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16/12/2017

O Papa Francisco e eu – poderosíssimos em “De olhos bem abertos”


Artigo destinado ao público em geral

Theodor Adorno tem um livro inteiro de seus sonhos. Nunca me achei tão importante assim, a ponto de publicar até os sonhos! Bem, também não sei o quanto Adorno permitiu a publicação, mas, enfim, que escreveu com algo mais que notas, escreveu! Da minha parte, sempre me contentei em ouvir toda manhã os sonhos da Fran, um baú de surrealismo capaz de fazer qualquer Kafka ficar  pensando. Todavia, essa noite, agorinha, sonhei algo que preciso compartilhar, como seu fosse um desses artigos que faço aos borbotões, por conta deles pularem da boca (ou da digitação) e darem sentido à minha vida.

Sonhei com o Papa. O cenário era o Vaticano. Uma imensa peça teatral ocorria em todo o Vaticano, sem deixar espaço no território do pequeno estado. O território era o palco. Como se fosse uma daquelas cerimonias da época do pré-teatro grego, quando personagens não eram personagens, mas incorporações. Milhares de pessoas estavam ali vivendo a peça. Desencadeava-se num tom realístico, porque ao mesmo tempo que era completamente uma alusão à vida na Terra, em todos os sentidos, era também um destino possível, construído ali mesmo. Uma peça em tom oracular. O que fosse ali decidido, poderia realmente dar rumos para uma narrativa distribuída factualmente para todos na Terra.

Tudo ocorria num clima mais ou menos parecido à cerimônia satânica do filme de Kubrick, “De olhos bem fechados”. Mas sem necessariamente o tom pesado ou de trevas, do filme. Talvez o modo de ocorrer das cenas, simultâneas em cada sala, seja o elo comum com o sonho.

O Papa estava em várias cenas, percorrendo os acontecimentos que, a cada esquina, praça ou prédio, iam se desenrolando. Não havia espectadores, só atores que, por sua vez, eram de fato espectadores. Um teatro participativo em duplo plano. O Papa participava e dirigia a peça, mas só em pensamento, e sem grande controle dos artistas. Eu o seguia a passos pequenos, vestido em uma túnica vermelha e prateada. Ele deslizava, eu andava. Assim, ele estava sempre um pouco mais alto do que eu. Paramos diante do corpo de Jesus morto, monumento que povoa todo tipo de igreja. Mas naquela, o corpo estava de um modo diferenciado.

Enquanto todos estavam aos reboliços desempenhando seus papeis, como se um quadro renascentista se desdobrasse e brotasse em forma animada por todos os poros do Vaticano, o Papa Francisco – aí sim eu vi que era ele mesmo – levantou a cabeça para olhar Jesus morto. Eu também fiz o mesmo, logo em seguida. Lá estava o homem deitado em um túmulo que parecia um lago artificial, com as águas mexendo e soltando brilhos e desenhos psicodélicos (desculpem essa descrição anos 70). Era um lago-piscina. Jesus não estava morto, mas dormindo. Estava nu e junto dele havia outras duas figuras. Eram mulheres lindíssimas, uma negra e outra branca. Todos dormiam o sono do sexo feito e satisfeito. Francisco olhou com aquele olhar tipicamente de Papa, sem grandes reações, e se foi. Eu fiquei mais tempo, mas logo o segui. Foi então que paramos num lugar central do Vaticano, um tipo de trono capaz de ver tudo que ocorria, mesmo através de paredes, mas sem precisar olhar. Sabíamos de tudo que ocorria na peça por uma espécie de clarividência mental. Foi então que sentei-me à direita do Papa, e ele me dirigiu a palavra.

Francisco I virou para mim com aquela cara de argentino que mais parece italiano e me disse: você deveria interferir no mundo, ver a maldade do mundo, fazer algo. Só então percebi que eu era nada mais nada menos que uma força superior. Francisco não era só Francisco, mas Deus. Eu era o Demônio. Respondi a ele que os homens não precisavam de mim, que eles faziam o necessário por eles mesmos, e que preferia deixá-los seguir livremente. Fiz isso de modo humilde, respeitoso, mas não sem um sorriso interno, maroto, como se pondo o tema na mesa: o da liberdade. Isso contrariou Francisco, que insistiu que eu deveria interferir. Ou seja, como eu era o Demônio, o que ele queria é que eu me responsabilizasse pelo mal do mundo. Olhei toda a cena, e ele fez o mesmo. Dei-lhe de novo a mesma resposta, mas todo cuidadoso para não lhe faltar o respeito: “os homens já fazem o necessário, não tenho o que acrescentar entre eles”.

Percebi então que a conversa já não era mais só entre eu e Francisco, sob nossas vestes adrede preparadas, mas entre dois professores de filosofia. Ele querendo que a Maldade se fizesse sentir no mundo, com endereço e RG e CPF. Eu tentando me livrar disso, mas não por falta de coragem, mas por ver que os homens merecem ser livres para fazerem essa maldade toda continuar. Não via mesmo necessidade de qualquer coisa a mais do que eu já fazia. E ele me perguntou: bem, mas o que você faz então, nada, o dia todo sem fazer nada? E eu lhe respondi: eu questiono, ponho perguntas para esse pessoal todo. Devo parar? Francisco não respondeu e eu acordei. A sensação era a de que Baudelaire estava corretíssimo ao poetar “a mistura do grotesco e do trágico é agradável ao espírito, como as discordâncias aos ouvidos enervados”.

Esse sonho não me serviu para nada, até agora. Mas a Fran riu muito. Bem, serviu sim, fiz mais um texto, desses que ou saem de mim ou morro.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Gravura: foto de Paulo Pinto do Ateliê de máscaras de Mário Belloni, em Veneza. Belloni é o criador das máscaras utilizadas em “De olhos bem fechados”, filme de Kubrick.

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One Response “O Papa Francisco e eu – poderosíssimos em “De olhos bem abertos””

  1. Hilquias Honório
    03/12/2017 at 17:04

    Alguns sonhos são verdadeiras obras de arte!

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