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09/12/2019

O paradoxo da humildade (*)


B. PascalO grego Sócrates identificou o eu com a alma, o cristão Pascal mostrou o eu como o nada (1). Estranho, não? Isento de qualquer contaminação judaica, Sócrates traçou uma distinção entre corpo e alma, colocando o “si mesmo” como sendo a razão ou a inteligência, o que para ele nada mais era que a alma. Completamente imerso na devoção cristã, Pascal descasca o eu de suas qualidades para dizer que, sem elas, o eu não é senão o vazio.

Para os gregos a polis era um problema, não o eu. Para Pascal, moderno, a cidade não era outra coisa senão reunião de eus – o eu era um problema. Em parte, o trágico em Pascal se revela nessa sua descoberta que aquilo que mais prezamos, que mais admitimos como nosso, a nossa própria familiaridade conosco, é apenas uma quimera. Ele insistiu que deveríamos odiar o eu, essa quimera, esse conjunto de qualidades, títulos e papeis que faz com que imaginemos que há um eu. Odiar isso seria um bom caminho para nadificar-se e, assim fazendo, dar passos na direção de não mais perder tempo com o amor de si e então poder ver que o amor verdadeiro é o amor para o que é grandioso – Deus.

Eis aí, então, que Pascal chega a uma noção tipicamente moderna e cristã, desconhecida do mundo greco-romano: a humildade. Claro, não se trata da humildade piegas, cristã no sentido que Nietzsche a criticou. Trata-se da humildade que passou pela nadificação, ou seja, pelo reconhecimento do vazio, algo semelhante ao ocorrido com o personagem de Machado de Assis em O espelho, aquele que precisou colocar seu uniforme para voltar a ser um eu. Em outras palavras, trata-se da via para a humildade como uma via filosófica, não meramente carregada por um palavreado de uma religião banalizada.

Todavia, é difícil não ver problemas nessa via. Pois a nadificação levada adiante por Pascal não é uma simples nadificação. Trata-se de reconhecer-se com um vazio e, ao mesmo tempo, voltar o amor para o que é real, não vazio, Deus. Ora, mas esse ato não é justamente um ato que, ao invés de ser humilde, é exatamente o oposto da humildade? Afinal, por que não ficar apenas no nada? Por que ter de dar esse segundo passo, que é nadificar-se para ir a Deus? Por que se colocar diante de Deus? Colocar-se diante de Deus, ou seja, nadificar-se diante de algo grandioso como Deus, não é também já escolher um lugar no mundo? E esse lugar não é um lugar privilegiado, uma vez que não se está diante de semelhantes ou similares, mas diante do que é o mais grandioso? Por que o homem simplesmente não se reconhece vazio e se põe, então, ao lado dos animais, plantas, pedras, estrelas, unicórnios e até daimons? Por que o homem, até para se mostrar um nada, precisa se por diante do tudo, Deus? Não seria a verdadeira humildade adquirida no momento em que, descobrindo-se vazio, poderia olhar ao seu redor e ver que há o mundo, que também merece consideração?

Não! O cristão de tipo Pascal parece não escapar do humanismo de sua época, que em princípio ele combateu. O homem é um eu que é, por sua vez, vazio, mas isso é admitido na presença de Deus para que, então, se possa amar a Deus, reconhecendo nele o que é o oposto do nada. Esse ato não é um ato de humildade. Pois ele se sustenta como uma comparação entre Deus e Homem, sem que exista qualquer outra coisa no mundo. Como ser humilde diante de outro homem ou diante de um cão e, então, ter um projeto que não seja o da dominação, se o homem só consegue se nadificar diante do que é o mais poderoso, o grandioso, o tudo, Deus? Não é o supra sumo da falta de humildade não ficar diante de outros, mas só diante de Deus para nadificar-se?

Assim, não mais em um âmbito comum, mas em um âmbito filosófico, o exercício de Pascal me faz pensar na questão da humildade como sendo um paradoxo. No mínimo um paradoxo, na pior das hipóteses, então, uma ideologia sorrateira de pretensa legitimação da dominação.

Apesar de tudo, Pascal é um humanista. Os gregos sim, filosoficamente, poderiam ser humildes no seu não reconhecimento do sentimento da humildade. Os que tanto quiseram ser humildes, os cristãos, parecem às vezes serem justamente o que não têm como serem humildes.

©2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

(*) Pequeno texto para registrar minha fala no programa Hora da Coruja sobre Pascal, dia 23/04/2013

(1) Que se entenda a nadificação, aqui, como um processo técnico, como ele está no aforismo 323 dos Pensamentos.

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5 Responses “O paradoxo da humildade (*)”

  1. FÁBIO RAMOS
    19/11/2015 at 21:28

    Sr Paulo,
    Etimologicamente humildade é da mesma família de humilhar, que vem do termo ‘humus’ (terra, chão), essas palavras nos tempos contemporâneos também soam como um paradoxo se consideramos que ambas vem da mesma origem e nos dá uma ideia de termos opostos, qual a ligação desse comentário com o seu texto?

    Obrigado.

    • 20/11/2015 at 01:07

      Não está em desacordo; mas o texto dá o serviço todo, não dá?

  2. Wagner
    29/05/2014 at 01:43

    Penso que o intuito pode ser o de dar a Deus uma existência lógica. Talvez, para Pascal, anular-se perante o todo, ser o nada que justifica e glorifica o todo poderia ser o maior nível de alcance da própria fé do homem para com seu Deus.

  3. MÚMIA
    11/10/2013 at 20:58

    SINCERAMENTE, OU EU NÃO ENTENDI O TEXTO DIREITO OU VOCê ESCREVE EMBARAÇOSO ASSIM MESMO PRA SE ACHAR O MÁXIMO, CARA. TANTO QUE NINGUÉM COMENTOU A RESPEITO. TEM ALGO ERRADO, NÉ? ¬ ¬

    • 12/10/2013 at 13:25

      Múmia, o texto filosófico demanda alguma escolarização por parte do leitor. No caso deste aí, ao menos o ensino médio.

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