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20/09/2019

O fator Barbosa e a democracia representativa


Joaquim BarbosaO fator Barbosa e a democracia representativa

“Feliciano não me representa” – eis aí uma expressão que percorreu as comunicações nacionais no interior da Ágora contemporânea, também chamada de Internet. A expressão se tornou um bordão, usada para coisas sérias e para frases de humor espirituoso. Quando ela já estava entrando em desuso, o país acordou em rebuliço por uma série de manifestações de protesto de rua. A “primavera brasileira” ou, como eu tenho chamado, “a revolução do indivíduo” está em curso. Nos cartazes dos manifestantes, inclusive o meu, a crise de legitimidade de políticos profissionais e seus partidos aparece claramente. “Eles não nos representam”.

O professor de esquerda Vladimir Safatle veio a público para interpretar o que está ocorrendo. Rechaçando aqueles que começaram a cobrar “foco” e “organização” do movimento, tomando-o segundo velhos esquemas de representação baseadas na relação vanguarda-massa, Safatle condenou o que chamou de “o fetiche da representação” (A revolução fora do banheiro). Para ele, o movimento irá encontrar “novas formas de organização” que não a representativa. Noto que Safatle leu errado o bordão “Fulano de tal não me representa”. Como participante, e não como um mero observador plantado na TV ou na janela, eu não tenho visto no interior dos nossos protestos uma crise da noção de representação, inerente à democracia moderna, mas sim um desafio ao modo como a representação tem se dado no Brasil. O movimento é horizontal e se organiza durante o próprio movimento. Ao mesmo tempo, cobra do Brasil que este repense sua própria organização social e política. O que está em jogo é exatamente a crença básica do próprio partido de Safatle, o PT: o vanguardismo, bastante responsável pela maneira como os partidos políticos de esquerdas caíram, na democracia, no esquema de todos os outros partidos (aliás, o que de fato não poderia ser diferente, uma vez que o vanguardismo é porta aberta para se tornar vítima de si mesmo).

A democracia tem mesmo esse risco. Nela, os partidos políticos podem, não raro, agir como Weber dizia que as empresas agem: burocratizam-se e, então, mostram que a burocracia ganha vida e passa a lutar não mais para a eficiência da empresa, mas para a sobrevida de si própria. Os partidos e os políticos são percebidos pela população exatamente assim: deslocaram-se para um mundo deles mesmos, financeira, social e culturalmente. Os políticos fazem política não mais para a pólis, mas para a própria sobrevivência como políticos, de modo exclusivo!  O eleitor escolhe seus candidatos livremente, mas fica descontente com o político que o seu vizinho elegeu e, pior ainda, com o político que ele próprio elegeu. Enquanto é o político do vizinho que é ruim, o eleitor diz “o povo não sabe votar”, mas quando além do candidato do outro, o seu próprio político também é uma decepção, o eleitor substitui a expressão “o povo não sabe votar” por uma outra, “o sistema político precisa mudar, está corrompido”. É nessa situação que nos encontramos.

Desse modo, a representatividade está em cheque e muitos falam em “democracia direta” ou “democracia participativa”, mas ninguém – salvo as minorias de mentalidade antiliberal que restaram do passado – fala no fim do voto associado à  representação política. Ao contrário, os laços criados nas manifestações ampliam a confiança existente entre as pessoas e até fica mais fácil se pensar em representatividades mais legítimas.

É aqui, portanto, que entra o fator Barbosa. O Presidente do Supremo Tribunal Federal expressou algo importante, e o fez publicamente e também diretamente à Presidente Dilma: talvez seja o caso de ampliarmos nossa noção de representação e permitirmos a eleição não só por meio de partidos, como é o caso hoje, mas também a eleição de indivíduos que se coloquem à disposição da democracia, sem a mediação partidária (Folha de S Paulo, 26/06/2013). Não é nada novo. O próprio Barbosa, na argumentação, lembra que o atual prefeito de New York não é vinculado a qualquer partido, e que o sistema político americano, tão fortemente caracterizado pelo partidarismo, suporta uma tal coisa, e colhe benefícios. Mas o fato disso não ser novo não quer dizer que não é importante, na prática e na simbologia.

O que Barbosa disse mostra que ele está antenado com as manifestações de jovens que vem ocorrendo já há alguns anos na Europa e Estados Unidos (Occupy, e até mesmo antes da recente crise econômica, na eleição de Obama). Em 2011, Manuel Castells falou para jovens acampados em Madrid, por conta de movimentos de protestos, e foi enfático anunciando que a nova democracia dependia de dois elementos: acesso universal à Internet livre e a representação eleitoral baseada no indivíduo, não mais em partidos (Portal Brasileiro da Filosofia). Não sei se Castells falou o que digo agora: o que estamos vivendo é uma crise efetiva do modelo político nascido da Revolução Francesa, que é o modelo de partidos ligados direta ou indiretamente a setores sociais amplos, como as classes sociais (herdeiras dos “estados” franceses). Não ouvi Barbosa sobre o assunto, mas duvido que ele não esteja entendendo isso. Ele é suficientemente culto para notar esse movimento sem qualquer ajuda de outros ou mesmo da literatura.

Não estou dizendo, claro, que Barbosa vai fazer uma proposta para superar nossa crise social e política. Também não estou dizendo que ele falou só isso com Dilma. O que digo é que, ao apontar para essa medida, ele faz eco com o centro da fala de Castells e outros, e que está integrado ao nome que dei ao movimento atual, “revolução do indivíduo”, como já disse acima.

Há vida inteligente no Planeta, aqui mesmo, na nossa Ágora. Essa vida inteligente precisa que os protestos continuem para que mais vida inteligente acabe por falar aqui e acolá coisas inteligentes. A revolução do indivíduo não está só mostrando o indivíduo nas ruas, individualizando-se, mas os indivíduos que estão em instâncias que até então talvez nem os deixasse se expressar como indivíduos.

2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

 

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19 Responses “O fator Barbosa e a democracia representativa”

  1. Jonathan Adam
    27/06/2013 at 20:26

    Ótimo texto, Professor.

    Só gostaria de propor uma ideia : será que justamente a representação do povo e o dever dos políticos de se preocupar com a pólis não teria um bom apoio num sistema Parlamentarista ? Sem presidente! Sem um líder máximo, mas sim um conselho de consules (ou ministros).

    Mantemos a respresentação, só que com uma nova forma. Mais democrática.

    • 28/06/2013 at 00:27

      Adam, parlamentarismo ou presidencialismo? Os jovens estariam interessados nesse debate? Há alguém interessado nisso?

    • Jonathan Adam
      29/06/2013 at 23:12

      Teríamos de perguntar a eles.

      Eu estou interessado.
      Claro, não quero apressar as coisas. Mas não significa que não possa ser pensado, trazido a público o verdadeiro parlamentarismo. Não a mentira que mostraram por aí nesses plebiscitos do passado.

    • 29/06/2013 at 23:46

      Adam, você já tinha nascido quando Montoro e Brizola debateram esse tema na tv? O interesse não existia, e fez-se o debate, hoje nem o debate sai.

    • Jonathan Adam
      30/06/2013 at 00:29

      Não sei se a pergunta foi uma ironia ou não, mas enfim, ou eu não nasci, ou era um bebe …

      seja como for, retomo a ideia. Pois, ideias não morrem, podem voltar mesmo depois de “tendo sido debatidas” e “encerradas”. Se é que foram debatidas com reflexão e profundidade que a Política exige.

      Mas também perguntei ao Sr. o que acha da proposta.
      Volto novamente. Se o debate for colocado na rua, ter a reflexão e profundidade – e delicadeza – que se exige da Política, o que o Sr. pensa da proposta ?

    • 30/06/2013 at 00:31

      Adam, você disse que no passado a coisa foi discutida ou proposta em forma pouco correto. E eu lembrei a você que no passado não foi como você diz. Fizemos a discussão a sério, mas ele não empolga nossa gente.

  2. Marco Vasconcelos
    27/06/2013 at 07:40

    Exclente texto, professor. Interessante essa percepção de que, além de propostas efetivas, os protestos alteram ambientes discursivos, dando margem a propostas que antes, de certa forma, pareceriam impensáveis. Muito bom!

    • 27/06/2013 at 08:09

      É exatamente isso, uma rearranjo topológico-semântico

  3. Ronald
    26/06/2013 at 22:58

    Não basta ocupar cargos públicos. É preciso estar à altura deles, tomar posição e assumir as responsabilidades que o momento requer. Quem tem compromisso real não se omite e não se esconde dentro de caixas chamadas de instituições, por mais notáveis que sejam elas, afinal, quando se retiram as pessoas, desaparecem as instituições. Não é de estranhar que “políticos” tagarelas loucos por aparecer, estejam mudos, sumidos, ou pior, de suas maquininhas conclamando outrem ir às ruas. Deprimente.

    • 26/06/2013 at 23:01

      Ronald, acho que a única pessoa deprimente é você. Vem aqui para se lamentar. Qual o problema das pessoas protestarem? Já viu a relação custo-benefício no Brasil? Acorda cara.

    • Ronald
      28/06/2013 at 00:43

      Querido Paulo, não leia com a mesma sofreguidão que escreve. Sinta o sabor das palavras e verás que não me deprimo com as manifestações, deprimente é ver o desespero de quem ocupa cargo não saber o que fazer nestes momentos. Um pouco mais de calma ajuda a alma.

    • 28/06/2013 at 00:47

      Ronald, você voltou a chorar, então, confirmou o que eu disse. Leia de novo o que escreveu e veja se não dá margem para falar o que falei. Vai ver que é o seu estilo chorão. Olha como está chorando aí nessa tréplica. Calma não ajuda ninguém, Ronald, inteligência ajuda. Eu a tenho. Tanto é que percebi esse traço seu que você ainda não conhecia.

  4. Julio
    26/06/2013 at 20:51

    Deu no El pais:

    “Las favelas de Río se unen pacíficamente a la protesta. Miles de personas bajan desde las zonas más pobres de la ciudad hasta el barrio noble de Leblón.”

    É algo alentador. Sinal de que o Brasil está realmente mudando e pra melhor.

  5. Orivaldo
    26/06/2013 at 18:58

    “Eu nunca vi uma foto sua nas manifestações?” Fala pra ela que não é sua foto que vai nas manifestações e sim você mesmo. Ao vivo e a cores! E se ela também for, talvez te encontre lá. De carne e osso!

    • 26/06/2013 at 19:06

      Orivaldo, eu ainda não estou acreditando nessa moça! Que patrulha!

  6. Ana Lucia
    26/06/2013 at 12:01

    Eu nunca vi uma foto sua nas manifestações?
    Por que será?

    • 26/06/2013 at 13:15

      Porque você não me conhece. Caso conhecesse, veria. Aliás, veria em 75 na morte do Herzog, na missa, em toda a campanha das diretas, em todo o fora collor e agora, tanto no Rio quanto em São Paulo. Agora, eu não sabia que você ia nos protestos para tirar foto sua. Eu tiro foto dos amigos. Estão todas no facebook. O cartaz “Pelo direito de fazer sexo com Dilma é ideia minha”. Está no facebook na minha página. Está contente agora, após patrulhar o filósofo? Quando você crescer você estará do lado de lá da manifestação, reprimindo, dado que tem vocação para polícia. Parabéns. (putz, como tem coitado nesse mundo).

    • 26/06/2013 at 15:33

      Cada coisa que temos que “ouvir”.

    • 26/06/2013 at 18:34

      Hermes Lisboa, isso é para você ver! Essa garota quer me encontrar na manifestação! Pode isso?!

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