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21/10/2017

Direita e esquerda


Direita e esquerda

Os liberais inventaram a igualdade perante a lei. Nada de ser julgado pelo dono da terra, segundo seus critérios vAmerican conservatives and liberalsoláteis e idiossincráticos. A lei é a lei: escrita (ou quase isso), sempre igual, aplicável da mesma maneira ao rico e ao pobre, ao coxo e ao lépido, ao homem e à mulher, ao branco e ao negro etc.

Os conservadores tradicionais nunca gostaram do liberalismo. Diziam eles: não somos iguais, então, por que a lei deve ser igual em sua aplicação?  Partindo dessa ideia, sempre tentaram criar situações especiais, de modo que a justiça pudesse ser cega, mas não tanto a ponto de não querer notar o rosto magnânimo dos ricos e poderosos.

A esquerda descobriu um dia que talvez os conservadores tivessem lá alguma razão: não somos iguais. E mais: se quisermos lutar por uma comunidade de igualitarismo rasteiro, vamos acabar construindo antes uma granja industrial que uma sociedade. Então, a esquerda, ao menos a mais inteligente, começou a redirecionar sua oposição aos liberais, sem se igualar à oposição dos conservadores tradicionais. Passou a dizer que não somos iguais e, por isso mesmo, não conseguimos nem ser iguais perante a lei. Para sermos iguais perante a lei teríamos de ter mecanismos de compensação no meio do caminho, de modo que, ao fim e ao cabo, pudéssemos ser iguais perante a lei.

Foi assim que do liberalismo tradicional chegamos ao primeiro novo liberalismo, como se dizia na América, e à social-democracia, como se dizia na Europa. Nos Estados Unidos, foi a época do New Deal, na Europa, foi a época do pós-Guerra.

O liberalismo social americano e a social democracia europeia tiveram seus altos e baixos, nós sabemos bem, mas estão longe de ser uma ideia descartável. São boas políticas. São de base inteligente. Todavia, nos dois casos, elas demandam um carreamento dos recursos dos impostos para as políticas sociais que visam fazer com que os menos ricos e menos poderosos não cheguem aos tribunais de um modo tão desvantajoso que, enfim, acabe por gerar uma justiça não cega. Sempre há o perigo que a justiça tire a venda dos olhos e privilegie o rico se o pobre, ao seu lado, é muito pobre a ponto de ser insignificante. Afinal, se a justiça é cega, é para olhar para dois e não ver nenhum dos dois. No entanto, se um dos dois é muito insignificante a ponto de nem ser uma pessoa, de nem existir, qual a razão da justiça ter de ficar com venda nos olhos? Não há dois, há um só para ser julgado. Então, não há mal em tirar a venda e ver quem é o réu. Fazer com que o mais humilde não chegue ao tribunal tão pobre e tão sem poder a ponto de ser descartado como alguma coisa que nem é existente, é a função das políticas sociais que vieram após o liberalismo clássico.

A direita democrática quer diminuir a ação dessas políticas sociais. Ela invoca o perigo da feminilização da sociedade. Ela diz que cada um, na sociedade, venha de onde vier, deve trilhar o seu caminho de fracassos. O fracasso, diz ela, faz com que cada um se torne humano, isto é, saiba o que é a dor, e então possa compreender a dor do outro. Sentir o fracasso e a dor torna todos menos maricas, cria uma sociedade com pessoas não cruéis, porque o conhecimento da dor produz pessoas másculas, que sabem que para sair do buraco é preciso coragem e determinação, porque não haverá nada que possa ajudá-las. Assim, os conservadores entendem que ao fazer das pessoas “gente máscula” terminará por ter uma sociedade com menos problemas, com menos manha, fintas e matreirices.

A esquerda duvida muito que o fracasso individual de cada um ajude a se ter, ao final, um conjunto social melhor. Para a esquerda o fracasso cria antes de tudo o ressentimento. A esquerda nem precisaria ler Nietzsche para aprender isso. Marx falou disso quando comentou sobre o “comunismo de inveja”. Os ressentidos não desejariam o fim da propriedade privada para organizar uma nova sociedade, mas apenas para ter o gosto de ver o patrimônio dos ricos em suas mãos, enquanto funcionários públicos da nova ordem.

Fracasso e perda, para determinada esquerda, nunca foi atrativo. Nisso, ela se opôs à direita. Esta, por sua vez, acusou a esquerda de ser “religiosa”, ou seja, de usar da política social como que um segundo cristianismo, uma forma de proteger os pobres, então tomados como “coitadinhos”. A esquerda retrucou dizendo que o cristianismo estava na direita, que queria que todos passassem, efetivamente, pelo pecado e expulsão do paraíso, uma vez que só o fracasso e a dor dariam condições de fazer o homem ser alguma coisa digna para uma sociedade justa. Para a esquerda, ter o estado fornecendo um apoio nunca foi um modo de gerar “coitadinhos”, pois o que gera este tipo de personalidade, segundo a esquerda, é justamente a vida em condições indignas que anos e anos de pobreza podem produzir. O que gera o “coitadinho”, efetivamente, para a esquerda, é chegar aos tribunais e, tendo razão, sempre perder.

Esse debate entre esquerda e direita não está empatado. As vitórias de um lado e outro não se dão em simetria. Nenhuma sociedade ocidental cedeu à direita totalmente, mesmo após a onda de mais de vinte anos de políticas autodenominadas neoliberais, caracterizadas pela tese da retirada do estado do comando das políticas sociais. Assim, em termos práticos, os Welfare States do mundo não foram destruídos. Mas, é certo, há muito mais gente hoje que ontem acreditando que talvez não seja bom pagar impostos como pagamos, porque esse dinheiro vai ser carreado para a política social e esta, enfim, não irá necessariamente gerar uma sociedade de pessoas melhores. A tese da direita é que pessoas ajudadas por alguma política social crescem sem fibra moral e, enfim, terão pouco a oferecer em qualquer tipo de organização social.

Desse modo, o resultado que temos hoje, no Ocidente, é que em termos de estrutura da organização legislativa dos países, o Welfare State não perdeu muito, mas, em termos de mentalidade, estamos longe daquela ideia dos anos sessenta, de generosidade de todos para com todos, quando vários dos que educam os educadores começaram a insistir que nenhum de nós precisava do Calvário para ser gente.

Paulo Ghiraldelli

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