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25/02/2018

As mulheres sofredoras de Karl Marx


As mulheres sofredoras de Karl Marx

Como um sogro feroz e conservador, Marx chamou a atenção de Paul Lafargue para o que ele permitiria e o que ele não permitiria no namoro deste com sua filha. Lafargue foi o autor de O elogio da preguiça, mas parecia não ser nada preguiçoso quando avançava sobre Laura. Marx, por sua vez, agiu como um “guarda cabaço conservador”.

Marx foi um jovem apaixonado e, é certo, realmente casou por amor. No entanto, se não fosse Engels, não teria sido um bom marido para Jenny von Westphalen, pois, vivendo em um tempo de reprimendas à atividade jornalística, que era seu ganha pão, nem sempre conseguiu dinheiro para manter a família, o que foi resolvido por meio da fortuna do amigo. Manteve durante toda a vida grande amor pela esposa, mas era suficientemente capaz de não jogar fora sua condição de macho garanhão. Como de praxe, investiu sobre a empregada doméstica da casa e, também como de praxe, engravidou-a. Passou para a história como nota célebre na biografia de Marx o episódio em que Engels, para livrar o amigo das garras da esposa, assumiu a gravidez da empregada. Tudo indica que Jenny gostou de poder acreditar nisso.

Marx amava suas filhas. Elas seguiram ideias próximas da do pai e se casaram com militantes socialistas. Envolveram-se em atividades revolucionárias e ambas cometeram suicídio, mas só Laura o fez por tais atividades. Ela se matou junto com Paul Lafargue na prisão. Eleonor se matou quando descobriu que seu marido roubara seu dinheiro para viver com outra mulher.

Tudo isso é bem conhecido e, não raro, escritores de todo tipo comentaram exaustivamente tais episódios. Parece que sempre apostaram no sucesso editorial e econômico de uma história que pudesse falar de intimidades de Marx, uma vez que o marxismo tendeu a ser uma filosofia universalista, de pouco apreço aos detalhes mais psicológicos e particulares. Aliás, esse tipo de abordagem do marxismo pelo marxismo, transformando tudo em fruto de forças sociais e não de homens com rugas ou caráter duvidoso, tornou-se alvo dos críticos. A militância marxista sempre foi fofoqueira e, por isso mesmo, propagandista da importância de mostrar uma história teórica, quase que negando, por meio da sociologia, a história dos pequenos fatos domésticos. Os críticos, por sua vez, trataram de fazer o contrário. Não sei realmente se conseguiram ganhar dinheiro com isso. Mas, ao menos em meio a alguns círculos, conseguiram tornar Marx conhecido por peripécias e anedotas mais que por ter escrito, por exemplo, o Manifesto Comunista!

Todavia, o que era para ser um tipo de “momento Caras da vida do filósofo alemão revolucionário”, não raro se transformou no seu contrário. É difícil não ver em toda essa produção biobibliográfica, um apreço pela morbidez e uma repreensão moral a Marx por ele ter sido uma espécie de canga de sofrimento para as mulheres que o rodearam. Distante com a mãe, pobre com a esposa, não suficientemente protetor com as filhas e, enfim, capaz de dar pulos de cerca, ainda que fosse apenas a cerca de sua própria cozinha. Eis aí Marx em várias biografias desse rol. O que era para ser um anedotário engraçado tornou-se uma tentativa de mostrar o quanto pode ser trágica a vida de alguém que se descuida dos seus para cuidar apenas da revolução. Ou algo como uma  história dos infortúnios de mulheres que tiveram amor, mas que pagaram alto preço por ele, ao viveram ao lado de Marx.

Marx teria sido não só machista, mas de fato alguém mais conservador em costumes do que poderia ser necessário para alguém que queria ver o mundo se transformar em algo melhor. Não há como negar, em textos desse tipo, há até um certo tom de censura a Marx, como se ele não tivesse sido suficientemente casto, não tivesse sido o super-herói que deveria ser segundo as idealizações tacanhas dos adeptos do marxismo. As mulheres foram usadas por esses historiadores para dizer algo fantasticamente banal: Marx foi um homem, completamente humano. O gênio que forneceu uma grande interpretação da modernidade, o homem da revolução, não era outra coisa senão um personagem como qualquer um de nós.

As “mulheres de Marx” na vida de Marx não tiveram um destino melhor ou pior que “as mulheres de Marx” nos livros de Marx. Talvez por uma razão: Marx não deu importância nem maior e nem menor às mulheres quanto deu importância aos homens. Nos livros, buscou descrevê-las do modo que acreditou que elas estavam enfrentando a vida de um mundo em que “tudo que é sólido desmancha no ar”. Na vida, fez o que pode fazer por homens e mulheres, sem achar que, por conta do gênero, ele deveria ser mais ou menos heroico no cotidiano, de modo a proteger um grupo. Marx respirou tempos revolucionários e, com isso, viveu a revolução e sua família esteve no mundo em que ele esteve. As mulheres de sua vida, se não compreenderam isso e se em algum momento foram sacrificadas, não o fizeram a mais do que as mulheres que estiveram com outros homens daquele tempo, ou mesmo do nosso.

Não sei se Marx, uma vez vivo hoje, tentaria pegar o dinheiro de Engels para dar uma de Roberto Carlos, retirando da praça “biografias não autorizadas”. Talvez Engels fizesse isso, como bom inglês.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ.

 

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20 Responses “As mulheres sofredoras de Karl Marx”

  1. Tiago
    15/08/2014 at 12:45

    Professor Ghiraldelli,

    Achei o trecho: “o marxismo tendeu a ser uma filosofia universalista, de pouco apreço aos detalhes mais psicológicos e particulares.” muito interessante.
    Amigos militantes, ‘super engajados e letrados’, idolatram Marx e toda palavra proferida por ele. Mas aos meus ouvidos burros parece uma teoria tão grosseira, no sentido de tratar minunciosamente a sociedade, e superficialmente o que a compõe, o indivíduo.
    Me parece um tanto de criança crescida, que trocou a moda de
    figurinhas e ioiô por militância e intelectualidade, sendo q o q se fala das teorias de Marx parece tão longe do possível.
    Não consigo saber se estou muito enganado, ou se eles é que estão muito engajados.

    • 15/08/2014 at 13:06

      Tiago de certo seus ouvidos são burros porque você nunca leu Marx. Quando ler, principalmente se tiver um noção básica de filosofia, ficará deslumbrado com am maravilha que é. Agora, as políticas tiradas da filosofia, nem sempre agradam.

    • Tiago
      15/08/2014 at 14:12

      Desconfiava!

    • Lorena
      21/10/2016 at 08:28

      desconfiava também Tiago kkk adeptos são adeptos…

  2. Omar
    11/07/2013 at 13:07

    Caríssimo Paulo, muito lúcida a sua análise. Sou médico e tenho experiências pessoais de trabalho longe de grandes centros. Sei bem ( por ter sentido na pele!) dos obstáculos para a interiorização dos profissionais. Antes de contar um “causo” breve, apenas uma questão simples: será mesmo que os médicos estão recusando polpudos salários para trabalhar em lugares onde são tão bem tratados? Quer dizer que tem gente oferecendo salários de 30 mil reais e ninguém quer?!? Por que será??? Não será, talvez, por ser em lugares onde não se pode garantir sequer a segurança física do profissional que se dispuser a trabalhar lá? Que tal ir trabalhar nas periferias de grandes cidades e acontecer como aquele engenheiro que teve a infelicidade de errar o caminho no RJ e foi fuzilado? Que tal se embrenhar em um rincão longínquo com a família e levar um calote da prefeitura que o contratou no 3º mês de trabalho? Interiorizar os médicos é bem mais fácil fazendo o óbvio: 1- prover mínimo grau de segurança (se eu trabalhar vou receber/ se eu trabalhar com assiduidade e corretamente meu vínculo será mantido e não serei sumariamente trocado por algum apadrinhado político a despeito do trabalho desenvolvido) 2- Prover condições mínimas de trabalho ( terei vagas para transferir pacientes graves quando precisar ou terei de suplicar no telefone para que me liberem essa vaga, depois de preencher longos formulários e esperar na musiquinha por 1h com o paciente piorando na minha frente? E se a vaga não for liberada e o paciente morrer, quem vai ter de explicar a situação para a família? Eu ou o burocrata que me enrolou no telefone?). Bem, voltando ao causo, após ter concluído especialização em gineco-obstetrícia recebí proposta de uma cidade no interior de Goiás para trabalhar no Hospital local. Inicialmente a proposta parecia boa e os gestores locais interessados em melhorar o atendimento. Depois de estar lá, a realidade vai se impondo. Em um plantão, no 1º mês de trabalho atendí uma gestante com quadro gravíssimo de pré- eclâmpsia, toda inchada (mal conseguia abrir os olhos por conta das pálpebras inchadas) e cujo bebê dava sinais de que também estava em sofrimento, com desacelerações da frequência cardíaca. Pois bem, passei das 21h até o dia seguinte às 06h pedindo pelo amor de Deus para que o anestesista e restante da equipe viessem para prestar o atendimento necessário ( finalizar a gravidez por cesárea de urgência, entre outras medidas). Durante essa noite em que passei manejando o caso, ví toda a minha trajetória profissional como um filme: o vestibular, os longos anos de faculdade, a especialização “ralada”, com longas noites maldormidas e fiquei pensando no que aconteceria se mãe e bebê morressem no meu plantão (o que felizmente não aconteceu). Será que todos entenderiam que eu fiz o possível para dar o melhor atendimento à paciente? Será que entenderiam que eu também era um grande interessado em que o caso terminasse muito bem? Entenderiam que, sendo eu um médico recém- chegado à cidade, um resultado péssimo seria catastrófico para mim também e por isso acreditariam quando eu dissesse que fiz todo o possível? Ou me linchariam em praça pública revoltados com o médico insensível que viu a paciente e o bebê morrendo e não fez nada? Saí desse plantão decidido a voltar para um grande centro, apesar dos pesares dos grandes centros. A prática de colocar os médicos como escudo para a má gestão não vem de hoje e se serve do ressentimento tão bem delineado pelo Paulo em seu excelente artigo. Esse programa mais médicos (assim mesmo, com minúsculas) é só a expressão rematada desse sentimento! Parabéns pelo artigo. Omar

    • Emma soares
      29/11/2013 at 02:14

      Olá, Sr Omar!… hum.. uma pergunta ingênua: qual a relação da suposta interpretação da vida do Marx com o programa mais médicos?
      É coisa de socialista que come criança? ah, tá bom, valeu!
      Viva a luta pela emancipação humana!!!!
      “Pois é, os médicos cubanos vêm aí com as ideologias socialistas, fazer revolução proletária no interior…” Pasmem, as distorções do discurso hegemônico neoliberal…
      saudações

    • 29/11/2013 at 03:30

      Ai que triste que meu blog vire lugar de disputa de petistas e não petistas, que perda de tempo.

  3. João Camilo
    06/07/2013 at 18:49

    Prof. Ghiraldelli, Marx era quase um santo, bom moço, romântico, bom marido, trabalhador, aliás todos os comunistas detêm estes mesmos atributos.
    Parabéns, parabéns e parabéns de novo.

    • 06/07/2013 at 22:44

      João Camilo, eu não escrevi isso. Ninguém escreveu isso. Nem a biografia de Marx feita pela academia de Moscou. Agora, a fama de santo, que denunciei, vem da conversa da militância e, não raro, dos textos não biográficos, que tocam na personalidade de Marx em meio às discussões teóricas. É essa bibliografia que me parece menos boa.

    • 03/03/2014 at 21:32

      Ghiraldelli, você é um ótimo escritor porém péssimo em detectar ironias. Abraço

    • 03/03/2014 at 21:36

      Ronan, é que as pessoas são péssimas e burras e não detectam as minhas. Em alguns casos, nem explicando. Agora, há também o idiota que pensa ter feito uma ironia, mas ele não conhece essa figura de linguagem. Espero que não seja seu caso.

  4. Renata
    06/07/2013 at 13:45

    Marx era um grande machista.

    • 06/07/2013 at 14:49

      Renata, não diga mais isso assim, é bobagem sem tamanho.Para dizer isso, é preciso sofisticação.

  5. Orivaldo
    04/07/2013 at 17:35

    Fardado tira essa farda. Você vai se sentir mais leve. Talvez sem proteção. Quando nos protegemos demais ficamos muito pesados.

  6. Fardado
    04/07/2013 at 16:09

    As mulheres e as filhas de Marx passavam necessidade pq o vagabundo não queria trabalhar.

  7. Cesar Marques - RJ
    04/07/2013 at 11:13

    Professor, o texto como sempre é excelente, e realmente conheci alguns comunistas na vida que tinham uma visão absurdamente universalista (só falando de Lutas de Classe) sem se preocupar com certas especificidades sociais relevantes, como também conheci alguns conservadores que se apegavam ferreamente a esse episódio do filho fora do casamento do Marx na tentativa de anular e jogar no lixo todo o frutífero trabalho filosófico e jornalístico que Marx desenvolveu ao longo da sua vida. Mas eu gostaria de assinalar um pequeno detalhe do texto (lateral, definitivamente, não é central), que pelo que sei não ocorreu como o senhor colocou no texto. Paul Lafargue e Laura Marx, não teriam se matado numa prisão, e sim numa modesta, porém confortável, casa nos arredores de Paris, em comum acordo, pois ambos queriam evitar as dificuldades físicas e mentais, que decorrem naturalmente com a maioria das pessoas quando estão na velhice. Afinal, eles não tinham filhos, e já não podiam contribuir com o Movimento Comunista, como eles gostariam. Aqui vai a nota de suicídio deixada por Lafargue, explicando sucintamente, os motivos do suicídio do casal:

    “Healthy in body and mind, I end my life before pitiless old age which has taken from me my pleasures and joys one after another; and which has been stripping me of my physical and mental powers, can paralyse my energy and break my will, making me a burden to myself and to others. For some years I had promised myself not to live beyond 70; and I fixed the exact year for my departure from life. I prepared the method for the execution of our resolution, it was a hypodermic of cyanide acid. I die with the supreme joy of knowing that at some future time, the cause triumph to which I have been devoted for forty-five years will triumph. Long live Communism! Long Live the Second International.”

    Abraços professor.

    P.S.: O senhor concorda com essa sanha do Roberto Carlos contra qualquer um, que escreva qualquer coisa sobre ele? Tem um projeto de lei (do Deputado Federal Alessandro Molon, PT-RJ), que inspirado nessa postura do cantor, visa alterar os dispositivos do Código de Processo Civil, que o autorizam a exercer esse tipo de “censura”.

    • 04/07/2013 at 12:22

      Concordo com Roberto Carlos. Sobre a morte de Lafargue, a casa é a prisão, eles já estavam cercados há dias, segundo as versões que eu creio mais plausíveis. Agora, que isso pode lhes ter passado desapercebido ou nem mesmo sido levado em conta, pode ser sim. O certo é que o mais patético foi o escrito de Lênin os condenando.

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