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28/02/2020

Nietzsche somente para inteligentes


Nietzsche somente para inteligentes

Platão criou a filosofia como um gênero literário umbilicalmente ligado à política. Seu objetivo era encontrar a fórmula para a cidade justa. Como virtude da cidade, a justiça se institucionalizaria segundo uma ordem classista hierarquizada e fixa. Assim, segundo essa ordem, a cidade abrigaria os trabalhadores manuais, os soldados guardiões e os sábios ou filósofos. Funcionando assim, segundo essa harmonia, a cidade conteria todos em seus devidos lugares, afazeres e funções. Nada mais próximo da palavra “justa”, tomada literalmente, que uma comunidade incapaz de fissuras entre seus grupos internos. A filosofia surgiu aí, nesse projeto, como necessária por duas razões.

Primeiro, para compor uma teoria da alma humana. A alma seria tripartite, segundo uma correspondência perfeita entre psicologia e sociologia. A alma humana seria prenhe de racionalidade, emoções e sentidos, mas não em igualdade potencial. Sendo assim, haveria o predomínio de uma parte sobre a outra. Homens cuja racionalidade viesse a predominar seriam filósofos e então iriam para o governo da cidade. Homens movidos pelas emoções seriam encaminhados para a casta dos soldados guardiões. Homens dominados pela sensibilidade seriam, obviamente, os trabalhadores manuais.

A segunda razão de aparecimento da filosofia nesse projeto se deu exatamente à medida que ela deveria expor, em conjunto com a teoria metafísica da alma, uma teoria do conhecimento. A filosofia seria uma preparação para a morte. Isto é, ela deveria acolher os homens capazes de se desligar da vida, afastando-se o mais possível das funções da alma ditas emocionais e sensíveis. Tais homens seriam, em vida, o que se é quando tudo está inerte e só o intelecto se estabelece. Nesse momento o mundo das verdades objetivas em sua máxima perfeição se poria à disposição contemplativa do intelecto que, enfim, sendo ele da mesma ordem que os objetos desse mundo, os compreenderia.  Não haveria, então, divergências centrais entre os sábios, entre os filósofos, uma vez que eles, em “estado de morte”, não teriam encontrado outras verdades que não as comuns, presentes nesse mundo de perfeição.  Não haveria nenhuma guerra de opiniões entre os sábios. Assim sendo, as elites governantes não divergiriam entre si e, por isso mesmo, não criariam partidos capazes de arrastar os outros grupos para um confronto e uma desestabilização da justeza ou justiça da sociedade. Desse modo a cidade sempre seria justa.

Por mais que os homens tenham divergido entre si e por mais que as elites, mesmo quando aceitas como filosóficas, tenham gerado partidos e, então, guerras civis, esse ideal de cidade justa, de justiça, nunca deixou de ser a base da filosofia política. Essa construção platônica, por sua vez, jamais abdicou de ser o primeiro grande passo da história da filosofia enquanto história da metafísica. Derrubar essa maneira de expor a cidade justa tornou-se, então, algo condicionado pela literatura platônica. Ninguém se sentiria vitorioso nesse campo apontando mil falhas da política sem apontar a falha central no edifício metafísico.

Foi assim que os filósofos, mesmo quando não abordaram a política, tornaram-se filósofos políticos. Uma vez tendo desejado derrubar a metafísica platônica eles, indiretamente, estiveram em algum lugar da trincheira de ataque à cidade justa. Pensando assim, podemos dizer que poucos filósofos não fizeram filosofia política, uma vez que poucos não se dedicaram a checar ou transformar ou fustigar a metafísica platônica.

Somente assim Nietzsche é um filósofo político. Nietzsche não tem uma teoria do poder ou uma análise de revoluções ou outros elementos capazes de fazê-lo um filósofo político em um sentido moderno e/ou contemporâneo. Por isso mesmo, se aproveitar de Nietzsche para fazer incursões favoráveis à política da direita e da esquerda, como configuradas a partir do mundo moderno, faz pouca justiça ao filósofo.

O projeto de Nietzsche sempre foi um projeto de ataque central: se era para desbancar Platão, que o pegássemos pelos pés, pela sua base metafísica. Desse modo, toda teorização de Nietzsche sobre “fortes” e “fracos” ou “nobres” e “plebeus” ou “senhores” e “escravos” nunca foi uma teorização política ou sociológica, mas uma tipologia ficcional para estabelecer uma crítica abrangente da linguagem e, no interior desta, uma crítica às noções de “essência”, de “ponto fixo”, caras o projeto metafísico platônico.

O maior tropeço de leitura que se pode fazer com os escritos de Nietzsche é o de convertê-lo, ainda que indiretamente, em um teórico que estaria fustigando liberais ou socialistas ou feministas etc. Quem tem ódio de Barack Obama porque desdenha os pobres, os negros, as mulheres e a democracia liberal deveria encontrar outro teórico para se apoiar. Poderia ler Mussolini, não Nietzsche. Toda vez que o alemão forçou as tintas para fustigar “progressistas” e movimentos populares, assim o fez visando conseguir exemplos para sua tipologia psicológica de “fracos” e “fortes”, ou para alimentar sua “filosofia da história” completamente ficcional, voltada para ideia de grandes transformações morais. Ao contrário de Marx, Nietzsche nunca se preocupou em fazer dessas suas afirmações sobre tipos, verdades teóricas com força historiográfica. Ele nunca esteve em busca de uma teoria social da revolução ou da história. Ele sempre esteve como um coletor aleatório de elementos psicológicos, antropológicos, biológicos etc., que pudessem alimentar sua tipologia, sua visão da linguagem e, assim, chegar ao que hoje chamaríamos de desinflacionamento metafísico da filosofia. Acertar em cheio a metafísica ou, melhor dizendo, a metafísica platônica, era o seu objetivo primordial.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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24 Responses “Nietzsche somente para inteligentes”

  1. ivan dos santos miranda
    06/11/2014 at 09:48

    Nietzsche era gay? Duvido, pois certa vez, li que ele queria porque queria comer a mulher de Wagner.

    • 07/11/2014 at 22:03

      Ivan vou contar uma coisa horrível para você lindo: gay come mulher e há gay casado com mulher e com filhos. Homoerótico TODOS nós somos. Nós não nos dividimos em viados e não-viados, nós nos dividimos em burros e não burros, sendo os não burros os que sabem que todos nós temos um pé no mundo gay.

  2. Henrique
    06/05/2014 at 20:52

    Sou leigo em filosofia, mas gosto de ler alguma coisa. Gostaria de saber o significado da critica de Nietzsche à caridade e a compaixão. Comumente ele se refere a isso como valores degradantes e baixos e eu não entendo o que quer dizer.

    • 07/05/2014 at 02:43

      Henrique, pegue meus livros, tipo A aventura da filosofia (Manole), dois volumes. O assunto não é assim, algo rapidinho.

  3. JONATAS DAVI LIMA
    02/06/2013 at 12:59

    Paulo, o certo é “Assim falou Zaratustra” ou “Assim falava Zaratustra”? Sempre tenho essa dúvida

    • 02/06/2013 at 13:56

      Jonata, mas você diante da Internet!

    • Rogério
      13/10/2013 at 21:26

      depende do tradutor.

  4. JONATAS DAVI LIMA
    02/06/2013 at 12:58

    Paulo, o certo é “Assim falou Zaratustra” ou “Asim falava Zaratustra”? Sempre tenho essa dúvida.

  5. JONATAS DAVI LIMA
    31/05/2013 at 07:55

    E quanto à Rubem Alves…você poderia convidá-lo para a HORA DA CORUJA, o que acha?

  6. JONATAS DAVI LIMA
    31/05/2013 at 07:52

    Quero assistir essa entrevista com a Scarlett Marton.Tem alguma previsão de quando será? Se for possível me avisa por e-mail, ok?

  7. JONATAS DAVI LIMA
    28/05/2013 at 20:26

    Prezado Ghiraldelli,
    Há vários estudiosos e especialistas em Nietzsche. Dentre eles pode-se citar:
    1. Roberto Machado
    2. Viviane Mosé
    3. Scarlett Marton
    4. Rosa Dias
    5. Oswaldo Giacóia Jr
    6. Rubem Alves

    Qual ou quais destes você recomendaria para seus alunos? Qual ou quais você admira ou citaria em artigos e conferências? Gostaria que você fizesse um breve comentário sobre eles.
    Estou fazendo um trabalho sobre Nietzsche pra ser apresentado na Universidade.
    E você gosta de ler Nietzsche? Aprecia o pensamento dele? O que destacaria no pensamento desse filósofo alemão?
    Agradeço desde já.

    • 28/05/2013 at 20:30

      Jonatas, não é questão de simpatia, é questão de utilidade. Eu utilizo a Scarlett, ela tem a leitura próxima da minha e é da minha escola, da USP. Ela está convidada e já aceitou vir ao Hora da Coruja. O Giacoia é meu amigo, mas nunca tive tempo de lê-lo.

  8. Diego Michel
    27/05/2013 at 20:53

    Errata: PIERANGELI.

  9. Diego Michel
    27/05/2013 at 20:50

    Ih não é que é um monte de barbaridades! Um reducionismo conjugado com um conhecimento simplório da filosofia do alemão. É o que eu digo, o pessoal que se diz militante de alguma área deveria, sobretudo estes, ficarem no seu âmbito, não há necessidade de se figurar como algum rebento intelectual, mas não, eles preferem se enveredar por um caminho que demanda uma certa arrogância, um certo não igualitarismo. Quais as consequências disso, eu vos digo: Simplismos, atrocidades, mesquinhez interpretativas.

    De quem eu falo, falo dos tais operados do direito, alguns penalistas, que só conhecem os autores que citam pelo método do “APUD”.

    Talvez o filósofo não o conheça, mas certamente irá ouvir falar, não tiro o seu mérito dentro da área que ele se propõe a discutir, a teorizar, mas fazer afirmações dessas é algo leviano demais. Falo de um livro chamado “Manual de Direito Penal Brasileiro” de autoria de Eugenio Raúl ZAFFARONI e PIERAGELI. Não sei lhe dizer qual dos dois escreveu essa parte, porém, não atenua a irresponsabilidade de suas idiossincrasias, SIM, porque é isso que ele faz.

  10. Diego Michel
    27/05/2013 at 00:02

    O alemão fazia jus ao “porque sou tão inteligente”. Ao derrubar o edifício metafísico platônico, consequentemente abriria espaço para que outro edifício, o do Cristianismo, ficasse vulnerável. Esses dias me deparei com uma visão comum de Nietzsche, e o pior, é que ela veio de uma pessoa que à princípio não esboçava sinais de vulgaridade cognitiva, digo, li o seguinte: Reivindicava “a seleção natural” do evolucionismo(sic), o que mostra a sua base profundamente antidemocrática.”

    E demais trivialidades como, “teoria do direito do mais forte”, este direito entendido no sentido jurídico mesmo!

    Veja mais: “Para Nietzsche , a sociedade é um acordo dos fracos para conter os fortes, os “super-homens”.

    E por último: ” O pensamento doente (sic) de Nietzsche pode ser sintetizado (aqui, espaço para uma enorme gargalhada!) do seguinte modo: o único valor objetivo é a força: o mais forte deve mandar, isto acontece entre todos os animais e não tem porque não acontecer entre os homens: a moral, a verdade e a justiça são a vontade do mais forte.”

    Isso tudo com o objetivo forçoso de dizer que Nietzsche tem algo para oferecer no sentido, estritamente, penal.

    Obrigado,
    Abraço.

    • 27/05/2013 at 00:42

      Diego, nossa, mas aí você encontrou barbaridades mesmo? Quem escreveu isso?

  11. Mario Luis
    26/05/2013 at 22:44

    A propósito desse coletor aleatório, cinge-se mais por seu contraponto ao dualismo instaurado por Platão e consolidado em Descartes, já que não vê distinção entre espírito e corpo. o Eu consciente ou sede da razão e do pensamento dá lugar à vida orgânica e nela concorrem as forças as quais disputam as manifestações da vontade de potência. Aí é que o filósofo do martelo distingue o forte e o fraco, por aquele que manifesta os instintos em busca do equilíbrio vital e a expansão da vida e aqueloutro, que desenvolve funções antagônicas, de combate aos instintos, a décadence…

    • 27/05/2013 at 00:43

      Mário… ?

    • Alan
      01/06/2013 at 13:21

      Foi longe o maluco… haha

  12. 26/05/2013 at 22:22

    Paulo, ouvi do meu professor de história que Niestzche era gay, isso é verdade? Pois o professor disse que ele criticava a religião por isso.

    • 27/05/2013 at 00:45

      Marlin, ainda bem que era seu professor de história e não de filosofia, mas, de qualquer modo, isso é lastimável. Nietzsche era gay e DAÍ, criticava a religião. Que lógica heim? E após dizer isso você viu homens numa ambulância chegarem e levarem seu professor, não foi?

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