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22/10/2017

Você é um pai bunda?


Não, não é bunda mole. Não é bundão. É bunda. Quase bosta. Isso é um pai de agora, com filhos na escola, talvez já na universidade. O indivíduo está entre trinta e quarenta e cinco anos, talvez cinquenta. Profissão: fracassado. Sim, fracassado, ganhando bem ou não. Seu retrato: o pai do baterista do filme Whiplash. Afinal, o garoto não queria tirar o professor durão da escola, mas a caçadora de durões (assistente social?) falou com o pai e o pai defendeu o seu filhinho. 

Quem é aquele pai? O maestro-professor sabia quem era desde o primeiro momento. Ele diz em um determinado momento do filme, algo mais ou menos assim: “você é filho do escritor que nunca escreveu nada, na verdade um mísero professor de português”. Um professor de português pode ser um bom professor. Mas não se ponha como escritor se nunca publicou nada. Ou nada de relevante. E mais: não fique buscando seu filho, já universitário, para comer pipoca no sofá de casa. Ir com o filho no cinema já tá bom! Numa livraria, tá, tá! Mas daí em diante, é demais. E pior ainda: querer proteger o filho do mundo porque você mesmo é um bunda (pronto, falei a palavra e agora ela fez sentido né?), é acabar com vida do filho. Seja só você o bunda. Um bunda na família já está bom.

Atualmente no Brasil há uma geração “mimimi”. Mas ela não é o único problema do país, que está se feminilizando (cuidado aí com a crítica desse meu termo, caro energúmeno!) a passos largos. O problema maior é que a geração “mimimi” é filha da geração de pais “mimimosos”, o pai que chamo aqui de bunda. A geração que mostra o pai bunda.

O pai bunda, ou bosta, é este que esta sendo chamado por várias faculdades em São Paulo (sim! e não vou citar nomes das faculdades, embora a imprensa já tenha feito isso.) para ouvir sermões do tipo: “você tem que ser mais enérgico com o seu filho, tem de fazê-lo vir à aula, não pode vir aqui no final do ano, com ele, para pressionar para que ele passe se ele nem na aula veio etc etc.). Pasmem, isso está acontecendo. Não pasme, se você é esse pai bunda, apenas mude de atitude, seu bunda!

Os conservadores estão entre os bundas. Mas eles, nas redes sociais, arrotam “meritocracia”, “linha dura”, atacam minorias etc. Dizem que isso é tudo culpa da esquerda e de política de minorias. Bobagem. Outro países com e sem política de minorias enfrentaram ou enfrentam esse problema. Mas, no Brasil, a coisa está tomando uma proporção nacional e decisiva no âmbito cultural, social e político.

O comportamento que denuncio aqui extrapolou as divisões de classes sociais. Antes só o garoto rico burrinho era “filhinho de papai”. Era o que ia para a escola “papai pagou, passou”. Agora é a classe média e até os pobres que ameaçam escolas e professores se seus rebentos, completamente analfabetos e sem qualquer caráter, não passam de ano ou são repreendidos. Todo mundo virou “mulherzinha”, “mariquinha”, como dizíamos no passado. Agora, talvez apareça pais de todas as classes sociais na escola se ouvirem dizer que alguém falou que o filho é um “maricas”, não no sentido de gay, mas no sentido de quem não enfrenta nada (aliás, esse era o sentido!). Não custa nada o pai bundão, pobre ou rico, querer processar a escola por … bullying! Sim, todo mundo agora é ofendido de nascença. Estamos já na porta de processarmos o médico que der um tampinha tradicional no bebê, para fazê-lo chorar e respirar, ao nascer.

Antes nascíamos com o pecado original. Não sei qual pastor evanjegue mundou a Bíblia, mas mudou. A Bíblia do brasileiro agora é diferente: todo mundo no Brasil nasce ofendido, e logo passa a ressentido. É o único país do mundo em que o rico bate panela contra o governo que o faz ganhar mais, e fica ressentido. É o único país do mundo em que a classe média quer ver seus filhos irem para a escola e não aprender. É o único lugar do universo onde o pobre incorpora esse ideologia do rico e adora meter o pau na escola, mesmo sendo esta a única instituição que pode lhe oferecer ajuda. O Brasil odeia os mais velhos, o professor, a escola. O pai que antes era a favor dos mais velhos, da escola e do professor, agora odeia tudo isso também. Aprova o filho em falcatruas e no desrespeito. É o pai bunda. É o pai que pode apanhar do filho e ao invés de prender o filho, se mata. Ou não, e continua tendo filhos iguais!

A cada dia a nossa sociedade aparece mais e mais desgastada por pais bundas. É talvez o maior cancro atual de nossa sociedade. Essa é nossa maior corrupção: a do caráter do pai.

Você é um pai bunda? Frustradão? Não consegue melhorar? Por favor, se mate. Caso não tenha coragem, ao menos não faça mais filho.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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10 Responses “Você é um pai bunda?”

  1. Micaías de Souza
    16/05/2015 at 00:07

    Ele usa “Você sabe com quem está falando?” mas não consegue respeitar nenhuma autoridade constituída e incentiva seu filho, Bosta- Junior, a desrespeitar professor, policial, a lei… E quando qualquer um destes profissionais o intima, o bosta usa o jargão autoritarismo.

  2. Max Landscheck
    12/05/2015 at 13:01

    Ótimo…

  3. Ane Mônysy
    11/05/2015 at 21:45

    Não sei porque, mas me remeti também aos pais super protetores – que ao mesmo tempo também interliga-se aos frustrados, mas também tem aqueles de filhos únicos e coisas do tipo.
    Não referindo aqueles que se preocupam de forma sã com seus filhos, mas aqueles que possuem a capacidade de não enxergar quando seus filhos erram.
    Ah; se for levar mesmo esse assunto em conta veremos quanta coisa isso influencia. Porque é culpa desses pais aí (bundões) que vemos tantos homens que nunca deixaram de ser moleques. Que não possuem responsabilidade alguma, pois sempre tem um bosta pra defender e encobrir suas merdas.
    Afinal; papai faz tudo pelos filhinhos! – O que dá a liberdade dos filhos fazerem o que bem entenderem.

    • ghiraldelli
      12/05/2015 at 11:35

      Temo que a expressão “dá a liberdade” já não caiba. O problema já está nos pais, neles mesmos. O problema que você relata ficou pequeno perto deste, infelizmente.

    • Ane Monysy
      12/05/2015 at 12:34

      Compreendo seu ponto de vista.

  4. Filandiere
    11/05/2015 at 21:29

    Professor ótimo texto. Eu não quero ser pai bunda, quero só comer a mesma.

    • ghiraldelli
      12/05/2015 at 11:35

      Bem, bundas são feitas também para serem comidas. Espero que não a minha.

  5. claudio dionisi
    11/05/2015 at 15:40

    O pai bunda é assim: quer pena de morte para o trombadinha que roubou o ipod da sua filha, chama de negro vagabundo o policial que apreendeu seu filho dirigindo bêbado, e briga com todos na creche porque algum bebê chamou o seu de bobo!

    • ghiraldelli
      11/05/2015 at 15:51

      É isso!

    • Guilherme Gouvêa Picolo
      12/05/2015 at 08:25

      Além disso, esse tipo babaca adora frases de efeito, como “Você sabe com quem está falando?” e não hesita em fraudar a declaração de imposto de renda, mas faz um discurso toda vez que vê uma notícia sobre corrupção na política.

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