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24/03/2017

Cada porquinho-filósofo tem o seu Lobão


Cada porquinho-filósofo tem o seu Lobão

O intelectual que se agarra em Nietzsche para dizer que os programas de bolsas e cotas de qualquer governo criam vagabundos casa-se facilmente com aquele montado em Marx que afirma que a classe média é fascista. Juntos eles podem gerar um filho esteticamente comprometedor: o baterista e agora scholar da história contemporânea Lobão.

Quando os intelectuais começam a falar para além do que podem se garantir o que ocorre é que os não-intelectuais acreditam que podem falar mais que eles. Então, a sociedade cria mais falantes que ouvintes. Todos nós falamos e nenhum de nós mais escuta. Perdemos a hierarquia inerente ao “você sabe com quem está falando?” não para o bem, mas para o mal. Essa frase odiosa, ao invés de ser superada e afastada, passa por uma reformulação: “você sabe quantas mentiras eu tenho contra você?” Termina a filosofia e começa a balbúrdia. Termina a política e começa a politicalha.

O erro nosso, dos filósofos (eu me incluo, claro!) e dos intelectuais em geral, é que nós não achamos que escrevemos sobre experiências individuais e particulares, nós acreditamos que nossa boca, por conta de nossa alta escolarização, está ligada às bocas dos deuses, isso quando nós mesmos não substituímos a fala de Deus.  Nenhum de nós se vê como professor de sua universidade e como quem, na maior parte das vezes, não consegue falar para além desse mundinho. Não! Nós nos vemos como espectros distribuídos e estendidos pelo cosmos, falando o que há de universal para ser falado. Acreditamos nisso e, quando assim agimos, esquecemos que até mesmo Deus teve de escrever a Bíblia, ou seja, dar alguma explicação do que pensou. Assim, transformamos a Universidade X e, não raro, o grupo Y em Mundo e daí para diante levantamos teses aplicáveis somente ali, mas que achamos que no mínimo descreve a sociedade em que vivemos.

Vou até à PUC-SP e encontro meia dúzia de velhos militantes da teologia da libertação lendo Marx. Eles querem salvar o mundo. Para fustigá-los conto para eles da existência de Stalin e saio rindo. Eles são dinossauros e eu, me achando na vanguarda, sou uma molécula proteica. Ainda não sou um ser vivo propriamente dito.

Abro a internet ou a TV e recebo as informações dos mesmos meios de comunicação e todos eles estão pedindo a pena de morte e a diminuição da maioridade penal, opinião esta que também encontro até entre colegas da universidade pública, principalmente os que não são do meu partido. Então concluo que devo falar em alto e bom som que Mussolini está vivo e está em toda parte. Vi dinossauros, mas eu, me achando vanguarda, sou a tal molécula proteica.

Nos dois casos, no da PUC e no do passeio pela universidade pública, não me percebo ainda molécula, acho que já estou no meio do processo evolutivo. Não, de certo modo, estou até aquém dos dinossauros. Nem sempre estou no âmbito do pós-conceito que me imagino estar. Posso simplesmente estar ainda alimentando pré-conceitos. É difícil perceber isso?

Ora, se alguém como Lobão escuta toda essa converseira e vê que do mundo antediluviano pode-se criar um Facebook ou então um conjunto de palestras em um shopping qualquer, para que “a Cultura chegue às massas”, por que ele, da banqueta da sua bateria, não pode dizer que em 1964 o povo saiu às ruas, aos milhares, para combater o comunismo e fazer a Redentora? Aliás, computando tudo, Lobão tem até mais fundamentos que as outras falas. As outras falas querem insinuar que seus emissores possuem  um cabedal de livros de filósofos, todos lidos, e por isso são legítimas. Ora, mas não é bem assim. Nietzsche e Marx fizeram loucuras em suas vidas, um abraçou cavalo e falou mal da namorada e o outro fez o amigo endossar uma sua gravidez. Mas, quando quiseram falar verdades universais, realmente falaram e tinham documentos estudados para tal. Nesse sentido, Lobão está até mais próximo deles que outros: há uma reportagem da Seleções do Reader’s Digest sobre a Revolução de 1964 chamada “O país que salvou-se a si mesmo”, mostrando como que o Brasil fez uma revolução própria e livrou-se do comunismo. Comunismo de … Jango! Piada por piada a de Lobão tem … bibliografia! Em outras palavras: ele tem ao menos um elemento inerente ao que e requisitado nesse seu novo posto de scholar.

Estou convencido que nós temos que começar a repensar algo que Foucault insistiu em nos dizer que era importante: o lugar de onde se fala. Filósofos e intelectuais em geral, nós mesmos, temos de saber que o nosso lugar é um espaço legítimo de fala se mantemos nossa capacidade de fazer vingar a epoché de Husserl, aquilo que Peter Sloterdijk tem dito, acertadamente, que é a prática pela qual se caracteriza um intelectual. Um intelectual não precisa ficar emitindo juízos e tomando posições como se fosse um político. Quando age assim, empolgado por hormônios da menopausa ou andropausa – e todos nós, vindos do barro, estamos sujeitos a uma tal fisiologia – o intelectual pode simplesmente anunciar o seu fim e, às vezes, o fim da legitimidade do seu lugar de discurso. Até intelectuais falam sem pensar (e não concluam que não pensei muito antes de escrever essa frase!). Quando isso ocorre, todo saber e toda discussão valerá, para os não iniciados, como a mesma coisa, e depois de um tempo até mesmo os iniciados perderão os parâmetros do que é razoável e do que não é razoável dizer sobre situações, eventos, pessoas e instituições.

Na minha formulação resumida ao máximo a filosofia é a desbanalização do banal, ela não é e não pode ser a perpetuação do banal. Ela não quer destruir o banal ou dizer que ele não vale nada. Ela quer a desbanalização para que a vida possa ser vivida a cores, não somente em preto e branco. Mas, não há pressa na desbanalização. Há trabalho contínuo. E às vezes há descontinuidade no trabalho contínuo. No entanto, não necessariamente essa desbanalização se anuncia por meio de frase de final de jogo. Não há o dia em que vamos até a TV e dizemos: aqui está o mundo desbanalizado. Ora, em parte, esse tipo de comportamento abrupto é o que é pedido a nós pelos meios de comunicação. Ora, o sucesso pessoal nosso, nessa hora nos pega em nossa vaidade, e então fazemos frases bombásticas e, depois, começamos a acreditar nelas ou sermos forçados a acreditar.

O que falamos precisa estar agregado a argumentos lógicos e/ou empíricos dialetizados, isto é, o nosso discurso precisa ser checado por outros que digam para nós, sem receio, coisas do tipo: você fala do seu mundinho, não do mundo. Tenho tentado de toda maneira escutar os que respondem ao que escrevo para não permanecer como uma molécula proteica de barba branca. Não é fácil. Mas é necessário, porque o Lobão está rondando os porquinhos. Ora, da minha parte, quero preparar o tacho e colocar sob a chaminé. Mas porquinhos meus colegas às vezes querem, apressadamente, apenas pular e cantar.

2013 @ Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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33 Responses “Cada porquinho-filósofo tem o seu Lobão”

  1. Igor
    27/09/2013 at 20:00

    Não aguenta 5 minutos de debate com o Lobão.

    • 28/09/2013 at 01:50

      Igor, você realmente não sabe o que é filosofia. Todo olavete é infantil, pois Olavo é infantil. Pensam que filosofia é luta, é ringue, é debate. Ninguém vai gastar tempo com Lobão ou Olavo ou outro desescolarizado desse tipo cara. Acorda!

  2. Julia Dig
    30/05/2013 at 02:28

    Paulo, penso que fui indelicada ao nomear os filósofos.

    Se puder ( e achar necessário) pode retirar o último parágrafo do meu comentário.

    Continuo temperando meu caldeirão, escutando a coruja.

    Abraço.

  3. Julia Dig
    30/05/2013 at 02:09

    Realmente uma pena ver talentos filosóficos desperdiçados com as vaidades e luzes efêmeras de partidarizações, reduzindo seus pensamentos ao cantos de sereias, ficando monocórdios e repetitivos, abrindo brechas para os lobinhos se animarem a tamborilar em portas alheias.

    Também tenho caldeirões prontos.

    Recado muito bem dado aos Pondés e Chauís e seus perigosos e amplificados lugares de elaboração de discursos.

    Abraços.

    • 30/05/2013 at 03:46

      Julia, os filósofos são humanos, quando eles se imaginam deuses, erram. Errar é dos deuses, no caso dos filósofos. Agora, na minha opinião, a filosofia é o espaço do erro.

  4. Edgar
    29/05/2013 at 16:14

    Acho que o texto diz que a existência de “Lobões” é apenas uma conseqüência da educação deficiente do brasileiro, e à desvalorização de um método mais rigoroso nas ciências humanas. No meio a esse caos um lobo eventualmente se torna famoso e sai espalhando informações distorcidas, prestando um desserviço aos verdadeiros intelectuais e à sociedade. Cheguei ao seu blog e comecei a assistir ao Hora da Coruja graças, ironicamente, a um vídeo do Lobão no café filosófico. Vi sua participação no programa do Jo. É clara a diferença, o que os “Lobões” dizem não merece crédito. Se quer aprender aprenda com quem é qualificado para ensinar. Se eu estiver falando besteira mesmo assim creio estar contribuindo com este meu comentário, pelo menos como um exemplo de mais um não-intelectual que entendeu tudo errado.

    • 29/05/2013 at 17:20

      Estou preocupado comn o que alguns intelectuais dizem, movidos pela política, o que faz com que Lobões possam falar também.

  5. Orivaldo
    29/05/2013 at 11:35

    Vou ler seu texto novamente Paulo, e com prazer, mas independente dele ser ou não sobre o Lobão, e isso eu já percebi, o nome “LOBÃO” aparece mais de doze vezes nos comentários… O Lobão é o cara do momento. Podia ser o Danilo Gentili ou qualquer outro garoto do momento. A questão do texto está definida nos primeiros parágrafos. Esse é o assunto. Não perceber isso é um problema grave que vem atingido a juventude e está me preocupando. Os exames do PISA tem mostrado isso, o brasileiro não consegue ler, está lendo mal, não consegue entender o que lê.

    • 29/05/2013 at 14:43

      Orivaldo, você teria se saído melhor se não fizesse esse comentário. Vou dar uma chance para você pensar também no seu comentário e retirá-lo.

  6. Orivaldo
    29/05/2013 at 08:39

    Paulo, não tem como ler seu texto e achar que você não está falando do Lobão, Pode não ser essa a sua intenção, mas quem o lê o faz com o Lobão e suas tagarelices na cabeça… Ta certo, Lobão é só um gancho que te leva a falar de coisas com mais subjetividade e objetividade que o assunto Lobão propicia. Talvez você mire no Lobão pra acertar os porquinhos e o faz com maestria. Mas o Lobão é mais pop.

    • 29/05/2013 at 11:04

      Orivaldo, infelizmente, você não entendeu meu texto. Mas outros entenderam. Se você ler novamente verá que o texto não começa com o Lobão e que o nome do Lobão poder ser trocado por qualquer pessoa que não seja um intelectual. Presta atenção lá, leia como se deve ler um filósofo, sem correria.

  7. Elton Nascimento
    29/05/2013 at 00:49

    É muito bom ler textos assim. Parabéns Paulo.

  8. leo
    28/05/2013 at 23:46

    professor, considere pelo menos a relevancia do que ele declara, a despeito de sua pretensao…pra mim o que lobao declara sempre pode ser aproveitavel de alguma forma

    • 29/05/2013 at 02:12

      Leo, o Lobão tem a minha idade. Já era para ter criado juízo. Conheço o Lobão faz tempo.

  9. 28/05/2013 at 22:34

    Eu acho q Lobão deveria ficar no canto dele e ser um baterista e n ficar dando uma de “filósofo” pois nisso n tem nenhum talento.

    • 29/05/2013 at 02:12

      Ele não está falando de filosofia, ele é agora um historiador. Os jovens olavetes aprendem história de 1964 com ele.

  10. Collingwood
    28/05/2013 at 21:06

    Não concordo com você. É claro que existe subjetividade no livro do Lobão (mas acho que nisso você não está falando sério), assim como existe subjetividade na minha leitura e na sua leitura (embora ache que você não leu). Sim, em seu livro ele fala muitas coisas que a historiografia contemporânea contradiz. O ponto forte do livro, entretanto, não é História (com H maiúsculo) e sim os “causos” que ele conta, que são bem engraçados e não deixa de ser uma crítica, do autor, sobre alguns aspectos da cultura nacional: chauvinismo “caipira”, música e o peso da Semana de 22 para o desenvolvimento da cultura e a transformação da “memória” da mesma em dogma. Por pura coincidência, o historiador Sergio Miceli publicou um artigo na Folha-Ilustríssima,uma semana antes da entrevista do Lobão na Ilustrada, sobre o “estrago” causado pela “Semana de 22” para a arte acadêmica brasileira, que foi jogada nos porões das reservas técnicas de museus e só agora, 10-15 anos últimos, é que ela vem sendo revalorizada. Qual era a crítica à arte acadêmica? Ela não era autêntica, não era verdadeiramente nacional, só imitação… Não é difícil associar o episódio com a tentativa de censurar guitarra elétrica né? Não estou dizendo que o livro do Lobão é um livro acadêmico, mas nem tudo é de se jogar fora também…

    E, por incrível que pareça, ainda acho o discurso do Lobão melhor que o delírio da Chauí…kkk

    • 29/05/2013 at 02:14

      Querido, meu texto NÃO é sobre o Lobão.

    • Collingwood
      29/05/2013 at 14:28

      De qualquer forma, é possível criticar a Semana de 22 utilizando aquilo que o Lobão fala de sua experiência pessoal com a música, relacionando esta com outras experiências pessoais ou no campo da cultura em geral, como é o caso da exclusão da arte acadêmica daquilo que seria a expressão “genuinamente” brasileira. O filósofo-porquinho, no caso, não estaria falando nenhuma bobagem.

      abraços por trás

    • 29/05/2013 at 14:42

      Meu caro se você precisa do Lobão para Criticar a Semana de 22 você realmente está mal.Se há algo que ganhos críticos inteligentes e eruditos foi a Semana de 22. Tem dó né?

    • Colin
      29/05/2013 at 16:04

      Ghiraldelli, não entrei no mérito da fonte para criticar a Semana de 22.

      Só que, historiograficamente falando, não há nenhuma restrição em utilizar o Lobão para criticá-la. O ponto é que o filósofo-porquinho não estaria equivocado em utilizá-la, no máximo, ele poderia ler uma ou outra coisa a mais para não ficar monocórdio.

      abraços por trás.

    • 29/05/2013 at 17:23

      Colin, meu texto NÃO é sobre o Lobão.Acho que dá para perceber né? E outra coisa: se você quer mostrar para todos que você é um leitor assíduo do Lobão e que vem aprendendo com ele sobre a Semana de 22, vá em frente. Há gente que diz que aprende com o Olavo de Carvalho, que não passou no vestibular! Isso é um problema seu. Eu fui escolarizado, fiz o ensino médio, então, eu tenho outras referências. As corretas.

  11. Henrique
    28/05/2013 at 20:02

    Ansioso pelo Hora da Coruja de hoje…sempre ótimos temas, discutidos de forma clara e elucidativa…

  12. Mauro Oliveira
    28/05/2013 at 19:29

    Lobão é um rebelde “resmungão” sempre tenta chamar atenção. Antes era militante do PT, agora frequenta jantares de direita. E seu livro é um manisfesto da insatisfação, com muita subjetividade.

    • 28/05/2013 at 20:21

      Não, Mauro, não há subjetividade alguma, nem objetividade.

  13. Mauro Oliveira
    28/05/2013 at 19:27

    Lobão é um rebelde “resmungão” sempre tenta chamar atenção. Passou de militante do PT, para frequentar jantares de direita. E seu livro é uma manisfesto da insatisfação, com muita subjetividade.

  14. Henrique
    28/05/2013 at 19:12

    Paulo, gostaria que você falasse se ainda existe influência da semana de 22 na nossa cultura, para o bem ou para o mal. A crítica de Lobão ao antropofagismo é válida? Necessitamos de uma revolução cultural como ele deseja? Obrigado…

    • 28/05/2013 at 19:19

      Escutar o Lobão atualmente é perder tempo. Ele não fala coisa com coisa. Agora, claro que 22 está presente em nossa cultura.

  15. Bruno
    28/05/2013 at 17:56

    Falou bem, porque aquele livro novo do Lobão é muito subjetivo.

  16. Orivaldo
    28/05/2013 at 17:22

    Será que pra Lobão é importante o que ele fala, ou o “por que ele fala” ? Talvez lembrando René ele apenas o tenha parafraseado gritando “FALO, LOGO EXISTO”.

    • 28/05/2013 at 18:32

      Orivaldo, por que você está dizendo isso? Não é isso que nós estamos propiciando?

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