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27/03/2017

Reinvenção tardia da “cultura branca”


RawlsDe um modo particular, específico, a direita brasileira reinventou a “cultura branca”. Nessa ficção conservadora, a “cultura branca” estaria desprestigiada porque o estado brasileiro atenta para a “cultura negra” através de algumas medidas, como as leis contra o racismo ou “políticas afirmativas”, o que envolve basicamente as “cotas étnicas” em escolas, cargos etc.

O problema está justamente aí: não existe efetivamente a “cultura branca”. O grupo branco não é uma minoria no sentido sociológico que o negro é uma minoria. A direita imagina ou quer que imaginemos uma terceira cultura, hegemônica ou neutra, e a “cultura branca” e a “cultura negra” como minorias no interior dessa cultura. Mas não é assim. A tal “cultura branca” é a cultura ocidental. A cultura ocidental é tomada como a cultural tout court. Ela é o meio no qual transitam outras culturas, umas mais integradas nela outras completamente diluídas e mais outras, ainda, brigando pela integração ou contra a integração. Não há preconceito e, portanto, discriminação para quem dá seus passos segundo essa cultura hegemônica.

Uma cultura que se apresenta universal, o faz de duplo modo, ou legitimamente ou ideologicamente ou às vezes das duas maneiras ao mesmo tempo. Explico abaixo.

No primeiro caso, a cultura que se apresenta universal é efetivamente universal, e sendo legitimamente universal reconhece as culturas minoritárias em seus direitos, principalmente os de existência, expressão e cultivo de determinadas tradições que não ferem a ética do todo social. Deve reconhecer isso porque sendo hegemônica não precisa reconhecer a si mesma, mas precisa reconhecer as outras porque dessa maneira faz a sua hegemonia não se efetuar como simples dominação – Weber e Gramsci foram relativamente felizes ao falarem desse tópico.

No secundo caso, sabemos que uma cultura pode se apresentar ideologicamente, ou seja, pode tentar se mostrar como universal quando não é ou quando está negando direitos a outras coisas exatamente porque está perdendo hegemonia ou porque imagina que vá perder – todos os sociólogos aprenderam isso com Marx e desenvolveram teses assim.

No Brasil de hoje, podemos dizer que a cultura ocidental é hegemônica quase que legitimamente. Esse “quase” aparece por questões que fazem com que o liberalismo tradicional não esteja funcionando por aqui – como em lugar nenhum. Ou seja, o liberalismo tradicional prega uma igualdade perante a lei, mas em nossa sociedade a Justiça sempre dá uma espiadinha por debaixo daquela venda nos seus olhos. Ela nota prestígio social, econômico e político. Ela é malandrinha, porque quando ela dá uma só espiadinha e vê um negro, ela logo infere que não vai ter problema em discriminá-lo, uma vez que, sendo negro, dificilmente é “alguém importante”.

Ora, a ideia então é colocar um tipo de armadilha para a Justiça. Colocamos rapidamente negros em posições de importância e quando a Justiça der essa olhadinha e fizer a inferência citada, cai do cavalo. Acaba discriminando não mais “um negro”, mas um (negro) juiz, um (negro) delegado, um (negro) professor universitário, um (negro) médico e até um (negro) senador! Pimba! A Justiça passa então a falar para si mesma: quer saber de uma coisa, não vou dar olhadinha nenhuma, fizeram-me cega com essa venda nos olhos e eu vou ficar “na minha”. Finalmente o liberalismo passaria a funcionar. Ou seja, por uma luta da esquerda e não da direita o liberalismo, que a direita democrática diz amar, é prestigiado.

Um modo de fazer o liberalismo funcionar é reeditá-lo como liberalismo a la John Rawls. A esquerda luta por ele, embora meio que atabalhoadamente porque não sabe quem foi John Rawls. A esquerda brasileira tenta incorporar certas coisas sempre as associando às correntes europeias, francesa e alemã, então, a esquerda pensa que pode falar em Marx para pedir Justiça. Mas essa confusão mental da esquerda não atrapalha muito a luta prática. Na prática, ela sente o cheiro do que é mais justo, do que é mais igualitário, e às vezes faz como o Mr. Maggo: justifica as coisas com Marx, tudo erradamente, e realiza o certo de Rawls (claro, isso quando temos sorte).

Mas o pensamento de direita não entende que a política de esquerda de integração é boa para todo mundo. Os conservadores possuem dificuldade de imaginar que a integração favorece o status quo, não o contrário. O que os atrapalha no pensamento? O que os faz pensar de modo errado? Ora, o elemento psicológico do preconceito, no caso, o racismo, tem um papel nisso tudo. Há o nojo de conviver com o negro nos mesmos locais (da praia ao STF passando pela Universidade). Isso está tão incrustado na mentalidade dessas pessoas que elas reagem sem atitudes racionais, reagem pela parte mais primitiva do cérebro. Essas pessoas são aquelas que já não dizem que o negro não deve usar o banheiro de sua casa, mas que secretamente sabem que é nisso que acreditam. Há mais pessoas assim no Brasil do que podemos admitir.

Fomos o último país a abolir a escravidão negra. E isso só faz cem anos. Estamos ainda com vários de nós na posição desconfortável que estiveram os primeiros mulatos. Todos nós queremos nos dizer “sem preconceitos” porque isso é agora um valor das pessoas mais cultas. Mas uma boa parte de nós tem preconceito de si mesmo porque uma boa parte de nós é bastarda. Há mais bastardo no Brasil do que os brasileiros querem admitir. Ora, a própria palavra “bastardo” já não pode mais ser pronunciada! E nisso a esquerda e a direita estranhamente estão de acordo! A direita que fala empolado sabe muito bem que pode ser tão bastarda quanto o negro pobre que não está nem aí com ser bastardo ou não. No Brasil há uma elite ressentida, desconfiada e temerosa. Ela acusa certas pessoas de esquerda de serem ressentidos e acerta, mas acerta à medida que sua acusação é ensinada pelo Espelho Mágico (sim, o da Rainha Má) que tem em casa.

Toda essa psicologia corre da parte límbica passando pelas vísceras e pelo reto, no corpo de cada um. E jogamos com isso ao endossarmos filosofias sociais e políticas. Há mais coisa entre a cabeça e os pés que a nossa vã filosofia pode mostrar. O erro de não perceber que a noção de “cultura branca” é um dispositivo ideológico, inclusive nada útil, é algo dos recriadores dessa noção, dessa monstruosidade semântica.

Um exemplo final, para que as coisas realmente fiquem entendidas quanto à integração e quanto à criação de uma cultura legitimamente universal. É como se dá no processo da língua: falamos o português que teve origem no latim romano, somos ocidentais, mas damos total legitimidade a todas as palavras de origem africana que já estão nos dicionários. Esse exemplo da língua diz tudo para que a sociologia explicite a sua noção de hegemonia. A direita não entende essa dinâmica. Tudo a amedronta. Ela fica com o raciocínio embotado. O triste de tudo isso é quando ela contamina a esquerda que, então, não consegue mais fazer uma defesa correta dessas boas medidas tomadas a partir da “ação afirmativa”.

© 2012 Paulo Ghiraldelli Jr. , filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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21 Responses “Reinvenção tardia da “cultura branca””

  1. Julio
    04/05/2013 at 17:13

    PG, vc disse num hora da coruja que os praticantes das religiões afro-brasileiras são negros por uma questão de identidade cultural. Queria te perguntar se as pessoas do hip hop e samba também são. Se são têm direito às cotas raciais, não?

    • 04/05/2013 at 19:13

      Julio, seria preciso ser muito burro, mas quase um idiota, pegar um elemento da cultura afro e se achar afro. É um conjunto de coisas, e não é a prática técnica, e a prática cultural. Júlio, essas coisas que escrevo são para ser lidas com alguma inteligência né cara?!

    • Julio
      04/05/2013 at 21:19

      Ora, o hip hop é um conjunto de coisas também. Não envolve apenas música. É uma prática cultural ampla inventada pelo povo black dos EUA. Então, quem é do hip hop é ou não negro? Deve ter ou não direito às cotas?

    • 04/05/2013 at 23:49

      Júlio, fazendo perguntas assim você não vai ficar inteligente nunca. Entende ou não o que quero dizer? Quem come de pauzinho é ou não japonês? Começa a perceber que perguntas como a sua não fazem sentido para a questão de identidade cultural e étnica?

    • Julio
      04/05/2013 at 21:31

      Outra coisa que queria te pergunta sobre as cotas raciais. Pessoas como Karina Bacchi e aquela dentista queimada em Santo André são afro-descendentes, então negras, apesar de não sofrerem qualquer discriminação racial no Brasil, justamente porque para os brasileiros elas são brancas. Porém esses tipos tem tecnicamente direito às cotas. Não é absurdo cota pra pessoas assim?

    • 04/05/2013 at 23:48

      Júlio, você pode estudar mais essas questões, se é que realmente está interessado, em “Filosofia política para educadores” (Manole). Dia 5 há lançamento. Fora isso pode também começar a ler algo em antropologia.

  2. Paulo Vitor Gonçalves
    29/04/2013 at 18:13

    A política de cotas realmente deu e dará certo, levando em consideração o objetivo descrito por você, várias vezes.
    No entanto, os maiores defensores dessa política dão a ela objetivos diversos. Aquele de “reparar injustiças históricas” ou o de “combater as desigualdades”. O tempo todo parece que é por isso que se está fazendo, então muita gente tende a ir contra, propondo a cota social, que é um discurso fácil.

    • 29/04/2013 at 20:05

      Paulo Vitor, a esquerda não sabe explicar as cotas porque a esquerda não sabe explicar mais nada. Estão perdidos. Estão patinando, só o fato de aparecer um Zizek, que não diz coisa com coisa, mostra bem isso.

  3. Wilson
    29/04/2013 at 08:39

    Paulo,
    Muito bom seu texto. Pena que é para poucos, como já pudemos ver em alguns posts acima. Abraços.

    • 29/04/2013 at 20:12

      Não é para poucos não, Wilson. Esse blog faz barulho. Os comentários não são muitos, mas o acesso é forte, e se multiplica na minha página, nas redes sociais.

  4. Thiago Carlos Alves do Nascimento
    28/04/2013 at 21:32

    http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2013/04/1269984-cotistas-tem-desempenho-inferior-entre-universitarios.shtml

    Paulo você chegou a ver essa notícia da folha? Os chatos de internet devem estar pulando de felicidade com uma conclusão destas…

    Além disso acho que eles estão considerando a cota por aquilo que ela não é (solução de problema educacional) =/

    • 29/04/2013 at 20:13

      Já era esperado, pois mudou o tipo de cota. Além disso, mudou outras coisinhas também na forma de receber alunos, de avaliar para receber etc. Mas, esse pessoal não sabe que as cotas não são para aprender mais ou menos, as cotas são uma forma de termos outras pessoas em lugares que não tínhamos, é isso que importa no momento. A sociedade brasileira não está interessada em educação, com cotas ou sem cotas.

  5. Mauricio Bonetti
    28/04/2013 at 18:34

    Realmente. O preconceito que a elite e a velha classe média tem vem das visceras, mesmo. Acho muito curioso esse fenômeno. O Lula foi eleito presidente e o que incomodava as pessoas não eram as suas decisões políticas. Aliás não era incomodo, era nojo. A velha classe média tem nojo de imaginar que um retirante nordestino, sem dedo, lingua presa, barbudo e sem títulos da academia ia viajar o mundo, frequentar os palácios mais nobres e discursar para as pessoas mais influentes do mundo.
    Alías, muito me estranha, pois as pessoas que sentem esse nojo são, em sua maioria, aqueles que fizeram o ensino médio nos anos 60 e 70. Será que não aprenderam a ler os bons textos?

    • 29/04/2013 at 20:19

      O ensino médio nos anos 60 e 70? Será Maurício. Acho que esse pessoal apita pouco, é minoria. O Brasil está se tornando só agora um país de velhos. Até pouco tempo era um país de jovens. O grosso do eleitorado que tem preconceito vem de todos os lados. Em geral o preconceito vem de quem está mais próximo de perder posição. O muito pobre ou o muito rico não possuem preconceito. O de classe média, mas que tem êxito, também não. Mas o que tem medo de descer socialmente, sempre se revoltou contra o Lula, até mesmo pelo fato do Lula vir de um sindicalismo poderoso que fazia greve mesmo tendo operários que nos anos 60 e 70 (veja aí a coincidência!) já ganhava mais que pequenos empresários, professores etc. Algumas pessoas ficavam putas com isso, com o fato do cara, numa multinacional e de macacão, ganhar mais que o cara de um escritório no centro da cidade. Entende?

  6. Nicelio
    26/04/2013 at 14:45

    Bom dia professor,

    Eu não pude deixar de pensar, ao ler seu texto, no livro ” Admirável Mundo Novo” de Huxley e na idéia de uma classe melhor (possivelmente com a cultura branca). Estes seriam os Alfas de Huxley. A propósito existe até uma revista chamada ALFA. Estranha coincidência.

    A política de afirmação com cotas, a meu sentir, é também uma declaração de incapacitação do estado brasileiro. Das duas uma:

    I – Ou o Estado não se deseja de fato uma educação de forma universal. (No Admirável mundo novo, por exemplo, há uma seqüência onde se provoca choque elétrico nas crianças quando estas se aproximam das flores e livros, ou seja, afastar as classes não Alfa, ou não branca (?) do conhecimento)

    II – Ou o Estado não pode. Não pode por estar a serviço de interesses corporativos, mais uma vez vinculados a grandes corporações ( bancos, montadores, industria alimentícia, industria farmacêutica, etc). Os interesses destas corporações teriam na prática força de Estado.

    Abraços,
    Nicélio

    • Nicelio
      26/04/2013 at 14:46

      Na verdade já era boa tarde quando postei o comentário. Abraços

    • 26/04/2013 at 21:32

      Nicélio, você está errado. A política de bolsas é uma política estatal possível. E deu certo. As cotas também. A reforma geral, essa é perigosa.

  7. arthur
    25/04/2013 at 22:03

    Os negros ocupam hoje lugares que não ocupavam antes.Isso não tem nada a ver com cotas.
    Quanto á justiça, ela tem que ser cega. Se aceitarmos essa “espiadinha”, estamos negando todo o liberalismo(tradicional ou qualquer outro),pois é praticamente impossível enganar a justiça que, uma vez olhando, tem infinitas formas de discriminar.

    • 26/04/2013 at 21:35

      Arthur, o seu país não é o meu. No seu, os negros estão na boa. No meu, eles estão em melhor posição que estavam, mas não na boa e a questão das cotas não é para deixá-los felizes, individualmente, é outra coisa que eu expliquei bem, mas você não pode entender. O preconceito seu com política social é muito forte.

  8. Arthur
    25/04/2013 at 18:16

    Seu texto faria bem mais sentido há uns 40 anos atrás.Hoje você liga a tv, vê negros em posição de destaque, e então deduz que alguém,lá na intimidade da alma,não os tolera.Daqui 20 anos você escreve de novo dizendo que as cotas fizeram um ministro do STF.

    • 25/04/2013 at 18:20

      Arthur, você tentou ser irônico, mas não conseguiu. Acabou sendo tolo. Acho que se ler de novo o que escreveu, vai ficar com vergonha.

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Filósofo