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20/07/2017

A ditadura gay e outras coisinhas do protesto


A ditadura gay e outras coisinhas do protesto

Às revoluções ou grandes reformas precede um rearranjo topológico semântico que, de certa forma, são a permissão para que tais coisas ocorram e talvez seu principal resultado. Estamos vivendo isso.

O nosso Congresso votou rapidinho uma série de propostas que ficaria anos mofando, e o fez em um sentido alvissareiramente moderno. Todavia, eu estou longe de me achar satisfeito.  Duvido que alguém esteja satisfeito, exceto os conservadores de carteirinha.

Quais foram os ganhos até agora?

Primeiro. A educação foi premiada, embora não se saiba realmente, em termos de dinheiro, com quanto. E isso não garante nada, pois a mentalidade dos governantes é de gastar em tudo no campo educacional, menos no que é importante, que é o salário do professor.

Segundo. Do ponto de vista do gasto criminoso do dinheiro público, foi aprovada a transformação da corrupção em “crime hediondo”. No entanto, do mesmo modo que se pode escapar de um crime, dependendo das circunstâncias, também é possível fugir do crime hediondo – dependendo das circunstâncias.

Terceiro. A PEC-37 caiu e, desse modo, o Judiciário continua com seus poderes. Mas isso não é propriamente um ganho para a ética política, apenas uma forma de deixar de perder.

Analisando cada ato do Congresso, é fácil ver que ele respondeu positivamente ao movimento de protesto, mas não deixou de fazer o que o próprio movimento disse que era a sua prática: jogou uma cortina de fumaça para nos confundir. Era esperado. Boa parte do protesto se fez na base de uma acusação simples e certeira: a dissimulação é o que os políticos e partidos tem de mais bem distribuído entre eles.

Paralelamente a isso, setores da população mais ligados às instituições tradicionais, em especial os sindicatos, estão programando greve e já anunciam um coro de críticas ao governo federal, e em alguns casos, aos governos estaduais. Tudo indica que tais sindicatos, a maioria em franco peleguismo, atrelados ao PT e ao PSDB, não estão falando sério. Eles querem apenas retomar o espaço perdido pelo protesto horizontalizante e antivanguardista. Não me surpreenderia se pegasse gente do governo federal feliz com a decisão dos sindicatos. Nos três níveis, federal, estadual e municipal, os políticos em cargos executivos passaram três semanas sem saber o que fazer, pois nunca imaginaram que o brasileiro poderia ir às ruas protestar sem lideranças, ou melhor, contra elas – todas elas. Dilma estava uma barata tonta, indo de Lula em Lula pegar açúcar. Haddad parecia um motorista bêbado na contramão da Rodovia Presidente Dutra. Alckmin e outros governadores oscilaram entre a repressão e o pedido de desculpas com cara de bunda. O governo ainda está desesperado. Implora a volta de velha política. Caso não fiquemos atentos, esses governos vão dar dinheiro para os sindicalistas voltarem a serem líderes, do mesmo modo que, não raro, alimenta certa imprensa oposicionista para que ela ataque suas bases, mobilizando a sua militância.

A revista Veja age assim, como que fornecendo gás para o jornalismo comprado pelo governo, o de Nassif e o de Amorim, hoje em dia os maiores pinóquios do cenário. A Veja não é ideologicamente de direita somente, ela é antes de tudo fora do tempo, não abandona a lógica da “guerra fria” de modo algum. Vive em um mundo que não existe e, não raro, atropela sua capacidade de jornalismo investigativo sério por conta de briga ideológica completamente alheia ao mundo atual. Agindo assim, ela cutuca a militância mais atrasada do PT, que usa frases imbecis como “a rede Globo manipula o povo” ou “tudo é culpa do neoliberalismo, da globalização e do imperialismo ianque”. Caso um dia a Veja pare de fazer esse serviço tolo, o governo federal, na mão do PT, a forçará a voltar a fazer, pagará para ela continuar na ladainha. É isso que ainda alimenta alguma militância não paga do PT. De resto, hoje, o PT é o PSDB e o PMDB, só possui militância paga. Se já era assim, agora, após os protestos, nunca mais será de outra forma. A juventude brasileira que protestou deixou claro seu anti-petismo e, enfim, seu completo desprezo pelos partidos políticos.

De tudo isso, no entanto, talvez ao menos em um caso seja possível dizer que haverá vitória de fato, objetiva, para as jornadas de protesto dessa “primavera feita em outono”, sem que se tenha de computar perdas e ganhos. Trata-se do “caso Feliciano”, em especial o projeto do deputado-pastor de recolocar o “homossexualismo” no catálogo das patologias, uma vez que psicólogos e similares estariam autorizados a propor ações terapêuticas capazes de fazer um homossexual deixar de ser homossexual – ele ficaria “curado”! Ora, os protestos fizeram até mesmo o PSDB, que se transformou em um partido conservador não só no plano da política social, mas também cultural e moralmente, se desvincular da figura de Feliciano, em especial nesse caso da “cura gay”. Ou seja, até mesmo os conservadores não querem saber de dar um passo nessa direção felicianesca. Até o casamento gay já anda solto por aí, no Brasil, então não faz sentido algum abraçar a carcomida ideia de que pessoas que gostam de outras do mesmo sexo sejam, por conta disso, doentes.

Desse modo, quanto à questão da homossexualidade, as coisas se deram como eu disse que elas se dariam: os conservadores não iriam se determinar a não importunar mais os gays e as lésbicas por conta de esclarecimento, de ciência, de leitura, mas simplesmente por decisão política. Que se aprenda esse caminho: também o aborto, a eutanásia, a programação de melhoria genética de descendentes e coisas desse tipo não virão ou deixarão de vir por qualquer ato de rápido esclarecimento ou “conscientização”, segundo um vetor iluminista. Não estou dizendo que o contínuo esclarecimento do cotidiano, que fazemos, não seja importante. O que afirmo é que mudanças ético-morais demandantes de alteração política e de criatividade no aparato legal ficará em banho-Maria e, dependendo do clima dos protestos, poderá ou não serem relegadas para um futuro distante. Quando vierem, ganharam decisão exclusivamente política. Não mataremos ou deixaremos de matar, não praticaremos eugenia ou nos negaremos a fazê-lo, etc., por qualquer razão que venha dos laboratórios. Não de modo imediato. Faremos o que temos de fazer por uma decisão política.

Assim, a soma de Feliciano com os protestou acabou gerando coisa boa. A expressão “ditadura gay” entrou definitivamente em baixa. Os que andaram comemorando a volta do politicamente incorreto, como se isso fosse, incondicionalmente, sinônimo de liberdade, venderam muito livro e soltaram muito panfleto, mas estão perdendo a guerra assim mesmo.

A “ditadura gay”, tão aclamada por gente como Feliciano, ruiu de vez. É bobagem ele apelar para esse termo. É ridículo, agora, que ainda se fale em politicamente correto ou incorreto para o caso. Quem usar a expressão “ditadura gay” estará falando do quê? Afinal, os protestos continham muita gente. A maioria desse pessoal, entre outras reivindicações, disse claramente que não queria mais os políticos e, dentre estes, figuras como Feliciano. Assim, a “ditadura gay”, uma invenção da direita, deixou de existir, até mesmo como invenção, porque o Brasil acordou um dia não mais se interessando em levar a sério gente capaz de dizer que iria “curar gay”. Virou piada isso. Após os protestos, virou piada da piada – piada derrotada. Avalio que vai demorar pouco tempo para que essa decisão política afete, aí sim, a ciência. Mais depressa do que podemos conjecturar agora, logo estaremos nos perguntando “como podemos acreditar que nascemos héteros ou que fulano de tal é hétero?”. Chegaremos a desconfiar do heterossexual como algo … anormal. Depois, chegaremos ao ponto de nos desinteressarmos da sexualidade como um elemento tão forte na determinação da identidade. Agora, nesse momento, o futuro no horizonte é esse.

Caso o ganho tenha sido só isso, exclusivamente isso, o que não é verdade, uma vez que o ganho real é a mudança subjetiva em relação à política, os movimentos de protesto já terão valido a pena. A topologia semântica está remontada. As portas e janelas para transformações maiores estão abertas.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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18 Responses “A ditadura gay e outras coisinhas do protesto”

  1. Sebastian Gallino
    28/06/2013 at 23:02

    Pare de insultar a inteligência dos outros, Paulo. Não há “verdade pragmática” (aliás, estou tentando parar de rir!) que possa desculpar a besteira que você escreveu sobre “cura gay”. Esta se torna “verdade” quando incautos como você reproduzem algo sem se dar o trabalho de ler. Não culpe as pessoas por acreditarem em você.

    Sei que você sabe que está errado e sabe também que escreveu algo sem ler, mas claro, não pode admitir publicamente porque é desonesto. Prometo parar de esfregar seu rosto no carpete mijado, tal como faria a um cão peralta.

    • 29/06/2013 at 04:25

      Gallino, deixo aí a sua reclamação e sua tentativa de insulto, para o meu leitor avaliar. Acho que isso é o máximo que posso fazer para você ficar satisfeito. Aí o leitor pode ir do meu texto no seu, e deles a outros e tirar as conclusões dele.
      Meu texto não é sobre a lei, não a cito em nenhum momento, embora você, na sua completa loucura, imagina que eu cite e tenha falado dela. Esse tipo de comportamento seu, de certo modo, é um desvio psicológico um tanto grave. Por exemplo, milhares e protestos contra Feliciano, toda a imprensa, juristas, comissões da presidência, médicos, conselho de psicologia etc., todo mundo viu errado o que Feliciano queria, só você viu o certo. Mesmo você estando surtado, essas palavras que estou dizendo não lhe dizem nada? O mundo inteiro errado e só você certo a respeito do que Feliciano queria. Não é fantástico? Não consegue perceber que está pirado? Não? Pois é, você vai ser internado e, para o seu caso, realmente não estou vendo cura.

  2. Fardado
    27/06/2013 at 22:37

    Uma professora minha de história que é petista também falou que esses movimentos estão sendo orquestrados pela direita golpista . Eu já discordo, pois fui nas passeatas e vi uma minoria da direita.

    • 28/06/2013 at 00:24

      Essa sua professora é uma anta. É aquele tipo de gente que inventou o “pig”, “partido da imprensa golpista”. Lidam com o fantasma da direita, do golpe, igualzinho a direita fazia ao inventar o “fantasma do comunismo”.

  3. Sebastian Gallino
    27/06/2013 at 21:25

    Boa noite Professor Paulo Ghiraldelli,

    o senhor escreveu sobre o projeto de Decreto Legislativo que alteraria uma resolução do Conselho Federal de Psicologia. O projeto foi apelidado erroneamente de “cura gay”. Todavia, mesmo com a alteração instituída pela Câmara dos Deputados, permanece o artigo 3º da resolução do Conselho Federal de Psicologia, o qual transcrevo:

    “Art. 3° – os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.”

    A única parte derrubada foi essa:

    “Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.

    Art. 4° – Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.”

    Podemos perceber que pelo artigo 3º continua vedado ao psicólogo propor a “cura” do indivíduo homossexual. Ou seja, não há “cura” em nenhuma parte da mudança que foi proposta pela Câmara. Houve sim, um superdimensionamento gerado por parte da imprensa e dos movimentos simpáticos aos homoafetivos.

    • 28/06/2013 at 00:26

      Gallino, e eu com isso? Eu não escrevi sobre esse assunto. Você não leu o artigo ou, se leu, por conta de viés ideológico, não entendeu.

    • Sebastian Gallino
      28/06/2013 at 14:58

      Transcrevo:

      “…uma vez que psicólogos e similares estariam autorizados a propor ações terapêuticas capazes de fazer um homossexual deixar de ser homossexual – ele ficaria “curado”!”

      Volto a afirmar: Não há nada no projeto que autorize o psicólogo a propor “cura”. Inclusive continua proibida a patologização.

      Por favor, seja honesto.

    • 28/06/2013 at 15:06

      Gallino, seja inteligente, eu não escrevi sobre o projeto cara. Você está querendo ser burro por uma razão que não entendi.

    • Sebastian Gallino
      28/06/2013 at 15:41

      Paulo, é claro que você é quem está sendo burro.

      Em primeiro lugar não afirmei em momento algum que você escreveu sobre o projeto, você citou o projeto de maneira errada, apenas isso. E você só o fez, provavelmente, por não ter lido sequer uma página.

      Curiosamente, quem levantou algo sobre viés ideológico foi você. Eu só citei a resolução do CFP corrigindo sua informação.

      Mas não se preocupe, você não foi o único a errar, quase todos os jornalistas estão fazendo o mesmo, ninguém se deu o trabalho de ler a mudança proposta pelo projeto.

    • 28/06/2013 at 17:06

      Sebastian, o pior burro é o do seu tipo, que inventa palavras nos textos. Eu não citei o projeto, eu fiz a referência popular ao feliciano como um cara que iria colocar um projeto de cura gay na Câmara, e que até então tinha apoio dos conservadores. Para o meu texto, tanto faz o conteúdo do projeto, mas a fama do Feliciano. Um pragmatista sempre trabalha com a verdade pragmática, a que faz efeito. A religião é verdadeira, para James, pelo tanto que mobiliza as pessoas que acreditam nela. Todo mundo entendeu meu texto, você não. Agora que expliquei mais uma vez, acho que você vai perceber que não deve achar que um filósofo é um cara como você, que pode escrever qualquer coisa, sem responsabilidade social. Não, nós somos figuras públicas, temos responsabilidade. Assim, se eu estivesse tratando do texto da lei, do conteúdo da lei, e tivesse errado, eu acataria sua admoestação nervosa. Mas não posso, pois se acata a sua sugestão, eu invalido o meu ponto de vista. Em outras palavras: se Feliciano apresentar uma proposta X, mas ele propagandear Y e as pessoas acreditarem em Y, o que é analisado no tipo de texto que faço, é Y. O texto é filosófico nesse sentido, ele não é um texto jurídico ou um texto de historiador. Bom, se depois dessa explicação você ainda ficar teimosinho, realmente eu não vou mais me importar com você não. Essa é a terceira ou quarta vez que explico. Caso você queira se decretar incapaz de entender, nem precisa escrever aqui.

  4. Julio
    27/06/2013 at 19:13

    Paulo, vc escreve muito bem. Fora a bagagem de conhecimento, qual o segredo?

    • 28/06/2013 at 00:28

      Júlio, agradeço o elogio, mas se escrevo de modo que as pessoas entendem, talvez seja porque eu escrevo o que sei e o que acredito, sou sincero, e escrevo para leitores, quero ser lido. O resto é treino. Não comecei hoje.

  5. lucio
    27/06/2013 at 15:58

    Paulo, fiquei muito feliz em ler suas análises dos protestos. Está sendo uma experiência libertadora participar desse momento da história brasileira. O maior trunfo desse movimento, ao contrário do que pensam os conservadores tanto da esquerda quanto da direta, está na revolução subjetiva, imprevista, apartidária e auto-organizativa. O indivíduo mostra sua cara. Espero que nossos intelectuais, assim como você, enxerguem todas as dimensões e possibilidades desse momento. As portas e janelas para transformações maiores estão abertas. Parabéns para nós.

    • 28/06/2013 at 00:29

      Vamos enxergar porra nenhuma, Lúcio, eles só vão em manifestação se for para dar “aulinha pública” para aparecer na imprensa.

  6. Eumesmopo
    27/06/2013 at 15:56

    Sobre esses gritos de “fora Dilma” e “PT vai tomar no cu”, eu me pergunto seriamente se os coxinhas estão bravos é com aquilo que o PT de fato fez de ruim (cumplicidade com a corrupção e com o lobby por trás das grandes frentes parlamentares) ou com aquilo que ele fez de bom (redistribuição da renda). Estou fortemente inclinado à segunda resposta.

    • 28/06/2013 at 00:30

      Cara, nem vou dizer nada a você. Enquanto ficar aí do seu pedestal e não participar como gente, interagindo, você vai ficar sempre achando isso, seja isso verdade ou não.

  7. Eduardo
    27/06/2013 at 13:03

    Paulo, excelente texto. No início, achei estranho seu uso do termo “revolução do indivíduo” que não se coadunava com nada do que eu lia em outras mídias, mas aos poucos fui entendendo suas colocações, principalmente quando você colocou a questão da mudança de mentalidade que as redes sociais têm produzido na juventude, gerando uma consciência libertária. Acabei de ler uma análise no IG de Wanderley Guilherme dos Santos dizendo que a direita radical foi o grupo que mais obteve vitórias com as manifestações. Ele diz que essa direita usava slogans do tipo “o povo, unido, não precisa de partido”. Fico pensando como a esquerda está pobre de análises, parou nos anos 80 e não acompanhou mais a dinâmica das mudanças. Acho que alguns intelectuais de esquerda exageram a influência da extrema direita no país e ficam repetindo discursos redutivos.

    Parabéns pelo trabalho e pelo blog, muito esclarecedor.

    • 27/06/2013 at 15:34

      Eduardo, há pessoas que não nasceram para serem intelectuais, só para serem vacas com canga. Quem quer canga?

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