e grupos temáticos, de visão e interesses egóicos.

    • Guilherme Gouvêa
      29/06/2013 at 21:26

      Eu falo isso da experiência de quando tentei participar das primeiras reuniões do Partido Verde…

  4. Guilherme Gouvêa
    29/06/2013 at 15:28

    Esse resgate do indivíduo que conjuga o binômio “autonomia + responsabilidade” pode ter outro efeito colateral benéfico no entendimento e no aperfeiçoamento da democracia como a vivemos, já que a “dignidade da pessoa humana” (sic) é colocada como princípio e vetor principal das medidas protetivas contra o abuso do Estado.
    Este ótimo artigo afasta a má compreensão a respeito (que alguns possuem) dos direitos humanos e direitos das minorias, por exemplo, servindo de vacina contra aquele ideário deturpado de que tudo, absolutamente tudo, é justificável pela deliberação em maioria simples, inclusive linchamentos públicos e perseguições a grupos minoritários, sejam étnicos, religiosos ou de outras matizes.

    • 29/06/2013 at 15:59

      Gouvêa, estamos tentando sair dessa barbárie da democracia que não leva em consideração as minorias, e isso é uma nova forma de entender o indivíduo liberal, de um modo mais amplo.

  5. santos
    29/06/2013 at 10:26

    estudo um pouco filosofia e tenho nos seus livros e videos no youtube um bom norte.Tenho um interesse antigo sobre a filosofia pragmatica americana(cursei pedagogia e tive interesse em aprofundar em dewey.Meu projeto de monografia teve que ser mudado ,pois nao conseguir orientador ,ja que no departamento os professores nao o conhecia bem).Quero me aprofundar sobre a filosofia e a pedagogia deste grande pensador.Poderia me sugerir bibliografia?
    Outra coisa que queria compartilhar:as vezes pareco peixe fora dagua.Muitos nas redes sociais dizem que os protestos sao o limiar de um novo tempo.Parece que os acontecimentos tem uma mistica ,algo de magico,que fazem acreditar que tudo novo se fara.Desconfio desses movimentos.Na historia ,muitos movimentos como esses,foram utilizados por uma minoria para concretizar projetos personalistas de poder(movimentos que apregoavam beneficios amplos para todos,mas que depois ficou provado que era engodo)Nao que nao acredite na efetividade.Mas prefiro substituir o entusiasmo pela cautela.Esperar.Ver como se desenrolara,afinal,acho que o futuro e imprevisivel.Reformas serao propostas no calor do momento.Ha o risco de termos reformas que sejam efetivadas com o objetivo de beneficiar algum grupo particular,Enfim,sao muitos questionamentos,mas acho que o espaco aqui nao e apropriado…..Gostaria ,de igual modo,que me sugerisse bibiografia .Queria compreender melhor,com um olhar mais agudo e embasado,o que acontece hj no mundo(primavera arabe,manifestacoes na europa,etc).
    E parabens pelo video desbanalizacao do banal no youtube.Tal video me provoca muitas inquietudes.(desculpa a falta de acentos-meu teclado ta ruim)
    Um abraco

    • 29/06/2013 at 13:13

      Santos, não tem mística nem mágica nenhuma. Isso é assim para você porque nao participa. Participe. Sobre o Dewey, pegue o meu “Filosofia política para educadores” (Manole), e verá o pragmatismo dele já sendo usado. Outro livro é o da Vozes, “Richard Rorty”. OK?

    • santos
      29/06/2013 at 14:39

      talvez tenha me referido errado:muitas pessoas(nao estou generalizando) ,nas midias sociais e que pensam que tudo(inclusive as consciencias)mudarao de agora em diante,como passe de magica(prefiro esperar as eleicoes do ano que vem,sera que elegeremos novamente candidatos “folcloricos”,ex jogadores e mulheres frutas ?).Uma reportagem mostrou que muitos estao ali e nao tem conhecimento basico sobre as pautas.Mas isso e tema de outra discussao….
      Quanto a bibliografia,li a sinopse e acho que vai responder diversas inquietacoes que tenho hoje.Gostei da sugestao.Tenho aqui o livro The Philosophy of John Dewey,em ingles.Conhece??recomenda a leitura?
      um abraco

    • 29/06/2013 at 14:53

      Santos, não dê uma de Marilena Chauí. Não importa que alguns ali não sejam intelectuais. Ô meu Deus! Porra! Não é para ir no movimento já educado, é para ir e se educar lá. Caralho!!!

    • Jrnobrega
      09/07/2013 at 11:16

      Percebo os movimentos como uma grande oportunidade de aprendizado. Ficamos muito tempo na ditadura e ainda temos em boa parte de nós essa mentalidade da ditadura e aversão a protestos, críticas e participação política. Precisamos nos acotovelar mais !

  6. Bustamante
    28/06/2013 at 19:53

    Nessa “velha esquerda” americana que tão bem equalizou as virtudes da liberdade e igualdade, Paulo, você inclui, ou poderíamos incluir, os anarquistas de matriz liberal? Na linha da Emma Goldman, Alex Berkman, Thoureau etc. e, mais recentemente (se é que se estabeleceu uma tradição), Rudolf Rocker, Murray Bookchin e John Zerzan? E numa outra linha, do lado de lá do Atlântico, filósofos como Proudhon?

    • 28/06/2013 at 20:52

      Até poderia, mas a referênia e Rorty é a esquerda deweyana, que pregou e aderiu ao new deal.

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