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27/03/2017

A revolução fora do banheiro


A revolução fora do banheiro

“Se abandonarmos nossos medos, outras formas de organização virão”. O professor Wladimir Safatle termina assim o seu artigo na Folha de S. Paulo (25/06). Aparentemente diz algo na contramão das posições conservadoras, que estão agarradas aos pelos das pernas de Augusto Comte, no nosso “ordem e progresso” que deixou o progresso esperando a ordem faz tempo. A frase é capciosa. “Outras formas de organização virão”. Ora, por que tanta preocupação com “organização”? Por que não deixar nossas manifestações acontecerem como estão acontecendo? Por que essa pressa em substituir a forma representativa de participação por “outras formas de organização”? E qual a razão de acreditar que nós, nos protestos, estamos pedindo “outra forma de organização”? Quem disse ao professor Safatle que estamos descontentes com a democracia representativa? Não há nada entre nós, no movimento, que diz isso. Sequer pensamos nisso!

Parece que Safatle faz um pouco como Pondé: lá de cima de seu apartamento, olha as ruas. Pondé tem a vantagem de não ser frequentador de manifestações. Safatle tem a desvantagem de ir, quando é para “dar aula”. Esse tipo de organização dos intelectuais é que está carcomida. Eles continuam não participando ou então participando se fazem parte da vanguarda – sim, tem de haver vanguarda! Não sabem pensar diferente! Não sabem se comportar como cidadãos comuns. Todos nós vamos às manifestações, eles as observam ou as dirigem ou imaginam dirigir. Acho que isso sim é que cansou todos nós, bem mais que a representação dos partidos.

O que sinto entre os colegas nas manifestações é que os partidos nos cansaram, mas não estamos cansados da democracia representativa. O problema é que ela não nos representa, para usar o jargão do momento. Agora, quebrar a representação, isso não foi cogitado por uma razão simples: estamos em uma “revolução do indivíduo”, mas não estamos em uma manifestação do individualismo banal. A revolução que anda no momento, no Brasil, é algo que se mantém por meio de um princípio caro à representatividade, que está longe de ser quebrado ou ignorado: a confiança.

Eleger um colega para que ele me represente é alguma coisa que não se joga fora assim, como Safatle quer. A representação como ela está se fazendo na política atual perdeu a legitimidade, mas a confiança inerente a uma boa representação não perdeu nada. Ao contrário! Basta ver como que os deputados que prestam conta à população ainda são respeitados. Basta ver como que cada um cuida do outro nas próprias manifestações, usando da confiança e, enfim, delegando representatividade, para se notar bem isso.

Mas o que me incomoda mesmo no texto do professor Safatle não é ele falar, dogmaticamente, que a representação em geral acabou. O que me incomoda é a pressa dele em organizar. Ou seja, voltemos à ordem. Sem ela, não há progresso. Ô lema que já criou mofo! Não há outro caminho que não a organização – dizem todos. Aí sim há o fetiche: é o fetiche da vanguarda. Organização, para ele, é a organização da hierarquia. Ele não diz, mas é isso, porque se não fosse ele não pediria organização, ele veria claramente que as manifestações já estão ocorrendo por organização. A diferença entre o modo que ele pensa e o modo que nós, os que protestam, estamos pensando, é que a organização nossa se faz andando, se faz pelo momento, se faz segundo a demanda do tempo presente. É como se tivéssemos virado um tipo de povo nômade, que colocou todos os seus executivos sob o ritmo peripatético. Safatle ainda está no ritmo do Pensador de Rodin que, cá entre nós, está em uma posição mais de banheiro que de pensamento.

2013 © Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Prá ver a banda passar cantando coisas de amor 1

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14 Responses “A revolução fora do banheiro”

  1. 27/06/2013 at 11:09

    Bom, acerca de tudo o que foi exposto acima resta-nos apenas lamentar que alguns colegas ditos “filósofos ou intelectuais”, insistem em banalizar o que já está tão “batido” e, insistir numa pseudo “liberdade de expressão” que se quer realmente é palpável.Embora “ORDEM E PROGRESSO” já estejam mofos, tese sustentada por você Paulo, é notável a vontade de se repensar o país como um todo e não apenas da ótica daqueles que se elegem e que aproveitam-se sempre do momento para tentar se estruturar ou até mesmo perpetuar politicamente!

  2. Julio
    26/06/2013 at 09:10

    Paulo, está sendo lindo ver os conservadores quebrando a cara dia a dia com essas manifestações. Estão sofrendo um desgaste daqueles e mostrando quão ignorantes são. O Olavo de Carvalho, por exemplo, logo que soube da ideia de convocação de uma assembleia constituinte escreveu:

    “O movimento arruaceiro foi lançado pelo Foro de São Paulo, como confessou o sr. Valter Pomar, para forçar um “upgrade” do processo revolucionário, passando da fase “de transição” para a de “ruptura”. Como sempre acontece nessas ocasiões, alguns líderes da primeira fase teriam de ser sacrificados, caso não se adaptassem rapidamente ao novo ritmo das mudanças. A presidenta Dilma Rousseff e até o PT como um todo apareciam no cardápio como fortes candidatos à posição de cabeças cortadas.”

    No dia seguinte a Dilma voltou atrás. kkkkkkkkkkkk

    Outro caso sui generis é do Reinaldo Azevedo. Esse sujeito posta diariamente vários textos tentando desacreditar o movimento. Somente o critica. Pinta o como o pior possível, como se nele houvesse unicamente defeitos. Mas quebra a cara constantemente frente aos acontecimentos, que mostram ser um movimento absolutamente necessário, o qual sacudiu o poder e o pois sensível as demandas do população, um verdadeiro despertar do exercício da cidadania.

    Agora parece que abateu o desespero nesse bloguista. Teve a coragem de criticar o Renan por fazer o que deveria, isto é, representar aqueles que o elegeram. Tentou transformar virtude em vício. Leia um trecho do que ele escreveu:

    “Se a turma da rua pedir a revogação da Lei da Gravidade, Renan põe em votação! Ele só não votaria, deixem-me ver…, a guilhotina para Renan”

    É o mais completo desespero sadomasoquista. E ainda falou que a Dilma que está perdida. kkk

    • Julio
      26/06/2013 at 10:26

      desespero masoquista, aliás.

    • 26/06/2013 at 11:04

      Júlio, olha uma sugestão: para ler conservadores, leia os que passaram no vestibular. Acho que você toma esse cara aí como tendo alguma representatividade, mas ele não tem. Até mesmo os jornais conservadores não querem mais se identificar com ele. Ele é uma besta. Cara, veja, ele não conseguiu sequer passar no vestibular.

  3. acássio
    26/06/2013 at 00:03

    Vem pra rua!!!!

    Andei muito na última manifestação!!!

  4. Marco Vasconcelos
    25/06/2013 at 21:53

    Professor Ghiraldelli, apesar de admirá-lo muitíssimo pelas opiniões sempre esclarecedoras e inteligentes, nesse texto, tenho de discorda do senhor. Digo isso porque, ao meu ver, o senhor fez, na falta de um termo melhor, uma leitura um tanto apressada do texto do professor Safatle; afinal este, pelo que me parece, não toma o conceito de organização a partir de uma acepção tradicional. Na verdade, acredito que Safatle utilizou esse termo de maneira extremamente esvaziada e vaga, isto é, utilizou-o como um termo útil para representar uma miríade de pensamentos políticos, os quais vão da continuidade da democracia representativa até o comunismo. Por fim, em relação ao caráter peripatético da primavera brasileira, realmente, concordo, acredito que o uspiano não pensa dessa forma mais inteligente e pragmática; contudo, apesar dessa “limitação”, acredito que, à maneira do senhor, Safatle também toma uma direção eminentemente democrática e progressista no que se refere aos objetivos e à legitimidade do movimento. Em suma,estou adorando as publicações sobre a primavera brasileira, espero que continue escrevendo. Grande abraço!

    • 26/06/2013 at 00:54

      Marco, você disse bem: “acredito”. É sua vontade que o moço de esquerda esteja certo, ou menos errado. Mas ele não está certo. Ele chuta o pau da representatividade porque já o chutou antes. Comunista não vai mesmo apoiar a democracia representativa.

  5. JuniN
    25/06/2013 at 21:40

    No Brasil ainda há briga de classes – ainda que indireta -, acho que isso que motiva o vanguardismo na cabeça de tantos intelectuais. E correndo por fora, agora, tem a representação política cristã( Malafais, Felicianos, Marinas, Macêdos, os padres-stars, Valdomiros… ) como nunca antes no Congresso Nacional, bancada essa a mais faltosa e manipuladora. Cada dia mais atuante, assim como a poderosa bancada ruralista.

    • 26/06/2013 at 00:55

      Junin. Classes sociais são uma coisa, conflito de classes outra e doutrina política outra. Não misture assim. Não dá certo.

  6. Proudhon
    25/06/2013 at 20:48

    Mais interatividade… participação mais efetiva e constante… seria o conceito da razão comunicativa do velho Habermas aplicada? Ou revisada?

    • 26/06/2013 at 00:57

      Nada a ver. Habermas não tem uma doutrina, ele tem um fundamento. Até hoje não entendi essa visão disseminada que Habermas prega uma sociedade interativa. O que ele diz de importante na filosofia nao é sua política, nisso ele é um democrata como tantos. O diferente dele, o que o caracteriza, é a ideia de que a comunicação aponta para um fundamento. Aqui, eu falo de outra coisa.

  7. Orivaldo
    25/06/2013 at 17:13

    A banda só passa pra quem fica, não pra quem toca o bumbo, ou a corneta, ou seja lá que instrumento for. Mas a banda de agora segue de improviso sem partituras e sem maestro. Isso incomoda os ouvidos acomodados com o antigo e sempre igual som da fanfarra dos meninos do colégio com seus tênis brancos e uniformes engomados.

    • LMC
      10/09/2014 at 15:32

      Resposta ao comentário do
      Orivaldo:kkkkkkkkkkkkkkk

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About Paulo Ghiraldelli

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