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16/12/2017

Julio Kadetti põe em cena a carabina e a Lili


Texto indicado para o público em geral

Aguinaldo Silva é excelente no que faz. Dizer isso é chover no molhado. Mas o chover no molhado do futuro será dizer a mesma coisa de seu roteirista, Júlio Kadetti, formado em filosofia pelo Mackenzie, que trouxe para o palco teatral a peça de Aguinaldo, Lili Carabina. É difícil uma história com cenas excessivamente urbanas e que buscam o Rio de Janeiro como cenário ser tão bem narrada e disposta num palco no estilo minimalista: os atores são tudo. Júlio apostou alto. Corajoso. Deu certo.

Pode-se dizer: ah, daria certo mesmo, com aquele elenco! Um elenco de primeira. Mas, isso é meia verdade. O elenco no qual Júlio apostou podia escorregar porque a sua proposta foi “coisa de macho”. Do centro do palco brotaram as nádegas espetaculares de Viviani Araújo, colocando imã em toda a trama, sem nublar os outros atores que impressionaram as sucessivas levas de público. Capacidade de sedução. Até os que tiveram pequenas participações deixaram marca profunda em quem foi ver a peça. Sinceramente, se há algo a se ter orgulho no Brasil é desses atores, especialmente aqueles que animam os palcos sem o grande estrelado proporcionado pela TV. O Brasil é um país do teatro e, não à toa, sua teledramaturgia é espetacular.

Claro que a história é pesada. Nenhuma história policial da Baixada Fluminense (eu morei lá) pode ser leve. Mas Aguinaldo e Júlio trouxeram para uma história policial da Baixada um ingrediente novo. E o rosto de Viviani fez o que tinha de fazer.  A trama toda se passa segundo um fio condutor que, para a minha leitura, gira em torno do dito de Simone de Beauvoir. Ela escreveria algo assim: Lili não nasceu mulher, tornou-se mulher. Judith Butler faria o resto, dizendo: Lili só virou mulher quando a batizaram de bandida. A peça é monstruosamente feminista e atual. Só o jogo dos discursos de poder que enredam a dona de casa Lili a fazem mulher, colocando-a como sujeito e objeto de sua história.

Lili é dona de casa. Tem seu marido torturado e morto por um crime que não cometeu (ao menos assim ela presume). E então foge com o bandido que, estranhamente, vem lhe dizer que o marido era inocente, lhe dando um dinheiro como que se fosse por uma estranha indenização. Lili não titubeou: chega de ser dona de casa! Foi com o bandido e se tornou uma lenda. Uma vez bandida, cantora, gostosa e mulher, então virou mulher. Mãe ela foi desde sempre. Fumando no palco cigarros com “gosto de xoxota”, trouxe toda a plateia para cada uma das cenas de um modo que, se eu fosse o Júlio, choraria. Talvez ele tenha chorado.

Lili Carabina saiu de cena em São Paulo. Terminou a temporada aqui. Se for para a sua cidade, não perca.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. 03/12/2017

Foto abaixo: Fran, Viviani Araújo, Paulo e Paulo Francisco

Foto abaixo: Aguinaldo Silva, Viviani Araújo e Júlio Kadetti

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2 Responses “Julio Kadetti põe em cena a carabina e a Lili”

  1. Luiz Amorim
    03/12/2017 at 23:34

    Belas palavras, Paulo Ghirardelli Jr.! Eu, que tive a honra de participar desta história, agradeço seu olhar tão dedicado e carinhoso. Certamente nos honra muito a sua opinião, tão especializada, e que pode destacar os méritos desta produção que não mediu esforços para colocar em pé esta história que já é um clássico. E o reconhecimento deste esforço é a certeza de que valeu a pena! Obrigado!!!

    • 04/12/2017 at 06:39

      Amorim, imagina! Só fiz um pequeno artigo diante do monstro espetacular que vocês fizeram!

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