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18/08/2019

A prisão dos analistas políticos


capaA prisão dos analistas políticos

Estamos destinados a sempre pensar a mesma coisa porque nossa linguagem muda pouco, mesmo quando sob uma forte demanda. Os intelectuais insistem em falar em “classes sociais” e em “direita” e “esquerda” na análise de um movimento de protestos que é uma “revolução do indivíduo” e que pede realizações que qualquer um pediria nas atuais circunstâncias de nosso país. O vocabulário da sociologia é tão forte na cabeça de nossos analistas que até mesmo aqueles com formação filosófica e de certo modo distantes da sociologia, parecem não possuir outra coisa na mão que a ciência de Augusto Comte. Dessa maneira, reduzem o novo ao velho e acabam convencendo até mesmo alguns participantes de que o que estão fazendo é reprodução do passado. Mas não é.

Não estou dizendo que as classes desapareceram e que “direita” e “esquerda” não dizem mais nada. Estou longe de quem fala uma bobagem dessas. O que estou dizendo é que jogar a população em classes e, a partir daí, olhar quem é conservador ou não, no caso desse movimento, é mero exercício sociológico de pouca utilidade para se compreender o que tenho chamado de “a primavera feita no outono” ou “a revolução do indivíduo”.

Definir classes sociais para, então, notar qual o caráter das reivindicações, nesse caso, é tão inútil quando pegar algumas reivindicações que aparecem nas fotos dos cartazes dos manifestantes e tentar ver se são ou não conservadoras.

O caminho para compreender o movimento é fazer o que os analistas não fazem: participar dele. Quem participa nota que há reivindicações de todo tipo nesses nossos protestos, inclusive algumas manifestações que não reivindicam nada, mas são exclusivamente expressões de quem quer acabar com o marasmo político imposto pela rigidez inercial de nossa democracia.

Todas as vezes que tenho dito “vamos desorganizar para organizar de nossa maneira”, não sofro qualquer censura de meus pares nos protestos. Todos concordam que o pano geral de fundo do movimento é o protesto, o chacoalhar. Todos concordam que estamos, individualmente, caminhando para o protesto não por uma pauta política, mas por vozes nossas, vozes que falam o que estamos vendo e sentindo. E o que é? Simples: estamos vendo tudo amarrado, parado, funcionando ao gosto de um sistema político que bota Lula no exterior para dizer que aqui no Brasil todos os problemas foram solucionados. Não foram, e é isso que estamos gritando.

75% da população  brasileira não só apoia os protestos como quer que eles continuem. Portanto, não há reivindicação de classe x ou y, o que há é o desejo de ver os protestos se fazerem como protestos. O marasmo, a sensação de que as palestras do Lula lá fora já estavam se tornando mentirosas demais, é o que, diretamente ou indiretamente, incomoda a todos. Não somos o Primeiro Mundo. Não estamos vivendo tão bem quanto todos dos governos federal, estaduais e municipais anunciam. Cada um de nós que vai ao protesto sabe disso, e muitos dos que ficam em casa querem que exista esse grito nosso. Não é uma mera “insatisfação geral”, é uma vontade geral de ver se vamos continuar pagando impostos de todo tipo e não tendo os serviços públicos condizentes com o que pagamos, ou se podemos mudar isso.

Enxergar mais que isso e fazer conjecturas cheias de teoria é para quem ficou amarrado no passado, junto com as vanguardas políticas que estão, agora, embasbacadas.

O que os analistas e os políticos não conseguem entender na onda de protestos é o que Hannah Arendt disse, que melhor que ter direitos é poder ter o direito de ter direitos, mas eu prefiro ainda complementar que o melhor que ter direitos é ter o direito de inventar direitos. Movimentos assim, como o da primavera brasileira, estão nessa última via.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr.., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

VEJA O VÍDEO SOBRE O ASSUNTO: Fazendo primavera em outono

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12 Responses “A prisão dos analistas políticos”

  1. Paulo Roberto
    24/06/2013 at 15:53

    As vozes das ruas calaram as vozes dos politiqueiros de plantão, emboram queiram insistir em argumentos vazios, desnecessários e ultrapassados. Professor, a sua análise resume categoricamente o momento atual, tanto do ponto de vista da cultura como, de modo particular, do fazer política. Ignorar o indivíduo hoje, tentando escondê-lo nas “massas”, estará fadado a fazer análises políticas e filosóficas incorretas. Muito perspicaz a sua análise; demonstra inteligência atualizada, ao contrário de tantas outras por aí, carcomidas pelo tempo, porque não conseguiram acompanhar a dinâmica da história.

  2. Ana Lucia
    24/06/2013 at 15:08

    Será que vocês poderiam convidar o filosofo Joel Pinheiro da Fonseca
    para um futuro programa do Hora da Coruja.

    • 24/06/2013 at 15:19

      Ana Lucia, não o conheço, fale com a Fran, ela é a produtora.

  3. juniN
    24/06/2013 at 14:29

    Você está analisando toda a situação de forma micro e desconsiderando o elemento coletivo das reivindicações divergentes. O que tu pensas sobre a opinião pública em relação a esse excelente texto do MPL( abaixo )? TEM MUITA GENTE QUE DISCORDA.

    CARTA ABERTA DO MOVIMENTO PASSE LIVRE SÃO PAULO À PRESIDENTA

    _À Presidenta Dilma Rousseff,_

    “Ficamos surpresos com o convite para esta reunião. Imaginamos que também esteja surpresa com o que vem acontecendo no país nas últimas semanas. Esse gesto de diálogo que parte do governo federal destoa do tratamento aos movimentos sociais que tem marcado a política desta gestão. Parece que as revoltas que se espalham pelas cidades do Brasil desde o dia seis de junho tem quebrado velhas catracas e aberto novos caminhos.

    O Movimento Passe Livre, desde o começo, foi parte desse processo. Somos um movimento social autônomo, horizontal e apartidário, que jamais pretendeu representar o conjunto de manifestantes que tomou as ruas do país. Nossa palavra é mais uma dentre aquelas gritadas nas ruas, erguidas em cartazes, pichadas nos muros. Em São Paulo, convocamos as manifestações com uma reivindicação clara e concreta: revogar o aumento. Se antes isso parecia impossível, provamos que não era e avançamos na luta por aquela que é e sempre foi a nossa bandeira, um transporte verdadeiramente público. É nesse sentido que viemos até Brasília.

    O transporte só pode ser público de verdade se for acessível a todas e todos, ou seja, entendido como um direito universal. A injustiça da tarifa fica mais evidente a cada aumento, a cada vez que mais gente deixa de ter dinheiro para pagar a passagem. Questionar os aumentos é questionar a própria lógica da política tarifária, que submete o transporte ao lucro dos empresários, e não às necessidades da população. Pagar pela circulação na cidade significa tratar a mobilidade não como direito, mas como mercadoria. Isso coloca todos os outros direitos em xeque: ir até a escola, até o hospital, até o parque passa a ter um preço que nem todos podem pagar. O transporte fica limitado ao ir e vir do trabalho, fechando as portas da cidade para seus moradores. É para abri-las que defendemos a tarifa zero.

    Nesse sentido gostaríamos de conhecer o posicionamento da presidenta sobre a tarifa zero no transporte público e sobre a PEC 90/11, que inclui o transporte no rol dos direitos sociais do artigo 6º da Constituição Federal. É por entender que o transporte deveria ser tratado como um direito social, amplo e irrestrito, que acreditamos ser necessário ir além de qualquer política limitada a um determinado segmento da sociedade, como os estudantes, no caso do passe livre estudantil. Defendemos o passe livre para todas e todos!

    Embora priorizar o transporte coletivo esteja no discurso de todos os governos, na prática o Brasil investe onze vezes mais no transporte individual, por meio de obras viárias e políticas de crédito para o consumo de carros (IPEA, 2011). O dinheiro público deve ser investido em transporte público! Gostaríamos de saber por que a presidenta vetou o inciso V do 16º artigo da Política Nacional de Mobilidade Urbana (lei nº 12.587/12) que responsabilizava a União por dar apoio financeiro aos municípios que adotassem políticas de priorização do transporte público. Como deixa claro seu artigo 9º, esta lei prioriza um modelo de gestão privada baseado na tarifa, adotando o ponto de vista das empresas e não o dos usuários. O governo federal precisa tomar a frente no processo de construção de um transporte público de verdade. A municipalização da CIDE, e sua destinação integral e exclusiva ao transporte público, representaria um passo nesse caminho em direção à tarifa zero.

    A desoneração de impostos, medida historicamente defendida pelas empresas de transporte, vai no sentido oposto. Abrir mão de tributos significa perder o poder sobre o dinheiro público, liberando verbas às cegas para as máfias dos transportes, sem qualquer transparência e controle. Para atender as demandas populares pelo transporte, é necessário construir instrumentos que coloquem no centro da decisão quem realmente deve ter suas necessidades atendidas: os usuários e trabalhadores do sistema.

    Essa reunião com a presidenta foi arrancada pela força das ruas, que avançou sobre bombas, balas e prisões. Os movimentos sociais no Brasil sempre sofreram com a repressão e a criminalização. Até agora, 2013 não foi diferente: no Mato Grosso do Sul, vem ocorrendo um massacre de indígenas e a Força Nacional assassinou, no mês passado, uma liderança Terena durante uma reintegração de posse; no Distrito Federal, cinco militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) foram presos há poucas semanas em meio às mobilizações contra os impactos da Copa do Mundo da FIFA. A resposta da polícia aos protestos iniciados em junho não destoa do conjunto: bombas de gás foram jogadas dentro de hospitais e faculdades; manifestantes foram perseguidos e espancados pela Polícia Militar; outros foram baleados; centenas de pessoas foram presas arbitrariamente; algumas estão sendo acusadas de formação de quadrilha e incitação ao crime; um homem perdeu a visão; uma garota foi violentada sexualmente por policiais; uma mulher morreu asfixiada pelo gás lacrimogêneo. A verdadeira violência que assistimos neste junho veio do Estado – em todas as suas esferas.

    A desmilitarização da polícia, defendida até pela ONU, e uma política nacional de regulamentação do armamento menos letal, proibido em diversos países e condenado por organismos internacionais, são urgentes. Ao oferecer a Força Nacional de Segurança para conter as manifestações, o Ministro da Justiça mostrou que o governo federal insiste em tratar os movimentos sociais como assunto de polícia. As notícias sobre o monitoramento de militantes feito pela Polícia Federal e pela ABIN vão na mesma direção: criminalização da luta popular.

    Esperamos que essa reunião marque uma mudança de postura do governo federal que se estenda às outras lutas sociais: aos povos indígenas, que, a exemplo dos Kaiowá-Guarani e dos Munduruku, tem sofrido diversos ataques por parte de latifundiários e do poder público; às comunidades atingidas por remoções; aos sem-teto; aos sem-terra e às mães que tiveram os filhos assassinados pela polícia nas periferias. Que a mesma postura se estenda também a todas as cidades que lutam contra o aumento de tarifas e por outro modelo de transporte: São José dos Campos, Florianópolis, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, Goiânia, entre muitas outras.

    Mais do que sentar à mesa e conversar, o que importa é atender às demandas claras que já estão colocadas pelos movimentos sociais de todo o país. Contra todos os aumentos do transporte público, contra a tarifa, continuaremos nas ruas! Tarifa zero já!

    Toda força aos que lutam por uma vida sem catracas! ”

    Movimento Passe Livre São Paulo
    24 de junho de 2013

    • 24/06/2013 at 15:20

      JuniN, eu sou filósofo, não sociólogo. Eu me interesso pelo que é filosoficamente novo. A filosofia é mais difícil de entender que a sociologia, para a maioria das pessoas, porque elas são educadas pelos jornais, e os jornais falam uma linguagem semi-sociológica – e é isso mesmo.

  4. Orivaldo
    24/06/2013 at 14:14

    Na TV cultura o Laerte criticou o fato de não aceitarem a participação de partidos políticos nas manifestações e também fez outras considerações com relação a elas.
    Gosto dele mas me pareceu um professor de datilografia dos anos 60 querendo ensinar a garotada de hoje a usar um computador.

    • 24/06/2013 at 15:21

      Orivaldo, ótima comparação a sua. Há muito cara mais jovem que eu que por não conviver com as ruas ficou carcomido cedo.

    • LMC
      23/09/2014 at 10:56

      Depois que ele virou mulher,o
      Laerte ficou mais feio que o
      Mumm-Ra dos Thundercats…..

  5. enilton
    24/06/2013 at 14:03

    Professor, o senhor acredita que mesmo que o Governo comece a demonstrar que está tomando as medidas “emergenciais” citadas no último pronunciamento da presidenta os protestos vão continuar? O governo já começou com uma reunião com o grupo do Movimento Passe Livre e estão marcadas outras com governadores e prefeitos hoje para falar do Plano Nacional de Mobilidade Urbana. Essas medidas iniciais e outras que ela poderá implementar no decorrer da semana seriam suficientes para enfraquecer os protestos ou mesmo pará-los?

    • 24/06/2013 at 15:22

      Enilton, no passado, com vanguardas, o governo poderia pegar os líderes e transformá-los em pelegos. Mas agora, é mais difícil. Não há lideranças.

  6. Julio
    24/06/2013 at 11:27

    O próximo HC será sobre o que? Minha sugestão é que continuem falando das manifestações.

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