Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

27/06/2017

Ler a Bíblia inteligentemente


Os gregos não escutavam o que se transformou na Ilíada e na Odisseia com ouvidos ligados no “será verdade?”. O conjunto de feitos cantados nesses poemas era para os gregos inquestionáveis e ao mesmo tempo perfeitamente lendários. Eles acreditavam nos deuses, claro, mas não sem as mesmas dúvidas sobre tudo o que se pode ouvir na rua e no mercado. Ouvir os rapsodos não se fazia em função de “acreditar”, mas segundo a fruição de um prazer estético enorme e também como uma necessidade educacional de tornar-se heleno ao se identificar com os heróis do passado.

Essa maneira de se envolver com o seu evangelho básico, digamos assim, própria dos gregos, não deixou grande herança para o Império Romano cristianizado. A religião grega tinha a vantagem de não se envolver com filosofia e, portanto, não ser amiga íntima da verdade ou da falsidade ou mentira. Mas a religião judaico-cristã que se misturou com o paganismo e o suplantou tinha uma vocação própria para a filosofia. Não tendo uma filosofia própria bem criada, tratou de absorver a dos gregos. Não só Platão, mas os estoicos e mesmo os epicuristas, bem lidos pela elite romana, entraram para o interior do que se construiu em termos teóricos na formação da Igreja Católica. E isso determinou, em parte, o destino da Bíblia, o modo da Bíblia ser lida.

A Bíblia é tão tardia na nossa cultura quanto a Ilíada e a Odisseia na cultura helênica. Ou seja, o conteúdo é antiquíssimo, mas a formulação do texto canônico é do século IV, já de uma época em que os leitores são também escritores. A Bíblia oficial nasceu num mundo em que já havia um staff para o comando da leitura possível, da leitura correta e, enfim, da articulação entre texto e verdade. Sem o gosto pela filosofia, que veio dos primeiros padres e dos intelectuais católicos – Agostinho à frente – a Bíblia teria continuado seu programa de junção de mitos para formar um poema histórico e epopeico, ético e político. Deveria dar prazer a nós como o prazer sentido pelos helenos ao escutar gente como Homero em praça pública. Deveria dar um prazer elevado, algo que encaminharia as almas para o sublime de modo a empurrá-las a se tornar “versões melhores de si mesmas”. Mas não foi assim. A filosofia trouxe o germe complicado: a Verdade. A pegada cognitiva superou a pegada estética e emocional.

A ideia de que uma narrativa ficcional-emulativa é secundária a uma narrativa que fala sobre O Mundo Como Ele É, que é a ideia básica da filosofia e do realismo platônico, dominou a vida da Igreja. Ser católico e não ser um intelectual capaz de explicar o mundo segundo um texto, desmentindo o que seriam as várias explicações pagãs, se tornou um trunfo católico e ao mesmo tempo sua perdição. O Deus judaico cristão que nasceu do Deus da guerra e do politeísmo, e que tinha tudo para ser um Deus completamente transcendente, ficou com um pé na Terra. Era um Deus transcendente, diferente dos deuses greco-romanos, mas ao mesmo tempo um tanto igual, pois se mantinha ligado ao cosmo por meio da criação e da movimentação de seu plano, o plano de Deus.

Caso tivéssemos ficado com a Bíblia do mesmo modo que os gregos ficaram com a Ilíada e a Odisseia, então, quando do Renascimento e da Modernidade, não teríamos visto nenhum confronto entre os modelos da ciência e as histórias bíblicas. Seria possível entender ambas como narrativas, simples narrativas que usamos para lidar com as coisas, de um lado, e para o deleite e para a vida ética e moral, de outro. Mas não foi assim. Tínhamos tomado a Bíblia com o mesmo espírito filosófico de Sócrates, Platão e Aristóteles, e ela havia se tornado a verdade, ou melhor – A Verdade. Foi difícil, então, para a Igreja, absorver Galileu, Newton e Darwin, tanto quanto foi difícil para ela absorver Marx e Freud – coisa que até hoje ela não conseguiu fazer, mas poderia até fazer.

A Igreja católica teve dificuldades em cumprir a ordem de Jesus: “dai a César o que é de César”. Ou seja, os padres católicos demoraram em perceber – se é que perceberam – que os Evangelhos tinham uma força que não precisava vir da verdade, pois eram textos voltados para o coração, não para a razão. Os padres foram filosóficos demais, não queriam abandonar séculos de dependência da cultura religiosa judaico-cristã em relação à filosofia grega. Desconfiavam de que talvez os intelectuais pudessem conviver com a ideia da Bíblia acima do terreno das disputas sobre verdade e falsidade, mas não o povo. E então entraram pela via de sustentar o insustentável: um confronto de narrativas completamente desnecessário.

Não vamos sair dessa situação apelando para o ateísmo de Dawkins. Vamos sair dessa situação convocando a nossa capacidade de entender o projeto bíblico do modo que mutatis mutandis os gregos entenderam o projeto homérico. Em outras palavras: temos de afastar a filosofia das páginas da Bíblia ou, melhor dizendo, temos de ler a Bíblia com olhos de uma outra filosofia (antes pragmática que crítica e doutrinária). É gostoso pegar a Bíblia à noite para conversar com Deus, antes de dormir, sabendo que não se está conversando com Newton, pois à noite é nossa mãe que nos conta histórias, não Newton. Deveríamos arriscar em ser inteligentes, ao menos nesses minutos antes de dormir.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Tags: , , , , , , , ,

20 Responses “Ler a Bíblia inteligentemente”

  1. João Bosco Renna Júnior
    26/10/2015 at 23:35

    A bíblia é interessante para se estudar a natureza humana, relacionar a influência da religião em fatos históricos, para estudar política, ética, moral, dentre outras coisas.

    Eu particularmente não consigo enxergar tal beleza poética, sou incapaz disso, acho que vem da minha formação de esquerda, meu pai era ateu e anti-religioso, não gostava da igreja, nem gostava de sacerdote, sendo que minha experiência com religião durou 5 anos, eu rezava todo dia, ao final de cinco anos, eu virei pro meu pai e disse, vou parar de rezar, por que isso não adianta nada. Eu pedia para melhorar nossa vida e de minha família, e tudo ia só piorando, inclusive eu comecei a apresentar depressão já nessa época.

    Não me considero burro, apenas não tenho esse feeling, a bíblia pra mim não tem pegada, prefiro o ateísmo de dawkins, que pode ser burro por um lado, mas é irônico, divertido de outro, isso me alimenta.

    Respeito sua visão de mundo, pois você é um ser humano autônomo, tem outra história de vida, outra experiência, acho que esse tipo de dissertação que você colocou não está no ambito da inteligência, e sim da subjetividade, ou seja, é a sua visão, você é assim, você não adquiriu esse apreço pela bíblia por que é filósofo, você é religioso ao meu ver, talvez desde criança, por influência da família.

    • João Bosco Renna Júnior
      26/10/2015 at 23:37

      Quando eu parei de rezar eu tinha 12 anos, rezei dos 7 aos 12, 5 anos, depois aos 17 eu já era ateu, e sou até hoje.

    • 27/10/2015 at 01:57

      Azar seu, João.

    • 27/10/2015 at 01:59

      Não João, o fato de não enxergar nada na Bíblia não vem da formação de esquerda, a formação de esquerda eu também tive, e isso não fez burro e insensível, ao contrário. Uma formação intelectual boa nos faz ler os grandes poemas melhor ainda.

    • João Bosco Renna Júnior
      27/10/2015 at 03:18

      Todo esse papo me remete ao autoconhecimento, como Jung preconiza, o “olhar pra dentro”, eu tenho alterações de humor constantes, e quando estou em baixa rejeito a bíblia, acho chato pra caramba, só ficando com a parte crítica, em outros momentos eu me pego estudando hebraico e assistindo aulas de teologia na faculdade que tem na primeira igreja batista de campo grande…kkk Acho que vou ter dificuldade na faculdade, pois sei que é cobrada a leitura de Ilíada e Odisséia na faculdade, e mitologia eu também não tenho muita paciência, apesar de saber que os arquétipos ou arché, estão relacionados com a natureza humana, a sociedade, a natureza e talvez o universo, apesar de saber que cosmologia hoje em dia é coisa da ciência.

      Talvez quando eu tiver com mais maturidade eu consiga alcançar a mensagem do seu texto, por enquanto vou tentar uma segunda leitura para clarear minha idéia a respeito. Eu já recebo elogios pela minha inteligência, mas é de pessoas que navegam no senso comum, um dia chego lá, na inteligência de um filósofo.

    • 27/10/2015 at 12:03

      João, a história da autoconhecimento é mais complicada. Dá uma olhada nela: Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015)

    • João Bosco Renna Júnior
      27/10/2015 at 14:47

      Vou dar uma olhada no seu livro com certeza, mas além disso, tem algum clássico que expõe o autoconhecimento de sócrates?

  2. Wagner
    29/05/2014 at 02:13

    Aguardo o dia em que os pobres possam ler a bíblia sob essa ótica. Até tal dia, tudo continuará a ser como sempre foi: um exercício restrito ao ciclo erudito.

    • 29/05/2014 at 03:25

      Wagner, decididamente essa questão de “ciclo erudito” não é a questão. A Bíblia sempre ensinada pelos católicos dessa maneira, inclusive pelos mais simples. É claro que num Brasil em que há o gap educacional que temos, os seminários se deterioram tanto quanto a educaçao pública popular.

  3. André Bonini
    01/11/2013 at 19:16

    Gostei do texto, principalmente porque estou terminando de ler a obra de Homero, ODISSEIA.
    Esta obra, assim como a Bíblia deve ser lida poeticamente.
    Aprendi com o escritor Joseph Campbell, que diz que devemos ler os mitos em poesia e não em prosa.
    Pra mim, ficou mais fácil e menos crítico ler todas as obras do Homem.
    ” tudo são metáforas”
    Abraços.

    • 01/11/2013 at 23:22

      Talvez, André, tenhamos que ler tudo assim, levando em conta que a linguagem é um conjunto de metáfora, uma parte formada pela metáforas vivas e outra parte pelas mortas, a parte chamada literal.

    • André Bonini
      03/11/2013 at 08:44

      …assim como no filme MATRIX: dois mundos.
      O inconsciente e o consciente.
      A emoção e a razão.

  4. Missionário mágico
    10/10/2013 at 16:26

    Quanta ignorância! Acho que você precisa ler a bíblia direito, nunca leu e fica soltando pérolas…
    Te recomendo a fazer um curso de hermenêutica e teologia.

    • 10/10/2013 at 19:08

      Missionário mágico vou comprar todos os seus livros e estudar. Mas … você não falou seu nome! Que pena.

  5. Regis Olivetti
    23/04/2013 at 23:01

    Legal, gostei do texto sobre a visão da cultura Grega que agregou muitos valores aos tempos modernos, como organização do estado, justiça e razão, em contrapartida a cultura judaica cristã, involuta e sedimentária (gostaria que explanasse um texto a respeito de como seria os tempos modernos sem o cristianismo e islamismo). Bom em resumo; para mim a Bíblia não acrescenta absolutamente nada, como elemento cultural, racional ou refletivo. Serve como objeto de decoração e como peso para impedir que receituários médicos, ainda válidos, se percam.
    Um grande abraço e saúde a todos.

    • 24/04/2013 at 10:04

      Regis, se depois do que escrevi sua opinião sobre a Bíblia é essa aí, então, não tenho razão de chamar-lhe de inculto somente, temo que você esteja querendo ser burro. À toa! Mas é opção sua.

  6. M. Luis
    23/04/2013 at 21:36

    O grande paradoxo contido na natureza transcedental do cristianismo é que o “Reino” não é deste mundo e, no entanto, ele está dentro de nós mesmos. Essa condição imanente parece ser a chave da compreensão do caráter revelador que, em parte, encontramos nas escrituras. Quando se as lê por essa ótica, se compreende o porquê dos antigos terem buscado abrigo na Filosofia e, ao mesmo tempo, a tipificação daquela narrativa, a qual se molda à percepção do leitor – até lhe seja o paradoxo revelado.

    • 24/04/2013 at 10:06

      Luís, não há nenhum paradoxo nisso. O homem também não só desse mundo.

  7. Sandro Gomes
    23/04/2013 at 17:47

    Uma boa compreensão da Bíblia como narrativa, pois é isso que ela é: uma trama de narrativas sobre a manifestação de Deus na história humana. De fato, a necessidade de intelectuais cristãos de defender a nova fé perante os outros credos, levou a uma apologética e subsunção dos horizontes bíblicos aos cânones filosóficos do neoplatonismo e estoicismo. A Metafísica colonizou a interpretação dos textos bíblicos, mas isso caminhou passo a passo com a assimilação do cristianismo às estruturas de governo do Império Romano… Uma Igreja institucional precisa de hierarquias angélicas e terrenas inspiradas no neoplatonismo de um Dionísio Pseudo-Areopagita para justificar-se…

    • 23/04/2013 at 18:04

      Sandro, eu não falei o que falei com tese histórica. OK? — Só um adendo, para que minha fala não fique sendo uma narrativa sobrefilosófica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *