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27/03/2017

Enfim, livres da política


Enfim, livres da política

“Todos têm posição política, quem diz que não tem posição política, já está se posicionando politicamente.” Nas décadas de setenta e oitenta vivíamos escutando essa frase. Ela quase se tornou verdadeira. Mas ela era falsa e continua a ser falsa.

Quando Aristóteles definiu o homem como um “animal político”, ele estava correto. Ou quase isso. Ele pensava na vida totalizadora da polis e de como ninguém poderia ser alguém fora da polis. Fora da polis, que no tempo dele já não era mais a cidade-estado autônoma, mas o Império de seu aluno Alexandre, poderia viver o bárbaro. O bárbaro, o que balbucia, não poderia ser assumido como homem, como humano. Desse modo, no tempo de Sócrates, Platão e Aristóteles, a época da Grécia Clássica, talvez pudéssemos dizer “tudo é político” ou, ao menos, “tudo que é humano é político”.

Não podemos falar isso hoje. O indivíduo moderno é autônomo e, se tem relações com o estado, se vive num mundo político, este está longe de conferir sentido para a sua vida e mais longe ainda de defini-lo como humano. A vida do estado é uma, a nossa é outra. As separações são nítidas e as distinções entre a esfera pública e a esfera privada mostram bem isso. Desse modo, o homem moderno tem cosmovisão ou filosofia de vida ou “um conjunto de valores” etc., mas não necessariamente precisa ter posição política. O homem moderno se sente muito bem com sua cosmovisão, e esta não necessariamente precisa versar sobre as relações entre o indivíduo e o estado.

Desse modo, dizer que o homem moderno tem posição política e, mesmo quando não tem, adquiriu uma a contragosto, é um erro crasso. O homem moderno é aquele homem que pode ser joguete da política, enquanto esta, por sua vez, o é da economia. Mas o homem moderno pode, ao menos subjetivamente – e talvez até objetivamente – viver sem ser tocado pela política e sem tocar a política. Talvez algumas pessoas em alguns lugares não possam agir assim. Mas uma boa parte de nós, Ocidentais, podem sim viver sem política, sem posição política alguma. Podemos, inclusive, viver como muitos fazem, pragmaticamente.

Por que tenho eu de ser de direita ao ver que a direita está fazendo coisas que me prejudicam? Por que eu tenho de ser de esquerda se vejo os esquerdistas me prejudicando? Não tenho! Uma boa parte da população ocidental sabe disso, protege sua vida, suas coisas, sua família, luta por um futuro melhor, e isso de acordo com sua cosmovisão. Essa cosmovisão não implica em política. Política pode ser uma parte da cosmovisão, mas, na modernidade, nunca o todo. A hipostasia da política se deu na Grécia Clássica. No nosso tempo, a política recuou. Só os fanáticos, os militantes, os doutrinários de sempre, almoçam e jantam política e então pronunciam essas frases tolas “tudo é político”. Aliás, só estes mesmo, pois o político profissional não age assim.

Platão podia dizer que deveríamos nos interessar por política, pois caso contrário a política nos atingiria sem que pudéssemos ter como controlá-la. Mas nós não precisamos embarcar nisso. Podemos ficar bem distantes da política. Aliás, podemos até participar de um protesto de rua e, no entanto, não termos posição política. Não fazer política e não ter posição política não é sinônimo de ingenuidade ou ignorância ou, para usar um jargão meio que errado, ser “alienado”. O homem moderno montou sua política democrática como uma forma de permitir que os que não quisessem ligar para a política pudessem assim fazer.

Essa liberdade nossa em relação à política é uma conquista fantástica. Talvez tão importante e fundamental quanto a nossa liberdade em relação a muitos ditames da natureza. Bem, trata-se de uma liberdade boa até porque não temos muito como fazer diferente se continuarmos a gostar da democracia liberal como temos gostado.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor, cartunista e professor a UFRRJ

PS: Caro leitor, se você não fizer a distinção entre mundo antigo e mundo moderno, com certo rigor, não vai realmente entender o que quero dizer.

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51 Responses “Enfim, livres da política”

  1. Ladin
    22/07/2013 at 20:11

    O liberalismo (Estado liberal) se caracteriza pela importância que atribui às liberdades (expressão, nos campos econômico, político, religioso, intelectual e, mais recentemente, de preferência sexual) e autonomia do indivíduo.

    O papel do Estado liberal é em larga escala garantir estes direitos e liberdades.

    “O homem moderno montou sua política democrática como uma forma de permitir que os que não quisessem ligar para a política pudessem assim fazer.”

    A estabilidade social de alguns países faculta o indivíduo a não votar.

    O autor do texto não liberta todos os homens da política. Apenas destaca este momento histórico em que “alguns” indivíduos vivenciam a predominância de sua condição de liberdade em relação ao Estado/político.

    Mesmo que está condição esteja se solidificando, quem pode garantir o tempo que ela permanecerá?

    Parece que a autossuficiência da humanidade só virá pelo super-homem…

    • Ladin
      22/07/2013 at 20:44

      …adendo

      O homem para conduzir sua vida sempre dependeu de referências externas a sua personalidade. Se o texto não nos leva ao paradoxo político, então…

      Parece que a autossuficiência da humanidade só virá pelo super-homem…

  2. E. Nowitzki
    15/07/2013 at 23:23

    A ausência de causas claras já deu a deixa. Ir às ruas para protestar por protestar. “Ah, mas é por melhor saúde e educação”. É mesmo? Você utiliza os serviços públicos?
    Ainda que utilizasse, o que seria uma melhor saúde e educação? Há uma miríade de interpretações sobre o que poderia ser isto. Então é preciso sentar e discutir. E isso se faz com inteligência e argumentos técnicos… Reformas. Querem o fim da corrupção. Mas como? Pedem um governo mais limpo e mais honesto, mas exigem medidas que requerem maior participação do Estado, o que dá margem para mais corrupção no “esquemão” atual.
    Não querem conversar, somente impor suas vontades. Parecem mais querer uma ditadura que um governo democrático. Querem Reforma Tributária? Jamais. Fim da militarização da policia truculenta, idem.
    Alguns pedem a saída de Renan. Para colocar quem? Como? Outros pedem o fim do foro privilegiado, mas esquecem que os réus do mensalão queriam ser julgados na 1ª instância. Por que será? Alguns, mais empolgados, querem a queda de Dilma, que foi constitucionalmente eleita. Desejo mudanças, mas que sejam democráticas. Por direitos o fascismo, o castrismo, o stalinismo, o regime militar do Brasil surgiram.
    Isso não é Revolução alguma, isso é mimo de quem já vive bem e está começando a enjoar do Ipad.
    Foram poucos que lutaram de verdade por mudanças… e foram rechaçados.

    • 16/07/2013 at 00:31

      Nowitzki, seu texto me pareceu apenas mimo de reacionário ressentido que não teve coragem de protestar. Triste figura.

    • 23/07/2013 at 20:30

      Seria melhor deixar tudo como está? Hmm…entendi. Esse camarada (sem ofensas, sei que és destro) desejava um protesto mais organizado. Pensa que faltou “aquela liderança”, um líder. Talvez, talvez. Mas haverá outras oportunidades, agora haverá. Antes não havia. Antes eu não acreditava que o povo fosse sair às ruas. Agora tudo mudou. Ficar sentado esperando a morte chegar definitivamente é discurso típico de alguém que aliena-a-ação.

    • LMC
      23/09/2014 at 10:41

      BOA,NOWITZKI!!!!!!!!!

  3. E. Nowitzki
    15/07/2013 at 22:44

    “Revolução do indivíduo”: bem que eu gostaria de poder me convencer.
    Revolução é uma palavra inadequada – pra não dizer infeliz – e utilizada num otimismo precipitado dentro do contexto observado após os movimentos das ruas durante esse último mês, onde as consequências sociais e políticas que trouxera foram nulas, efetivamente, e, em especial em Brasília.
    No máximo atribuiria-se para melhor conveniência “O incômodo do indivíduo”. Sim, foram apenas por 0,20 centavos.
    O Brasil acordou? Não, apenas trocou-se de um sonho para outro mais conturbado durante o sono. Quem nunca dormiu foram os pequenos movimentos sociais tidos como “subversivos”. O gigante só poderá acordar quando for necessário para tal, quando estiver maduro, não cru. Como todo ainda estamos na época de escoteiro-mirin. Quem não vê dessa maneira, desdenha tão somente da sociologia. A necessidade de dominar e ser aceito( não necessariamente pela maioria ) está intríseco ao ser humano desde a pré-história.

    Agora sim sobre o texto: “Aquele que não se interessa pelo universo político, por um político interesseiro será governado”, e vou mais adiante; se for ignorante de Direito e Economia, pior ainda… a não ser que você busque conforto na religião quase sempre que achar que precise, e/ou vivendo “distante”, achando que é livre nesse mundo cada vez mais interligado e pequeno.

    Prof. Ghiraldelli, terás que assumir que você tropeçou bonito.

    Vladmir Safatle 2 X 1 Paulo.

    • 16/07/2013 at 00:36

      Nowitzki, sua reclamação vai fica aí, para divertimento dos leitores. Mas já deu, duas pérolas ressentidas, e com final infantil, me deram a ideia de que os protestos estavam certos. Também foi contra esse tipo de gente que é você, os reacionários que querem fazer revolução quando eles puderem comandá-las, num ato mental megalômaco, que os protestos se deram. Sinceramente, você não bate bem da cabeça não. Mas meus leitores se divertem com tipos assim.

  4. Francisco Sulo
    13/07/2013 at 19:30

    O problema é que na melhor das hipóteses essa constatação tinha que indignar e não gerar essa aceitação, esse pragmatismo. Não há cidadãos habitando fora do domínio da pólis moderna senão involuntariamente, em razão de condições adversas.

    Prefiro a máxima kantiana aplicada a essas circunstâncias a ver a indiferença política se tornar uma lei universal.

    • 13/07/2013 at 19:38

      Sulo, você não entendeu nada do texto. Leia de novo. O texto é claro, leia devagar,principalmente a parte de diferença entre o antigo e o moderno. Não há indiferença política no mundo moderno, cara, ninguém falou isso. Porra! Não é possível, o que está acontecendo com os jovens que não conseguem mais entender um artigo simples?

    • Francisco Sulo
      13/07/2013 at 21:44

      Acho que não é esse o problema, mas sim esse perspectivismo de filiação nietzscheana (há outro?) que concebe a democracia sem a possibilidade do próprio demos ou um demos de férias.

    • 13/07/2013 at 22:30

      Sulo, puxa vida, que total salada sua cabeça. Porra, o texto é claro. Leia com cuidado.

  5. Juliano
    11/07/2013 at 01:33

    Sua astúcia em defesa da dita democracia “representativa” é gritante, agora nos vem com essa de que é necessário ter representantes que pensem e decidam por nós “em nome da liberdade dos indivíduos modernos que querem ter o direito de não ter que se incomodar com as questões políticas”, “para que quem não queira se envolver com política possa se isentar disso”. Ora bolas! Basta defender o voto facultativo esse problema estaria igualmente resolvido e com o direito dos que querem decidir os assuntos políticos preservados sem que estes tenham que alienar o seu poder de decisão e o seu direito de deliberativo de cidadão a outrem.

    E isso (democracia direta com voto facultativo que preserva a liberdade dos indivíduos que não querem se imiscuir nas decisões políticas) em nada obstruiria a democracia direta, ou seja em nada atingiria “essa liberdade conquistada na modernidade dos que querem ser idiotas se isentando da vida política”.

    PQP!

    Ah, e antes que venha dizer que “nem disse nada em defesa da democracia representativa” lhe digo, não disse explicitamente, mas está implícito nessa tua fala, é o pano de fundo que orientou esse seu discurso dessa postagem assim como fizestes do seguinte ponto (aos 56 minutos e 58 segundos) do seguinte vídeo:
    http://youtu.be/G3muVfw95KY?t=55m58s

    • 11/07/2013 at 01:52

      Juliano, não creio que você esteja entendendo como que caminha o texto filosófico. Mistura vídeo com texto. E pior, pega noções de um texto e transfere para outro. Esse texto aí que você leu, infelizmente, nem mesmo a temática central você sacou. Não dá. Você precisa ao menos levar em consideração o texto, e não levar em consideração o SEU texto, que você tem na cabeça e que gostaria de ver alguém escrever. Quer uma sugestão? Olha uma boa: ao invés de vir ler o meu texto, escreva o seu. Aí você terá o que quer. No meu texto, essas questões que você levantou não possuem qualquer sentido, não é delas que eu falo nesse texto. Esse texto que você leu esta centrado na ideia de democracia antiga versus democracia moderna, e a segunda é sim representativa, não porque eu quero, mas porque é assim que ela se colocou.Mas isso pouco importa. Você não entendeu como ficamos livre da política porque você não parou para ver que a política, no sentido totalizante, só existe no mundo antigo. Não é com mecanismo de voto obrigatório e facultativo que se fica livre da política. Já estamos livre dela no mundo moderno. Aliás, desde Alexandre estamos livres da política. Percebe agora como você não entendeu o texto. Você está pensando noutra coisa, e então não consegue se deixar levar pelo meu texto. Filosofia exige abertura e paciência.

  6. Rafael
    10/07/2013 at 10:59

    Paulo, você acha que é possível praticar ativismo (seja lá qual for) e, ao mesmo tempo, estar no pós-conceito?

  7. Ana
    10/07/2013 at 09:40

    Concordo vivo e sinto exatamente isso!!!Mas como queria que esse nova liberdade essa visão, chegasse até o Congresso, Assembleias, Prefeituras. É insuportável assistir os senadores debatendo a tarde inteira até a noite e no final da sessão não terem decidido NADA. E nós aqui já decidimos TUDO OU QUASE.

    • 10/07/2013 at 09:43

      Ana, não creio que você entendeu meu ponto de vista. Leia de novo. Não desqualifico a política ou o Congresso. E você não viu os protestos? Não viu o Congresso funcionando em seguida?

  8. monica marconato
    10/07/2013 at 05:18

    A economia extinguiu o universo político. Parece que toda a dinâmica social é um resguarde-se como puder, e se puder, da chuva que cai para alimentar a economia e quando cai. Se ela vai alimentar o homem, e quai e como e quando, em boa parte é ela que define. É Isso?

    • 10/07/2013 at 09:34

      Mônica, você deve fazer o texto da economista. Pronto. Monte um blog e faça. Escreva um livro.

  9. Felipe
    10/07/2013 at 02:16

    Professor, não entendi como é possível ”não embarcar na de Platão” como o senhor mencionou no artigo (a ideia de que deveríamos nos interessar por política, pois caso contrário a política nos atingiria sem que pudéssemos ter como controlá-la). Pois se a política é aquilo que lida com o poder (e digo isso não baseado no seu artigo mas em outras leituras) como podemos ”escapar” dos efeitos que esse poder provoca em nossas vidas?

    • 10/07/2013 at 02:45

      Felipe, leia de novo. Tem de ler com atenção, e não pegando frases aqui e acolá. O texto explica tudo, tudinho, por ele mesmo. O cara de cabeça cheia não entende, mas o de cabeça limpa, que pensa a novidade de cada frase, entende. Vá em frente. Confio em você.

  10. 09/07/2013 at 23:30

    Quem bom! Sobre o socialismo, a gente ainda vai conversar. Dentro do PSOL há muitos socialistas….Eu sou um deles. Mas jamais cederei ao que atacam as liberdades individuais, a democracia, ao direito de cada um de fazer o que quer e deseja fazer, mas….sem nunca prejudicar o coletivo, sem nunca tripudiar os outros, sem nunca atacar a liberdade do outro. A liberdade é sempre aquela que quer a liberdade de todos!!!

  11. 09/07/2013 at 22:42

    O seu relativismo conceitual é incrível. Não duvido de sua inteligência e depositário de informações. Mas, caramba, você não simplifica demais certas questões muito complexas?

    • 09/07/2013 at 22:45

      Chico, estou longe de ser um relativista conceitual, uma vez que estou longe de elaborar conceitos. Um pragmatista como eu não trabalha com conceitos. O que escrevi é nada mais que o que qualquer professor de filosofia escreveria ao distinguir o moderno do antigo. Mas isso não impede você de ter outra visão e escrever o seu blog, os seus textos, os seus livros. Por que não faz isso?

    • 09/07/2013 at 22:47

      Paulo, eu só quero que façamos uma discussão mais profunda das coisas. Para ser profundo não precisamos ser complicados!

    • 09/07/2013 at 22:56

      Chico, faça seu texto então. Para o meu gosto, o meu texto está pronto e acabado. O que eu queria dizer está dito. Não quero dizer mais do que isso. Tá tudo aí no texto. O meu leitor, o leitor que quero atingir, creio que será atingido. Mais que isso, só em livro. E assim mesmo, tenho optado por textos curtos, de cunho jornalístico, nos últimos livros.

    • 09/07/2013 at 23:12

      É por isso que estou pensando em me afastar desta agitação por um tempo. Não falo do “silêncio dos intelectuais” a que se referiu Marilena Chauí. Estou preparando dois livros. Depois voltarei! Ou não!

      E o que você acha do dia nacional de paralisação, 11/07, convocado pelas centrais sindicais?

    • 09/07/2013 at 23:15

      Eu não sigo centrais sindicais. Nunca segui sindicato. E agora menos ainda partido político. É uma opção que eu tenho. Caso eu vivesse não polis, não teria essa opção, eu seria um animal da polis, um animal político para poder ser humano. É isso que escrevi. Não há qualquer juízo de valor nisso. Isso não quer dizer que eu, quando preciso de algo, não vá recorrer a um político ou não vá apoiar um político. Por exemplo, eu apoio as ações pragmáticas do Jean Willis, ainda que eu não seja um apoiador das causas socialistas do PSOL.

    • Juliano
      11/07/2013 at 02:46

      1) Na Islândia, a Constituição é feita pela internet (e não em campo de futebol)

      http://colunas.revistaepoca.globo.com/ofiltro/2011/06/09/na-islandia-a-constituicao-e-feita-pela-internet/

      2) “Esse texto que você leu esta centrado na ideia de democracia antiga versus democracia moderna, e a segunda é sim representativa, não porque eu quero, mas porque é assim”

      – Mas você gosta que seja assim. Esse seu historicismo! Olhemos de uma perspectiva estrutural, não importando o “quando” (tempo), velho e novo. O que importa é o que é e como é e não o “quando”. Filosofia não é filosofia temporal, aliás só é filosofia por dizer respeito ao universal (em termos de tempo e espaço – em todos os lugares e em todos os tempos).

      3) “Você não entendeu como ficamos livre da política porque você não parou para ver que a política, no sentido totalizante, só existe no mundo antigo.”

      – Depende do conceito de “política”. Eu fico com a excelente definição de Aristóteles que parafraseio . Pois a política é a ciência que busca os melhores meios para os melhores fins e tudo o que se faz, se faz tendo-se em vista que é o melhor que se podia fazer dentro dos vários contextos que envolvem a vida de cada um. Ou seja, tudo o que se faz, se faz buscando o bem, mas como o bem é análogo e não unívoco, alguns bens interferem na busca de outros bens por isso que apesar de buscarmos a excelência na maioria das vezes não a atingimos, mas a buscamos e mesmo se não a buscamos é porque nos desviamos para outros bens menores que nos pareciam serem maiores do que na verdade são.

      Bom, em suma eu só quis mostrar que segundo penso, todo ser racional, ainda que em seu dia a dia, fazendo trabalhos domésticos ou qualquer atividade com um fim já está agindo politicamente (embora não na política oficial/profissional). Esse é um conceito muito importante pois nos mostra que somos responsáveis por nossos atos e atores de nossos valores e projetos ininterruptamente. Algo que acho imprescindível para que as pessoas ajam bem, pois quando as pessoas acreditam que não tem liberdade alguma ou que “política é coisa de políticos profissionais” elas acabam se afastando da política, se afastando de suas responsabilidades, e ai sim acabam entregando tudo nas mãos deles os políticos engravatados filhos da puta (em sua maioria).

    • 11/07/2013 at 03:02

      Juliano, cada vez mais está piorando, agora começou com “historicismo”, imputado a mim? Você não consegue focar no texto, tem muita coisa na cabeça. O texto vira pretexto. Olha, segue meu conselho: faz um blog para você e ponha lá seus textos. Os meus, ao menos este, pelo que você escreveu, você não entendeu.

    • Magno Jr
      11/07/2013 at 10:32

      Tenho que descordar de você Juliano quanto a: “O que importa é o que é e como é e não o “quando”. Filosofia não é filosofia temporal, aliás só é filosofia por dizer respeito ao universal (em termos de tempo e espaço – em todos os lugares e em todos os tempos).” Vejo a filosofia como algo temporal, de Platão à Rorty todos escreveram tendo em vista as questões de suas respectivas épocas. A ideia de que a filosofia é universal e atemporal acredito que seja pelo seguinte: é muito fácil alguém ler um filosofo independente de sua época e projeta-lo em sua realidade, usando tal filosofo como um oraculo, um profeta, um messias ou ate mesmo um deus, o que quero dizer é que tem gente que vê nos filósofos pessoas que tem as respostas de como o mundo, a realidade “realmente é”, tem gente que esquece que os filósofos são humanos que estavam contribuindo para a tradição filosófica com suas descrições, ou suas “opiniões bem elaboradas” (infelizmente muitos filósofos também acreditavam (e ainda tem filosofo que acredita) que estavam dizendo como “as coisas realmente são”, e era difícil não ser assim, pois, havia todo um contexto que propiciava esse tipo de pensamento. Eu sei que é difícil para alguns aceitarem, mas, tem filósofos que não servem para nossa época, ou melhor, não são adequados ao nosso contexto.

    • 11/07/2013 at 10:43

      Magno, o clássico é temporal e atemporal. Ele é de sua época, mas se põe de uma forma que homens e mulheres de outros lugares e de outros tempos podem dizer: “nossa, tudo diferente de nós, mas está falando de nós”. A filosofia é esse tipo de narrativa, ou pretende ser. Em alguns filósofos ela é tão forte assim, que ficamos com a impressão de que ela alcançou seu objetivo de ser a voz dos deuses.

  12. Thiago Leite
    09/07/2013 at 22:21

    A política é heraclitiana?

    • 09/07/2013 at 22:46

      Thiago, não tenho a menor ideia do que quis dizer.

  13. Helton Delgado
    09/07/2013 at 21:58

    Paulo,

    A visão mais pragmática hoje em dia foi quem abriu os olhos da população. Entre grandes protestos e as pequenas manifestações, podemos ver que o conteúdo utilizado foi apolítico. A visão usada foi o bem social, condição de vida, condições de trabalho. Porque não também condição social(homossexuais). O povo exclamou pelo povo.

    Ainda bem, pois se algum político estivesse envolvido não conseguiríamos ver o que vimos. Com absoluta certeza haveria uma desvirtuação da causa almejada. E como consequência não daria em nada.

    A maioria dos políticos em geral nunca governaram para o povo. Sempre governaram pelo poder. A fantasia de 90% da população brasileira. “O poder pelo poder, pois assim não haverá ninguém para me diminuir e quem tentar eu vou esmagar como se fosse formiga.”

    Posso estar errado neste pensamento a mas a verdade é que ele não está tão errado.

    • 09/07/2013 at 22:48

      Eu estive na manifestação, como cidadão e filósofo. Fui lá por motivos políticos. Mas gente como eu, que age politicamente, erra bem mais que outros.

    • 09/07/2013 at 23:23

      Amigo Helton, as manifestações de rua, por questões sociais, econômicas, seja o que for, são manifestações políticas. A política não é necessariamente partidária! Política vem de “Pólis” = cidade = cidadania: participar dos destinos da cidade! É isso!

    • 09/07/2013 at 23:27

      Eis aí o erro. Nem todos estavam na manifestação por causa das relações entre estado e sociedade, entre estado e indivíduo, nem todos estavam nas manifestações para reclamar da vida da polis. As manifestações tinham cartazes que tinham a ver com a administração pública, mas também cartazes que tinha a ver com recados para pessoas, individualmente, inclusive cartazes que diziam coisas da esfera privada, de ética e moral. O mundo moderno não é um mundo dominado pela polis, só o mundo grego clássico o foi. Essa dimensão que não é da polis é o que os socialistas nunca conseguiram entender. Eles são herdeiros de Hegel, e Hegel, ao menos em uma versão, sempre teve como ideal a volta à polis grega. Mas essa volta, para pessoas como eu, não é nem possível e nem desejável.

    • 09/07/2013 at 23:40

      Paulo, quer queira quer não, foi uma MANIFESTAÇÃO POLÍTICA!!! A esfera individual depende, ou melhor, participa da dimensão política, social, cultural. E vice-e-versa!

    • 10/07/2013 at 01:22

      Chico, eu prefiro ficar com a filosofia no que ela tem de rigor na distinção entre o mundo moderno e o mundo antigo. Não acho nem um pouco útil essa ideia de que o mundo moderno é igual ao antigo e que nossas atitudes são políticas. Aliás, nem acho correta. Minha formação de filósofo não me permite cometer esse erro. Se dependesse de mim qualificar as coisas de “política” e de “não política”, abandonando a filosofia, tudo bem. Mas não posso fazer isso. Eu pisaria na minha formação se igualasse a polis grega, onde o indivíduo tem seu horizonte como político, ao que é o estado moderno, onde a esfera do privado e do político se separam. Aliás, eu assassinaria a sociologia também se assim fizesse. Mataria a definição, aceita por todos os scholars, da “autonomia das esferas de valor” (Weber) como uma característica da modernidade. Enfim, eu cairia no senso comum, e não posso fazer isso. Dizer que “tudo é político” não faz sentido para ninguém que queira ter algum respeito pela sociologia e pela filosofia. Eu teria de jogar fora meus doutorados e tudo o mais. Não posso, gosto dos meus títulos.

    • Helton Delgado
      10/07/2013 at 01:01

      Chico,

      Vejo essas manifestações de forma oposta. As que aconteceram tiveram caráter puramente apolítico. Claro, tenho que admitir, que entre eles tiveram manifestações políticas. O que interessa, o principal, era que não haviam apenas manifestações políticas.

      Podia-se ver uma variedade enorme de pessoas lutando por elas mesmas. Que por acaso era o que outras pessoas queriam. Essas pessoas se uniram para defender o que elas queriam, por mais que fosse algo comum, era o que, individualmente, queriam.

      Dessa forma não vejo que até aquele que se declara apolítico é político. Uma forma não exclui a outro de maneira nenhuma.

    • 10/07/2013 at 01:27

      Helton, o Chico funciona com a cabeça da retórica militante dos anos oitenta. Se ele quisesse, ele entenderia meu texto. Ele faz que não entende por razões sentimentais, ele quer manter aquela retórica, aquilo lhe acalenta a alma. Mas ele sabe que está errado. A própria lógica o ensina: se tudo é político, então, não há o não-político e, assim, não há que dizer que tudo é político. Quando se dizia nos anos 80 que tudo é político, o que se queria não era falar a verdadde, o correto, era apenas jogar nas costas dos técnicos que se diziam neutros politicamente, que eles agiam politicamente sim. Mas hoje essa retórica não está mais na jogada, e então voltamos a pensar dentro de certo rigor que mostra que política tem a ver com a polis. Ora, a polis é um horizonte que não é nada parecido com o estado moderno. Nossa democracia liberal tem pouco a ver com a democracia antiga. A democracia antiga não tem ênfase em direitos individuais, mas na predominância da polis, da comunidade. A nossa democracia liberal, pós-guerra, é uma democracia dos direitos humanos, dos direitos individuais, que a democracia política, a democracia da polis, não conheceu. Se o Chico lesse o meu Filosofia política para educadores, ele entenderia. Mas eu acredito que ele não quer entender se o entendimento tiver de mudá-lo. Militante político odeia mudar.

  14. leo guerra
    09/07/2013 at 21:42

    Professor, a politica ” o estado” a meu ver, causa interesse , preocupaçao ou “indignação”estritamente quando se encontra com os meus mediocres interesses…

    • 09/07/2013 at 22:50

      Leo, os seus interesses são medíocres? Creio que os interesses do indivíduo são, na maioria, legítimos. Se o Estado não for instrumento para o indivíduo, fica difícil, modernamente, legitimá-lo, não?

  15. Dukatano
    09/07/2013 at 20:47

    Entendi o sentido.

  16. Fábio Siqueira Lessa
    09/07/2013 at 20:33

    Olá professor
    Gostei muito do seu texto. Mas como não ser atingido pela política? Se eu não me posiciono, eu consinto. Não é isso o que dizem?
    abs

    • 09/07/2013 at 20:38

      Fábio, leia de novo, a resposta está no texto.

    • 09/07/2013 at 22:45

      Olá, Fábio:

      Também faço a mesma pergunta: a maior ideologia não é aquela que afirma: “eu não tenho ideologia”?

      É impossível não ser político. Todos somos políticos, inclusive o Prof. Paulo Ghiraldelli.

    • 09/07/2013 at 22:54

      Chico, tua resposta é de quem não entendeu o meu texto. Triste isso! Todos somos políticos é exatamente o que eu digo que é falso. Talvez você, ao participar de uma doutrina que nunca respeitou a liberdade individual, tenha dificuldade de separar o que é da espera política e o que é da esfera particular. Mas boa parte de nós, faz bem essa distinção. O que escrevi é que pessoas como você hipostasiam a política porque não perceberam que não vivemos mais na polis. A cidade nossa, o estado moderno, nossa vida moderna, não é uma vida política. Essa é a diferença entre nós e os antigos. Fui claro no meu texto. Se ler de novo, vai perceber isso.

    • 09/07/2013 at 23:04

      Paulo, não diga que eu não respeito a liberdade individual! É o que mais defendo! Mas nunca o individualismo. Mas por que não vivemos mais na Pólis? Se for verdade, que pena!

    • 09/07/2013 at 23:08

      Chico, não vivemos mais na polis porque ela acabou antes mesmo da morte de Aristóteles. Nosso estado, nossa cidade, não é a polis. Na nossa vida a política é uma opção. Meu Deus, qual a novidade que estou dizendo? Qualquer aluno do ensino médio no meu tempo de garoto aprendia a distinção entre democracia antiga e democracia moderna, entre a “liberdade dos antigos” e a “liberdade dos modernos” (Benjamin Constant). Putz, isso é o beabá da filosofia política. Não estou criando nada.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo